Prótese de Quadril e Joelho com Alta no Mesmo Dia: Como Funciona e Quem Pode Fazer

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

O que significa ir para casa no dia da cirurgia de prótese de quadril e joelho, o que muda em relação à internação tradicional, quem é candidato e por que a decisão é feita caso a caso com o cirurgião.

A prótese de quadril e joelho (as cirurgias que substituem a articulação desgastada por uma articulação artificial) sempre significou passar alguns dias internado. Nos últimos anos, uma parte dos pacientes bem selecionados passou a ir para casa no mesmo dia da cirurgia, sem dormir no hospital. Em ortopedia, isso se chama artroplastia ambulatorial, que quer dizer ir para casa no mesmo dia da cirurgia [1].

Eu preparei esta página para explicar, em linguagem simples, o que muda quando o paciente vai para casa no mesmo dia da prótese de quadril e joelho, quem pode fazer, por que isso se tornou possível e por que nem todo mundo é candidato. O conteúdo é um resumo do que a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (a maior sociedade da especialidade no mundo, sigla AAOS) publicou no livro Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction, edição 7, de 2026 [1], apoiado em estudos que verifiquei um a um.

Um aviso importante logo no começo. Ir para casa no mesmo dia é uma opção para alguns pacientes, e não uma regra para todos. Nada aqui substitui a consulta. A decisão sobre operar em regime ambulatorial ou com internação é individual, e eu tomo essa decisão junto com cada paciente, avaliando a saúde geral e o apoio que a pessoa tem em casa. Para entender melhor as cirurgias em si, você pode ler as páginas sobre prótese de quadril e prótese de joelho.

Paciente idosa caminhando com andador pelo corredor do hospital, acompanhada por um profissional de saúde
Andar no mesmo dia da cirurgia deixou de ser exceção. Com anestesia moderna, controle da dor em várias frentes e fisioterapia já no leito, a maioria dos pacientes dá os primeiros passos ainda nas primeiras horas — com apoio e supervisão. Foto: Pexels

O que muda quando o paciente vai para casa no mesmo dia

Na internação tradicional, o paciente opera e passa uma ou mais noites no hospital antes de receber alta. Na cirurgia ambulatorial, o paciente selecionado opera pela manhã ou no início do dia, fica algumas horas em observação e, se cumprir alguns critérios de segurança, recebe alta para casa no mesmo dia [1].

O que muda, na prática, é o lugar onde acontece a primeira recuperação. Em vez de passar a primeira noite no hospital, o paciente passa essa noite em casa, com um acompanhante. A prótese e a técnica cirúrgica são as mesmas, e o cuidado no pós-operatório segue com o mesmo rigor. O que se organiza de forma diferente é a anestesia, o controle da dor e o preparo antes da cirurgia, para que a pessoa esteja em condições de andar, se alimentar e urinar antes de ir embora [1].

A Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos descreve alguns motivos pelos quais esse formato cresceu em pacientes selecionados: menor exposição ao ambiente hospitalar, recuperação em casa e, em estudos com pacientes bem escolhidos, resultados comparáveis aos da internação tradicional [1]. Isso não significa que a alta no mesmo dia seja melhor para todos. Para o perfil adequado de paciente, ela é uma alternativa segura à internação [1].

Da cirurgia ambulatorial à primeira noite em casa

  1. No dia da cirurgia

    Cirurgia pela manhã ou no início do dia

    O paciente selecionado opera e fica algumas horas em observação.

  2. No mesmo dia

    Alta se cumprir critérios

    Recebe alta para casa no mesmo dia se cumprir critérios de segurança.

  3. Primeira noite

    Recuperação em casa

    Passa a primeira noite em casa, com acompanhante.

As faixas de tempo são aproximadas. Cada pessoa tem o seu ritmo, e quem acompanha o seu caso é o seu médico.

Prof. Dr. Daniel Fernandes · drfernandes.com.br

A sequência de etapas no dia da cirurgia e na primeira noite fica mais clara em marcos do que em texto corrido.

Por que isso se tornou possível

A alta no mesmo dia se tornou possível porque três áreas melhoraram ao mesmo tempo: a anestesia, o controle da dor e a técnica cirúrgica [1].

