Caminhada e Artrose de Joelho: Pode Caminhar? Faz Bem ou Piora?

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

A dúvida mais comum de quem tem artrose no joelho — e o que a literatura médica mostra: caminhar não "gasta" a articulação, alivia a dor e ainda protege o corpo inteiro.

É a pergunta que quase todo paciente com artrose de joelho faz: "posso caminhar, ou vou piorar o desgaste?". O medo é compreensível — parece intuitivo que "usar" uma articulação já desgastada aceleraria o problema. Mas é justamente o contrário que a literatura médica mostra. Caminhar, dentro do bom senso, é uma das coisas mais seguras e úteis que quem tem artrose de joelho pode fazer.

Neste artigo, reunimos o que estudos de alto impacto — de coortes grandes a meta-análises recentes no BMJ e no JAMA — dizem sobre caminhar com artrose: por que não faz mal, o quanto ajuda, como fazer com segurança, e por que o benefício vai muito além do joelho. Se a sua dor aparece principalmente ao usar escadas, vale começar por dor no joelho ao subir e descer escada.

1. Posso caminhar com artrose no joelho? A resposta curta

Sim — e caminhar não "gasta" o joelho. Este é o ponto que mais tranquiliza os pacientes. Um estudo de coorte publicado em 2022 na revista Arthritis & Rheumatology, conduzido pelo grupo de Grace Lo a partir do grande banco de dados Osteoarthritis Initiative, acompanhou 1.212 pessoas com 50 anos ou mais e artrose de joelho [1]. Quem caminhava para se exercitar teve menos episódios de dor nova frequente e — o achado que desmonta o medo — não teve mais progressão do estreitamento do espaço articular na radiografia do que quem não caminhava [1]. Ou seja: nesse grupo, caminhar associou-se a joelhos que doíam menos, sem sinal de "desgaste acelerado".

Vale a nuance científica: esse é um estudo observacional, então o correto é dizer que caminhar associou-se a esses benefícios, não que os "causou" isoladamente. Ainda assim, a mensagem prática é consistente com o restante da literatura. A revisão sobre diagnóstico e tratamento da artrose de quadril e joelho publicada no JAMA em 2021, de Katz e colaboradores, coloca o exercício de baixo impacto — do qual a caminhada é o exemplo mais acessível — como tratamento de primeira linha, seguro e recomendado [2].

2. Caminhar melhora a artrose — o que a ciência mostra

Não se trata só de "não fazer mal". Caminhar e exercitar-se melhora a dor e a função de forma clinicamente importante. A síntese mais robusta e recente é uma meta-análise em rede publicada no BMJ em 2025, do grupo de Yan, que reuniu 217 ensaios clínicos randomizados e mais de 15 mil participantes com artrose de joelho [3]. O exercício aeróbico — a categoria que inclui a caminhada — apareceu entre as modalidades com maior melhora de dor, função, marcha e qualidade de vida, com bom perfil de segurança e sem diferença clara de risco entre os tipos de exercício [3].

Esse resultado não é isolado. Uma meta-análise clássica da Cochrane, de Fransen e colaboradores (2015), já mostrava que o exercício em solo reduz dor e melhora a função em pessoas com artrose de joelho [4]. E é por isso que o exercício é o pilar do tratamento conservador nas principais diretrizes vigentes de manejo não cirúrgico da artrose — as recomendações da OARSI de 2019, de Bannuru e colaboradores [5], e as da ACR/Arthritis Foundation de 2019, de Kolasinski e colaboradores [6], ambas ainda sem sucessor mais recente. A leitura é convergente: movimento não é o inimigo da artrose; é parte do tratamento.

3. Como caminhar com segurança na artrose

"Pode caminhar" não é o mesmo que "sair caminhando 10 km amanhã". A conduta prudente é simples e vale como orientação geral — sempre ajustada individualmente, de preferência com apoio de um profissional:

  • Comece devagar e progrida aos poucos. Aumentar tempo e distância de forma gradual dá tempo para o corpo se adaptar.
  • Desconforto leve durante o exercício não significa dano. Uma revisão sistemática de Smith e colaboradores (2017), no British Journal of Sports Medicine, mostrou que, na dor musculoesquelética crônica em geral, permitir algum desconforto durante o exercício terapêutico não prejudica os resultados — ou seja, não é preciso ter medo de qualquer incômodo [7]. Isso vale como princípio; o limite de cada pessoa é individual.
  • Use um calçado confortável e um piso adequado, e prefira, no início, terrenos planos.
  • Distinga incômodo de alarme. Dor que aumenta muito, inchaço importante ou travamento do joelho pedem pausa e avaliação — veja a seção de sinais de alerta abaixo.

Se há dúvida sobre carga, ritmo ou como conciliar a caminhada com outras condições de saúde, o caminho é individualizar a orientação com o seu médico ou com um profissional de educação física/fisioterapia.

