Salto Alto e Calçado na Artrose de Joelho: O Que Ajuda

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

O sapato que você usa muda a carga que chega ao joelho. Veja o que a evidência mostra sobre calçados na artrose de joelho — e por que o conforto costuma ser um bom guia.

Pode parecer detalhe, mas o sapato que você calça influencia a carga que chega ao joelho a cada passo. Não é à toa que "qual o melhor calçado para artrose de joelho?" é uma dúvida tão comum. A resposta honesta combina alguns princípios simples com uma evidência que, em pontos específicos, ainda é dividida.

Neste artigo você vai ver o que se sabe sobre salto alto, sapatos de conforto e os calçados "biomecânicos" na artrose de joelho, e por que o conforto costuma ser um bom guia. Para complementar o cuidado diário, veja exercícios de baixo impacto para artrose e calor ou gelo na artrose.

1. Salto alto: por que convém moderar

O salto alto muda a forma como o corpo se alinha e distribui o peso, tendendo a aumentar a carga na parte da frente do joelho e a exigir mais do movimento. Para quem já tem artrose de joelho, o uso frequente de saltos altos costuma piorar o desconforto — não porque "proíbe-se" o salto, mas porque ele adiciona sobrecarga justamente onde já dói.

Isso não significa banir o salto para sempre: usar em ocasiões pontuais é diferente de usar o dia inteiro, todos os dias. A lógica é reduzir a exposição à sobrecarga no dia a dia, reservando o salto para momentos específicos, quando fizer questão.

2. O que a evidência mostra sobre calçados "terapêuticos"

Aqui a ciência pede honestidade, porque os resultados são divididos. Alguns estudos com calçados desenhados para "descarregar" ou modificar a mecânica do joelho mostraram benefício; outros, não. Um ensaio clínico randomizado de Reichenbach e colaboradores (2020), no JAMA, testou um calçado biomecânico específico e encontrou redução da dor no joelho em relação ao controle ao longo de meses [1]. Por outro lado, um ensaio de Hinman e colaboradores (2016), no Annals of Internal Medicine, comparou sapatos "de descarga" a sapatos convencionais e não encontrou vantagem dos primeiros [2].

O que tirar disso? Que não existe um sapato perfeito e universal: um modelo específico pode ajudar algumas pessoas, mas os calçados especiais não são claramente superiores a um bom sapato comum para a maioria. Por isso, gastar muito num calçado "terapêutico" antes do básico raramente compensa.

3. Os princípios que valem para a maioria

Na ausência de uma fórmula única, alguns princípios práticos costumam orientar bem a escolha do calçado na artrose de joelho:

  • Conforto em primeiro lugar: um sapato confortável, que não force o pé nem o joelho, é um guia razoável — e, em vários estudos, o conforto se mostra tão ou mais útil que características técnicas.
  • Salto baixo e estável: prefira solados de salto baixo e base firme, que dão estabilidade sem sobrecarregar a frente do joelho.
  • Bom amortecimento: um solado que absorve parte do impacto ajuda no dia a dia, sobretudo em pisos duros.
  • Espaço e sustentação adequados: o pé deve acomodar-se bem, sem apertar; um bom apoio do arco ajuda algumas pessoas.

Palmilhas também entram nessa conversa e podem ajudar casos selecionados, mas, como os calçados especiais, têm resultados variáveis — vale testar com orientação e expectativa realista. As diretrizes da OARSI situam recursos como calçado e órteses entre as medidas de apoio, sempre em torno do núcleo do tratamento [3].

4. Onde o calçado se encaixa

É importante colocar o calçado no seu devido lugar: ele é um ajuste de conforto e de carga, não o tratamento da artrose. O que efetivamente muda o quadro ao longo do tempo continua sendo o núcleo — exercício, fortalecimento e controle de peso —, como reforça a revisão de Hunter e Bierma-Zeinstra (2019), na The Lancet [4]. Um bom sapato ajuda você a caminhar com menos desconforto e, assim, a se manter ativo; mas não substitui o trabalho de base.