Anestesia que passa mais rápido. A raquianestesia (anestesia aplicada nas costas, que adormece do quadril para baixo) continua sendo bastante usada na prótese por dar um bom bloqueio e causar menos náusea e vômito do que a anestesia geral [1]. Um estudo de 2023 publicado no Journal of Arthroplasty comparou três anestésicos usados nessa raquianestesia em 1.217 cirurgias de prótese de quadril e joelho. A lidocaína e a mepivacaína, que têm duração mais curta, se associaram a menos dificuldade para urinar depois da cirurgia do que a bupivacaína (retenção urinária de 1,5% e 2,8% contra 9,1%) [2]. Isso importa porque a dificuldade para urinar é uma das causas mais comuns de o paciente não conseguir ir para casa no mesmo dia [1].

Melhor controle da dor. Hoje a dor é tratada com várias técnicas combinadas ao mesmo tempo, o que em ortopedia se chama analgesia multimodal. Além dos comprimidos, o anestesista pode fazer uma anestesia aplicada perto dos nervos do joelho, que deixa a região dormente e reduz a necessidade de remédios fortes, e o cirurgião pode infiltrar anestésico ao redor da articulação durante a operação [1]. Um estudo de 2023 mostrou que começar alguns desses remédios antes de a dor aparecer reduziu, de forma modesta, a dor inicial e o uso de opioides depois da cirurgia [3].

Técnica de operar o quadril pela frente. No quadril existe uma via de operar pela frente, chamada acesso anterior, que costuma passar entre os músculos sem cortá-los. Isso tende a ajudar o paciente a levantar e andar mais cedo, o que favorece a alta no mesmo dia em quem foi selecionado para esse formato [1]. Explico esse ponto com mais cuidado na seção sobre o acesso do quadril.

Quem pode fazer, e quem é melhor internar

A Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos deixa claro que ainda não existe uma regra única definindo o candidato ideal à alta no mesmo dia. A escolha é feita caso a caso [1]. Na consulta, eu avalio o conjunto da situação de cada paciente antes de propor esse formato.

De forma geral, o candidato mais adequado à cirurgia ambulatorial é a pessoa com boa saúde geral, com as doenças crônicas sob controle (como diabetes, pressão alta e problemas do coração ou do pulmão), que se locomove bem antes da cirurgia e que tem apoio em casa [1]. Esse apoio é um ponto que eu considero tão importante quanto os exames: a pessoa precisa de um acompanhante de confiança nas primeiras 24 a 48 horas e de uma casa com acesso seguro, sem muitos degraus [1].

Por outro lado, alguns pacientes se beneficiam mais de ficar internados. É o caso de quem tem várias doenças associadas, risco anestésico mais alto, cirurgia mais complexa (como uma revisão de prótese) ou pouco apoio em casa [1]. Ficar internado por uma noite, nesses casos, é a escolha mais segura, e continua sendo o padrão da maior parte das próteses feitas no mundo [1]. Escolher a internação junto com a equipe também é uma decisão adequada.

O acesso do quadril pela frente e a alta no mesmo dia

Quando faço uma prótese de quadril, preciso escolher por onde vou chegar até a articulação. Existem três caminhos clássicos: pela frente da coxa (acesso anterior), pela lateral (acesso lateral) e por trás (acesso posterior). Os três são válidos e levam a um quadril novo funcionando bem quando feitos por uma equipe experiente naquela técnica [1].

No cenário específico da alta no mesmo dia, um estudo de 2023 publicado no Journal of Arthroplasty comparou o acesso anterior com o posterior em pacientes já selecionados para ir para casa no dia da cirurgia. Os pacientes operados pela frente tiveram uma chance maior de conseguir a alta no mesmo dia (falha em ir para casa de 5,9% no acesso anterior contra 12,1% no posterior) e um tempo de cirurgia menor, com resultados de dor e função equivalentes em 12 meses [4]. A vantagem apareceu na logística do dia da cirurgia; o resultado final depois de um ano foi equivalente nos dois acessos [4].

