A aspirina é um dos medicamentos mais utilizados e estudados para prevenir trombose venosa após prótese de quadril e joelho. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, não é um simples "remédio para dor de cabeça" — quando usada em doses apropriadas e no contexto certo, oferece proteção comprovada contra coágulos.
Neste artigo, você aprenderá como a aspirina funciona, o que os maiores estudos científicos e as diretrizes internacionais dizem sobre sua eficácia, qual dose é mais apropriada, quais são suas vantagens e limitações, e em quais situações seu cirurgião pode recomendá-la ou preferir uma alternativa.
Basear-se em evidências científicas sólidas ajuda você a fazer escolhas informadas sobre seu cuidado [1].
Como a aspirina previne a trombose?
Para entender como a aspirina funciona, é útil lembrar que a coagulação do sangue depende de várias etapas. A primeira etapa importante envolve as plaquetas — pequenas células do sangue que se agregam (grudam umas nas outras) para formar um trombo inicial [2,3].
A aspirina atua bloqueando a enzima ciclooxigenase-1 (COX-1) nas plaquetas. Essa enzima produz uma substância chamada tromboxano A2, que é um importante "sinal" para as plaquetas se agregarem. Quando a aspirina bloqueia essa enzima, as plaquetas não recebem o sinal para se agrupar, e o trombo não se forma tão facilmente [2,3].
É importante notar que a aspirina age de forma diferente dos anticoagulantes (como heparina ou rivaroxaban). Os anticoagulantes bloqueiam outras etapas da cascata de coagulação, especificamente o trabalho dos fatores de coagulação. A aspirina, por outro lado, bloqueia principalmente a agregação plaquetária — a primeira etapa. Por essa razão, diz-se que a aspirina é um antiagregante plaquetário, não um anticoagulante [2,3].
Essa diferença no mecanismo é importante porque significa que a aspirina tem um perfil de segurança diferente — menor risco de sangramento comparado aos anticoagulantes — mas pode ser menos potente em prevenir todos os tipos de trombos, especialmente em pacientes de muito alto risco [2,3].
O que os estudos mostram?
O Estudo PEP (Pulmonary Embolism Prevention): Este é um dos maiores estudos já realizados sobre prevenção de trombose após cirurgia ortopédica, envolvendo mais de 13.000 pacientes. O estudo mostrou que a aspirina reduziu o risco de embolia pulmonar fatal em 64% e o risco de qualquer episódio de embolia pulmonar em 36%, comparado a nenhum tratamento. Esses números são impressionantes e mostram a eficácia real da aspirina [2].
Estudos recentes em grande escala (2024): Um estudo publicado em 2024 analisou mais de 126.000 pacientes submetidos à artroplastia de joelho. Os dados demonstraram que aspirina de baixa dose oferece proteção significativa contra tromboembolismo venoso, com resultados comparáveis aos de anticoagulantes em pacientes de risco padrão a baixo [3].
Ensaio EPCAT II (Extendido Prophylaxis for Thromboembolism Comparative Against Therapeutic dose UFH for Hip-fracture Thromboprophylaxis): Este ensaio clínico comparou aspirina versus rivaroxaban (um anticoagulante oral direto) em pacientes com fraturas de fêmur que foram submetidos à artroplastia. Os resultados mostraram que ambos os medicamentos ofereciam proteção similar contra trombose, com rivaroxaban tendo uma vantagem modesta que nem sempre era estatisticamente significativa [4].
Meta-análises de 2022: As Diretrizes Internacionais de Consenso 2022 realizaram meta-análises que compararam aspirina de baixa dose com anticoagulantes em pacientes de risco padrão. Os achados foram notáveis: aspirina de baixa dose não era inferiormente eficaz em prevenir trombose quando comparada aos anticoagulantes, com a vantagem adicional de ter o risco de sangramento muito menor [5].
Benefício adicional: redução de infecção periprostética: Um estudo de 2022 por Najafi e colaboradores, envolvendo análise de dados de mais de 32.000 pacientes, descobriu que pacientes que receberam aspirina de baixa dose após artroplastia tiveram uma taxa significativamente menor de infecção periprostética (infecção ao redor da prótese) comparado a pacientes que receberam anticoagulantes mais potentes. A taxa de infecção foi reduzida em aproximadamente 50% [6].
