Bengala na Artrose de Joelho e Quadril: Quando e Como Usar

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

A bengala descarrega a articulação dolorida, reduz a dor ao caminhar e ajuda a manter a pessoa em movimento. Usar não é sinal de fraqueza — é uma ferramenta simples e com evidência.

Muita gente resiste à ideia de usar bengala — associa o objeto a "envelhecer" ou a "entregar os pontos". Mas, na artrose de joelho e de quadril, a bengala é uma ferramenta simples, barata e com evidência: ela descarrega a articulação dolorida, reduz a dor ao caminhar e, sobretudo, ajuda a pessoa a continuar em movimento — que é o que mais importa no tratamento.

Neste artigo você vai entender quando a bengala ajuda, de que lado segurá-la, o que a ciência mostra e por que usá-la não significa fraqueza. Como a bengala é um apoio para manter você ativo, vale ler junto por que a artrose melhora com movimento e exercícios de baixo impacto para artrose.

1. Para que serve a bengala na artrose

A função principal da bengala é redistribuir a carga que passaria inteira pela articulação dolorida. Ao apoiar parte do peso do corpo na bengala, o joelho ou o quadril afetado recebe menos força a cada passo — e isso costuma se traduzir em menos dor e mais segurança para caminhar.

A evidência apoia esse uso. Um ensaio clínico randomizado de Jones e colaboradores (2012), no Annals of the Rheumatic Diseases, avaliou o uso diário de bengala em pessoas com artrose de joelho e observou redução da dor e melhora da função ao longo de dois meses [1]. Há ainda interesse no efeito de descarga sobre a própria articulação: o estudo CUBA, de Van Ginckel e colaboradores (2019), investigou o uso de bengala e marcadores estruturais no joelho, dentro dessa lógica de aliviar a sobrecarga [2].

2. De que lado usar — e como ajustar

Aqui está o detalhe que faz toda a diferença e que muita gente erra: a bengala vai na mão do lado oposto à articulação dolorida. Se a dor é no joelho ou no quadril direito, a bengala fica na mão esquerda — e avança junto com a perna dolorida. Esse cruzamento é o que efetivamente tira carga da articulação afetada; usar do mesmo lado não produz o mesmo alívio.

A altura também importa: com a pessoa em pé e os braços relaxados, o punho da bengala deve ficar na altura do vinco do pulso, de modo que o cotovelo fique levemente flexionado ao apoiar. Bengala muito alta ou muito baixa atrapalha a postura e reduz o benefício. Um fisioterapeuta pode ajustar a altura e ensinar o padrão de marcha correto — vale a orientação, sobretudo no início.

3. Usar bengala não é sinal de fraqueza

Vale enfrentar de frente o preconceito: usar bengala não é "desistir" nem sinal de fraqueza. É o contrário. A bengala é o que permite a muitas pessoas continuar andando, saindo de casa e se exercitando apesar da dor — ou seja, é uma aliada do movimento, não um símbolo de limitação. E manter-se em movimento é justamente o que protege a articulação e a saúde como um todo.

As diretrizes internacionais reconhecem esse papel: tanto a OARSI (Bannuru e colaboradores, 2019) [3] quanto o Colégio Americano de Reumatologia (Kolasinski e colaboradores, 2019/2020) [4] incluem dispositivos de auxílio à marcha, como a bengala, entre as medidas de apoio no manejo da artrose. Encarada assim, a bengala é uma ferramenta a favor da sua independência.

4. A bengala é apoio, não substituto do tratamento

Um cuidado importante: a bengala alivia e apoia, mas não substitui o núcleo do tratamento da artrose. Ela funciona melhor quando somada ao que de fato muda o quadro ao longo do tempo — exercício, controle de peso e acompanhamento —, como reforça a revisão de Hunter e Bierma-Zeinstra (2019), na The Lancet [5].

Na prática, o ideal é usar a bengala como uma ferramenta que ajuda você a se manter ativo enquanto trabalha o fortalecimento e o condicionamento. Em algumas situações ela é temporária — usada em fases de mais dor — e, à medida que a musculatura melhora, pode deixar de ser necessária; em outras, é um apoio contínuo que dá segurança. Essa é uma decisão individual, ajustada ao seu caso e à sua evolução. Se a dor ao caminhar está limitando muito o seu dia a dia, uma avaliação ajuda a definir o melhor caminho — e a bengala pode ser parte dele. Para entender por que o movimento é tão central, veja por que a artrose melhora com movimento; e, se há inchaço frequente no joelho, inchaço no joelho e artrose.

Referencias

  1. Jones A, Silva PG, Silva AC, et al. Impact of cane use on pain, function, general health and energy expenditure during gait in patients with knee osteoarthritis: a randomised controlled trial. Ann Rheum Dis. 2012;71(2):172-179. link
  2. Van Ginckel A, Hinman RS, Wrigley TV, et al. Effect of cane use on bone marrow lesion volume in people with medial tibiofemoral knee osteoarthritis: randomized controlled trial. Osteoarthritis Cartilage. 2019;27(9):1324-1338. link
  3. Bannuru RR, Osani MC, Vaysbrot EE, et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2019;27(11):1578-1589. link
  4. Kolasinski SL, Neogi T, Hochberg MC, et al. 2019 American College of Rheumatology/Arthritis Foundation Guideline for the Management of Osteoarthritis of the Hand, Hip, and Knee. Arthritis Care Res (Hoboken). 2020;72(2):149-162. link
  5. Hunter DJ, Bierma-Zeinstra S. Osteoarthritis. Lancet. 2019;393(10182):1745-1759. link

Perguntas Frequentes

A bengala ajuda mesmo na artrose de joelho e quadril?

Sim. A bengala redistribui a carga que passaria pela articulação dolorida, reduzindo a dor ao caminhar. Um ensaio clínico randomizado com uso diário de bengala na artrose de joelho observou redução da dor e melhora da função ao longo de dois meses, e as diretrizes incluem os dispositivos de auxílio à marcha entre as medidas de apoio [1,3,4].

De que lado devo segurar a bengala?

Na mão do lado oposto à articulação dolorida. Se a dor é no lado direito, a bengala fica na mão esquerda e avança junto com a perna dolorida. Esse cruzamento é o que efetivamente descarrega a articulação afetada — usar do mesmo lado não gera o mesmo alívio.

Qual a altura correta da bengala?

Com a pessoa em pé e os braços relaxados, o punho da bengala deve ficar na altura do vinco do pulso, deixando o cotovelo levemente flexionado ao apoiar. Muito alta ou muito baixa atrapalha a postura e reduz o benefício. Um fisioterapeuta pode ajustar a altura e ensinar o padrão de marcha.

Usar bengala é sinal de fraqueza?

Não. A bengala é o que permite a muitas pessoas continuar caminhando, saindo de casa e se exercitando apesar da dor — ou seja, é uma aliada do movimento e da independência, não um símbolo de limitação. E manter-se ativo é justamente o que protege a articulação e a saúde geral.

A bengala substitui o tratamento da artrose?

Não. Ela alivia e apoia, mas não substitui o núcleo do tratamento — exercício, controle de peso e acompanhamento. Funciona melhor como ferramenta para manter você ativo enquanto fortalece a musculatura. Em alguns casos é temporária, em fases de mais dor; em outros, um apoio contínuo. É uma decisão individual [5].

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