É importante ler esse dado sem exagerar. O estudo foi feito em um centro com muita experiência nos dois acessos, e a maior parte dos pacientes operados pela via posterior também conseguiu ir para casa no mesmo dia [4]. O acesso posterior continua adequado e é o mais usado no mundo, especialmente em casos mais complexos e conforme a experiência da equipe [1]. Além disso, nem todo paciente é candidato ao acesso anterior: obesidade central importante e algumas deformidades ósseas podem tornar a via da frente mais difícil, e aí o acesso posterior pode ser a escolha melhor [1]. A escolha da via é uma decisão clínica minha, avaliando a sua anatomia, a sua saúde geral e o plano de recuperação combinado com você.

Acesso anterior vs posterior no estudo de 2023

Estudo do Journal of Arthroplasty em pacientes selecionados para alta no mesmo dia

AcessoFalha em ir para casa no mesmo diaResultado em 12 meses
Anterior5,9%Dor e função equivalentes
Posterior12,1%Dor e função equivalentes

Os três acessos clássicos são válidos; a escolha depende da anatomia, saúde geral e experiência da equipe.

Prof. Dr. Daniel Fernandes · drfernandes.com.br

A comparação percentual entre os dois acessos é o conteúdo central e aparece melhor em tabela.

Quando a alta no mesmo dia não acontece

Mesmo com uma seleção cuidadosa, alguns pacientes que iriam para casa acabam precisando ficar internados. Em ortopedia, isso é chamado de failure to launch, que significa quando a recuperação demora mais do que o esperado no dia da cirurgia. É uma situação prevista no plano e conduzida com segurança, e não configura uma complicação [1].

Um estudo de 2024 publicado no Journal of Arthroplasty, feito em um centro acadêmico de grande volume, mostrou que 94,2% dos pacientes programados para alta no mesmo dia conseguiram ir para casa, e 5,8% precisaram ficar internados [5]. Os motivos mais comuns para ficar foram uso de anestesia geral em vez de raquianestesia, náusea, tontura, dificuldade para urinar, cirurgia começando mais tarde no dia e recuperação mais lenta na fisioterapia [1,5]. O ponto que eu mais valorizo nesse estudo: os pacientes que ficaram internados não tiveram mais reinternações nem mais idas ao pronto-socorro do que os que foram internados de forma planejada [5].

Outro estudo de 2024, no mesmo periódico, comparou quem foi para casa no mesmo dia com quem ficou internado, e encontrou taxas parecidas de retorno ao pronto-socorro e de reinternação nos dois grupos, com risco um pouco maior em pacientes com diagnósticos psicológicos prévios, risco anestésico mais alto e idade mais avançada [6]. Por isso, quando o plano é ir para casa no mesmo dia, eu deixo combinado desde o início que ficar internado, se for necessário, faz parte do plano, e não é sinal de que algo deu errado.

O que isso significa para você

Se você vai operar uma prótese de quadril ou joelho, alguns pontos práticos ajudam a conversar comigo na consulta [1]:

  • Pergunte cedo sobre o plano de alta. Saber desde o começo se você é candidato à alta no mesmo dia ajuda a organizar o apoio em casa e o retorno ao trabalho.
  • Trate as condições clínicas antes da cirurgia. Controlar o diabetes, o peso, a anemia e a alimentação melhora a recuperação [1].
  • Prepare o corpo antes. Uma revisão que juntou 22 estudos e 1.601 pacientes mostrou que exercícios feitos antes da cirurgia melhoraram a dor antes da prótese e reduziram o tempo de internação no joelho [7]. O fisioterapeuta pode orientar um programa para o seu caso.
  • Organize um acompanhante para as primeiras 24 a 48 horas. Esse item pesa tanto quanto qualquer exame.
  • Reconheça os sinais de alerta. Dor que não melhora com a medicação, febre, sangramento intenso, dificuldade para urinar, dor no peito ou falta de ar são motivos para entrar em contato comigo ou procurar o pronto-socorro.

Ir para casa no mesmo dia é uma opção para alguns pacientes, tomada em conjunto na consulta. Para outros, a internação por uma noite é a escolha mais segura, e as duas rotas são cuidados adequados. O que define o caminho mais adequado é a avaliação individual, e é o que eu faço com cada paciente. Se quiser entender a doença que leva à cirurgia, veja também as páginas sobre artrose do quadril e artrose do joelho.

Ainda não decidiu pela prótese?