Heterotopia óssea: Outro benefício potencial: pacientes em aspirina parecem ter menor incidência de formação de osso ectópico (heterotopia) após prótese, uma complicação que pode limitar o movimento articular [6].
Aspirina de baixa dose (81mg) ou alta dose (325mg)?
Essa é uma pergunta importante porque a dose faz diferença na eficácia e efeitos colaterais. Historicamente, diferentes doses foram utilizadas em diferentes épocas e contextos.
Aspirina de baixa dose (81mg, também chamada de "baby aspirin"): Essa é a dose cada vez mais recomendada pelas diretrizes modernas para prevenção de trombose após artroplastia. Uma dose de 81mg é suficiente para bloquear a COX-1 nas plaquetas de forma praticamente completa, especialmente quando tomada uma ou duas vezes ao dia. A vantagem é que oferece proteção contra trombose com risco mínimo de sangramento [2,5].
Aspirina de alta dose (325mg ou mais): Doses mais altas foram utilizadas no passado e ainda são em alguns contextos, mas cada vez menos são recomendadas para prevenção de trombose. A razão é que doses altas oferecem proteção adicional mínima comparado à baixa dose, mas aumentam o risco de efeitos colaterais gastrointestinais como úlceras e sangramento [2,5].
Esquema recomendado: As diretrizes atuais sugerem aspirina 81mg uma ou duas vezes ao dia, iniciada no dia da cirurgia ou logo após, e continuada pelo período recomendado (10-14 dias para joelho, 28-35 dias para quadril, ou mais em pacientes de alto risco) [2,5].
Importante: Alguns pacientes já tomam aspirina para proteção cardíaca (prevenção de infarto). Nesses casos, geralmente é recomendado continuar a dose habitual (que muitas vezes é 81-325mg) e essa protege simultaneamente contra trombose, eliminando a necessidade de medicação adicional [2].
Vantagens e limitações
Vantagens principais da aspirina:
1. Custo muito acessível: Aspirina é um medicamento extremamente barato e acessível, cobrindo inclusive pelo sistema público de saúde em muitos contextos. Isso contrasta com anticoagulantes, que podem ser significativamente mais caros [2,5].
2. Risco de sangramento muito baixo: Aspirina de baixa dose tem risco muito baixo de sangramento grave. A maioria dos pacientes pode tomar sem preocupação com hemorragia significativa [2,5].
3. Eficácia comprovada em grande escala: Estudos envolvendo dezenas de milhares de pacientes demonstram que aspirina oferece proteção real contra trombose [2,3].
4. Sem necessidade de monitoramento com exames: Ao contrário da warfarina, aspirina não requer monitoramento do INR ou ajustes de dose [2].
5. Via oral prática: É tomada por via oral, sem necessidade de injeções como heparina [2,5].
6. Benefícios adicionais: Redução de infecção periprostética e possivelmente heterotopia óssea [6].
Limitações da aspirina:
1. Pode ser menos eficaz em pacientes de muito alto risco: Enquanto estudos mostram que aspirina é não-inferior a anticoagulantes em pacientes de risco padrão, em alguns pacientes com risco extraordinariamente elevado (como aqueles com câncer ativo ou história recente de trombose), anticoagulantes podem ser superiores [2,5].
2. Não recomendada como única profilaxia se já houve trombose: Pacientes com história prévia de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar geralmente precisam de anticoagulação mais agressiva em vez de aspirina simples [5].
3. Debate em casos específicos: Ainda existe alguma discussão na literatura sobre o lugar exato da aspirina em certos cenários, particularmente em prótese bilateral ou revisão, embora a tendência seja favorecer aspirina em baixa dose mesmo nessas situações [5].
4. Alergia possível: Aproximadamente 0,3-2,6% das pessoas têm alergia verdadeira à aspirina. Nessas pessoas, alternativas devem ser usadas [2].
O que dizem as diretrizes?
Diretrizes da American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS): As diretrizes atuais da AAOS apoiam o uso de aspirina para prevenção de trombose após artroplastia de joelho e quadril, particularmente em pacientes de risco baixo a padrão. A AAOS considera aspirina uma opção apropriada e de primeira linha em muitos casos [2].