Na prática: escolha um calçado confortável, de salto baixo e bom amortecimento, modere o salto alto no dia a dia, e invista a maior parte da sua energia no que tem mais evidência. Se há dor importante ao caminhar, alterações no jeito de pisar ou dúvidas sobre palmilhas, uma avaliação individual ajuda a personalizar as escolhas — este texto é informação geral e não substitui essa avaliação. Para entender por que se manter em movimento é tão central, veja por que a artrose melhora com movimento.

Referencias

  1. Reichenbach S, Felson DT, Hincapié CA, et al. Effect of Biomechanical Footwear on Knee Pain in People With Knee Osteoarthritis: The BIOTOK Randomized Clinical Trial. JAMA. 2020;323(18):1802-1812. link
  2. Hinman RS, Wrigley TV, Metcalf BR, et al. Unloading Shoes for Self-management of Knee Osteoarthritis: A Randomized Trial. Ann Intern Med. 2016;165(6):381-389. link
  3. Bannuru RR, Osani MC, Vaysbrot EE, et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2019;27(11):1578-1589. link
  4. Hunter DJ, Bierma-Zeinstra S. Osteoarthritis. Lancet. 2019;393(10182):1745-1759. link

Perguntas Frequentes

Qual o melhor calçado para artrose de joelho?

Não há um modelo único "melhor". Os princípios que valem para a maioria: conforto em primeiro lugar, salto baixo e estável, bom amortecimento e sustentação adequada. O conforto, em vários estudos, se mostra tão útil quanto características técnicas — um sapato confortável costuma ser um bom guia [3].

Salto alto piora a artrose de joelho?

O salto alto tende a aumentar a carga na frente do joelho e a exigir mais do movimento, o que costuma piorar o desconforto em quem já tem artrose. A orientação não é banir para sempre, e sim moderar no dia a dia — reservando o salto para ocasiões pontuais em vez de uso diário e prolongado.

Vale a pena comprar calçado "biomecânico" ou de descarga?

A evidência é dividida. Um ensaio no JAMA encontrou redução de dor com um calçado biomecânico específico; outro, no Annals of Internal Medicine, não achou vantagem de sapatos de descarga sobre os convencionais. Não existe um sapato perfeito e universal — antes de gastar muito, faz sentido priorizar o básico (conforto, salto baixo, amortecimento) [1,2].

E palmilhas, ajudam?

Podem ajudar casos selecionados, mas, como os calçados especiais, têm resultados variáveis. Vale testar com orientação e expectativa realista, sem esperar que resolvam sozinhas. Como o calçado, a palmilha é um ajuste de conforto e carga, não o tratamento da artrose [3].

O calçado certo trata a artrose?

Não. O calçado é um ajuste de conforto e de carga que ajuda a caminhar com menos desconforto e a se manter ativo. O que muda o quadro ao longo do tempo é o núcleo do tratamento — exercício, fortalecimento e controle de peso. Invista a maior parte da energia no que tem mais evidência [4].

Saiba mais

Consulta em Florianopolis

Avaliacao especializada em quadril e joelho. Diagnostico preciso, plano personalizado baseado em evidencia.

PROTESE DE QUADRIL E JOELHO | TRATAMENTO DA ARTROSE

Agendar consulta — cadastro online de primeira consulta

Agende sua Consulta

Consultas presenciais em tres unidades: SOS Santa Monica (Av. Madre Benvenuta, 920, Florianopolis), Ortho&Co (Square SC, Rod. Jose Carlos Daux/SC-401, 5500, Saco Grande, Florianopolis) e SOS Kobrasol (Av. Joao Ledio Martins, 314, Sao Jose). Tambem ha teleconsultas para todo o Brasil. Agende pelo WhatsApp: (48) 99125-6222.