Se você chegou a esta página pesquisando antes de operar, o melhor ponto de partida é entender quando a prótese é indicada, como é a cirurgia e como é a recuperação, explicado pelo Prof. Dr. Daniel Fernandes com base em estudos publicados:

Referencias

  1. Fricka KB, Murphy MP. Outpatient Total Joint Arthroplasty. In: Gausden EB, Mihalko WM, eds. AAOS Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction 7. Wolters Kluwer; 2026. Chapter 5. ISBN: 978-1975248437. link
  2. Slaven SE, Dedeogullari ES, Parks NL, Sershon RA, Fricka KB, Hamilton WG. Spinal Anesthesia for Primary Hip and Knee Arthroplasty: Comparative Rates of Transient Neurological Symptoms and Urinary Retention Using Lidocaine, Mepivacaine, and Bupivacaine. J Arthroplasty. 2023;38(6S):S42-S46. link
  3. Passias BJ, Johnson DB, Schuette HB, et al. Preemptive multimodal analgesia and post-operative pain outcomes in total hip and total knee arthroplasty. Arch Orthop Trauma Surg. 2023;143(5):2401-2407. link
  4. Passano B, Simcox T, Singh V, Anil U, Schwarzkopf R, Davidovitch RI. Does Surgical Approach to the Hip Play a Role in Same-Day Discharge Outcomes? J Arthroplasty. 2023;38(7 Suppl 2):S294-S299. link
  5. Radtke LE, Blackburn BE, Kapron CR, et al. Outpatient Total Joint Arthroplasty at a High-Volume Academic Center: An Analysis of Failure to Launch. J Arthroplasty. 2024;39(9 Suppl 2):S134-S142. link
  6. Treu EA, Blackburn BE, Archibeck MJ, et al. Risk Factors for Return to the Emergency Department and Readmission After Same-Day Discharge Total Joint Arthroplasty. J Arthroplasty. 2024;39(8):1967-1973. link
  7. De Klerk TC, Dounavi DM, Hamilton DF, Clement ND, Kaliarntas KT. Effects of home-based prehabilitation on pre- and postoperative outcomes following total hip and knee arthroplasty. Bone Jt Open. 2023;4(5):315-328. link

Perguntas Frequentes

Toda prótese de quadril ou joelho pode ser feita com alta no mesmo dia?

Não. A seleção é individual. Pacientes com várias doenças associadas, risco anestésico mais alto ou sem apoio em casa costumam se beneficiar da internação tradicional. Em centros com grande experiência, cerca de 94% dos pacientes selecionados conseguem alta no mesmo dia, mas a indicação depende de uma avaliação clínica cuidadosa [1,5].

Ir para casa no mesmo dia é seguro?

Em pacientes bem selecionados, os estudos mostram taxas de reinternação e de retorno ao pronto-socorro semelhantes às da internação. Alguns pacientes precisam ficar internados por recuperação mais lenta no dia, e mesmo esses não tiveram mais reinternações do que quem foi internado de forma planejada. A segurança vem da seleção adequada do paciente e do protocolo do serviço [5,6].

Qual tipo de anestesia ajuda na alta no mesmo dia?

A raquianestesia (anestesia aplicada nas costas, que adormece do quadril para baixo) com anestésicos de ação mais curta, como a lidocaína ou a mepivacaína, se associou a menos dificuldade para urinar depois da cirurgia do que a bupivacaína, o que favorece a alta precoce. A escolha é discutida com a equipe de anestesia e cirurgia [1,2].

Operar o quadril pela frente (acesso anterior) é melhor?

No cenário da alta no mesmo dia em pacientes selecionados, um estudo mostrou taxa maior de alta no mesmo dia com o acesso anterior do que com o posterior, mas os resultados em 12 meses foram iguais. Fora desse cenário, o acesso posterior continua adequado e é o mais usado no mundo. A escolha da via é uma decisão do cirurgião, considerando a sua anatomia e a experiência da equipe [1,4].

Preciso me preparar antes da cirurgia?

Os exercícios feitos antes da cirurgia têm evidência favorável: uma revisão que juntou vários estudos mostrou melhora da dor antes da prótese e redução do tempo de internação. Controlar diabetes, peso, anemia e alimentação também ajuda. Converse com o ortopedista e o fisioterapeuta sobre o programa mais adequado ao seu caso [1,7].

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