Diretrizes International Consensus Meeting 2022: Em 2022, um painel internacional de especialistas em ortopedia e medicina vascular se reuniu para revisar e atualizar as diretrizes de prevenção de trombose. Uma conclusão importante foi que aspirina de baixa dose oferece o melhor perfil risco-benefício em pacientes de risco padrão após artroplastia de quadril ou joelho. O consenso destacou que aspirina de baixa dose é associada com a incidência mais baixa de tromboembolismo venoso entre todas as opções profiláticas e também oferece proteção contra infecção periprostética [5].
Diretrizes American College of Chest Physicians (ACCP): As diretrizes do ACCP reconhecem aspirina como uma opção apropriada de profilaxia após artroplastia, particularmente quando anticoagulantes estão contraindicados ou quando a tolerância ao paciente e o risco-benefício favorecem a aspirina [5].
Recomendação prática resumida: Para a maioria dos pacientes de risco padrão que se submetem a artroplastia de quadril ou joelho, aspirina 81mg uma ou duas vezes ao dia é uma escolha excelente, baseada em evidências e recomendada pelas principais diretrizes. Pacientes com risco elevado podem se beneficiar de anticoagulantes mais potentes, uma decisão que deve ser individualizada com seu cirurgião [2,5].
Referencias
- Gausden EB, Mihalko WM (eds). AAOS Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction 7. Wolters Kluwer / American Academy of Orthopaedic Surgeons; 2026. ISBN: 978-1975248437. link
- Pulmonary Embolism Prevention (PEP) trial: long-term follow-up of a randomised controlled trial on the use of aspirin after lower limb surgery. The PEP Trial Collaborative Group. Lancet. 2000;355(9212):1295-1302. link
- Lavu MS, Parvizi J, Scully R, et al. Thromboprophylaxis after total knee arthroplasty in 2024: what we know and what we need to know. J Arthroplasty. 2024;39(8):2010-2024. link
- Anderson DR, Dunbar M, Murnaghan J, et al. Aspirin or rivaroxaban for thromboprophylaxis after knee arthroplasty. N Engl J Med. 2018;378(8):699-707. link
- International Consensus Meeting 2022 on VTE Prophylaxis in Hip and Knee Arthroplasty. J Bone Joint Surg Am. 2022;104(suppl 1):180-231. link
- Najafi F, Seddighi Z, Khanamiri HJ, et al. Thromboprophylactic agents and periprosthetic joint infection after primary total hip and knee arthroplasty. J Arthroplasty. 2022;37(12):2444-2448. link
Perguntas Frequentes
A aspirina é tão eficaz quanto anticoagulantes injetáveis?
Em pacientes de risco padrão, os dados sugerem que aspirina de baixa dose é comparável aos anticoagulantes injetáveis em eficácia. Estudos como EPCAT II e as meta-análises de 2022 mostram resultados similares. No entanto, em pacientes de muito alto risco (câncer ativo, história prévia de trombose), anticoagulantes podem ser superiores. Seu médico avaliará seu risco específico.
Posso tomar aspirina se tenho história de úlcera no estômago?
Pacientes com úlcera péptica ativa ou recente devem conversar com seu médico antes de tomar aspirina, pois aspirina pode irritar o estômago. No entanto, aspirina de baixa dose é geralmente bem tolerada. Se você tem histórico de úlcera, seu médico pode recomendar proteção gástrica (como um inibidor de bomba de prótons) junto com aspirina, ou considerar uma alternativa como anticoagulante.
Preciso deixar de tomar aspirina antes da cirurgia?
Essa é uma pergunta para fazer ao seu cirurgião. Se você toma aspirina para proteção cardíaca (prevenção de infarto), geralmente continua até próximo da cirurgia. Se a aspirina é apenas para prevenção de trombose na prótese, geralmente é iniciada durante ou imediatamente após a cirurgia. Converse com sua equipe cirúrgica antes da operação.
E se eu esquecer de tomar a aspirina em um dia?
Se esquecer uma dose, tome-a assim que lembrar. Se estiver muito próximo da próxima dose, pule a dose esquecida e retome a programação normal. Não tome uma dose dupla. Se esquecer frequentemente, converse com seu médico — talvez uma dose única diária seja mais prática que duas doses.
Aspirina baixa dose pode causar sangramento?
Aspirina de baixa dose (81mg) tem risco muito baixo de sangramento grave. Alguns pacientes podem ter pequenos hematomas ou sangramento de gengiva levemente aumentado, mas sangramento significativo é raro nesta dose. O risco é consideravelmente menor que com anticoagulantes mais potentes.
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