4. Estilo de vida muda o rumo: peso, força e sono

A caminhada rende ainda mais quando faz parte de um conjunto. Três alavancas de estilo de vida têm impacto direto e mensurável na artrose de joelho:

Peso — cada quilo conta, multiplicado. Um ensaio clínico de Messier e colaboradores (2005), na Arthritis & Rheumatism, mostrou que a carga sobre o joelho cai numa proporção aproximada de quatro para um: cada unidade de peso corporal perdida representa cerca de quatro unidades a menos de carga na articulação a cada passo [8]. Anos depois, o mesmo grupo confirmou no JAMA (ensaio IDEA, 2013) que combinar dieta e exercício produziu maior perda de peso, menor carga no joelho, menos dor e melhor função em adultos com sobrepeso e artrose de joelho [9]. São estudos de referência, ainda sem substituto de maior porte. Para aprofundar, veja perda de peso na artrose de quadril e joelho: cada quilo conta.

Força de quadríceps. Uma meta-análise de Øiestad e colaboradores (2022), no British Journal of Sports Medicine, com quase 47 mil pessoas, identificou a fraqueza do quadríceps como fator de risco para desenvolver artrose de joelho [10] — o que reforça por que fortalecer as pernas anda de mãos dadas com a caminhada.

Sono. Um estudo de coorte de Wang e colaboradores (2023), na Arthritis Care & Research, observou que distúrbios do sono associam-se a mais dor no joelho [11]. É uma relação de mão dupla — dor atrapalha o sono e o sono ruim amplifica a dor —, então cuidar do sono ajuda no manejo, sem que isso signifique "tratar o sono cura a artrose".

5. A vantagem que vale para todo mundo

Talvez o argumento mais forte para calçar o tênis seja este: a caminhada não é boa só para a artrose — é boa para o corpo inteiro. As diretrizes de atividade física da Organização Mundial da Saúde de 2020, publicadas por Bull e colaboradores no British Journal of Sports Medicine, resumem décadas de evidência: atividade física regular reduz o risco de doença cardiovascular, diabetes tipo 2, alguns tipos de câncer e de morte por qualquer causa, além de melhorar a saúde mental — com a meta prática de 150 a 300 minutos de atividade moderada por semana para adultos [12].

E a boa notícia para quem tem mais idade é que não é preciso muito. Uma meta-análise de Paluch e colaboradores (2022), na The Lancet Public Health, com mais de 47 mil adultos, mostrou que dar mais passos por dia associa-se a menor mortalidade — e que, em pessoas com 60 anos ou mais, o benefício cresce de forma progressiva até cerca de 6 a 8 mil passos por dia [13]. Ou seja: o mesmo hábito que ajuda o joelho protege o coração, o metabolismo, o humor e a longevidade. Poucas "receitas" em medicina somam tantos benefícios com tão poucos riscos.

6. Quando a caminhada não basta

Caminhar e cuidar do estilo de vida resolvem muito — mas nem tudo, e nem sempre. A artrose é uma condição progressiva, e o tratamento é escalonado: começa pelas medidas conservadoras e avança conforme a necessidade individual de cada pessoa.

Vale buscar avaliação com um ortopedista quando a dor progride, passa a limitar as atividades do dia a dia, não melhora com as medidas conservadoras, ou vem acompanhada de inchaço persistente ou travamento do joelho. Nesses casos, a conduta é individualizada — pode envolver desde ajustes no tratamento conservador até, em situações selecionadas, a discussão sobre cirurgia. Essa é uma decisão que se toma ao longo do acompanhamento, sob orientação médica, considerando o grau da artrose, a intensidade dos sintomas e o impacto na sua vida. Para entender quando essa conversa costuma surgir, veja artrose no joelho tem cura? e, se o seu caso já caminha para a discussão cirúrgica, prótese de joelho.

Referencias

  1. Lo GH, Vinod S, Richard MJ, et al. Association Between Walking for Exercise and Symptoms and Structural Progression in Individuals With Knee Osteoarthritis. Arthritis Rheumatol. 2022;74(10):1660-1667. link
  2. Katz JN, Arant KR, Loeser RF. Diagnosis and Treatment of Hip and Knee Osteoarthritis: A Review. JAMA. 2021;325(6):568-578. link
  3. Yan L, Ge L, Hu Y, et al. Comparative efficacy and safety of exercise modalities in knee osteoarthritis: systematic review and network meta-analysis. BMJ. 2025. link
  4. Fransen M, McConnell S, Harmer AR, et al. Exercise for osteoarthritis of the knee. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(1):CD004376. link
  5. Bannuru RR, Osani MC, Vaysbrot EE, et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2019;27(11):1578-1589. link
  6. Kolasinski SL, Neogi T, Hochberg MC, et al. 2019 American College of Rheumatology/Arthritis Foundation Guideline for the Management of Osteoarthritis of the Hand, Hip, and Knee. Arthritis Care Res (Hoboken). 2020;72(2):149-162. link
  7. Smith BE, Hendrick P, Smith TO, et al. Should exercises be painful in the management of chronic musculoskeletal pain? A systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2017;51(23):1679-1687. link
  8. Messier SP, Gutekunst DJ, Davis C, DeVita P. Weight loss reduces knee-joint loads in overweight and obese older adults with knee osteoarthritis. Arthritis Rheum. 2005;52(7):2026-2032. link
  9. Messier SP, Mihalko SL, Legault C, et al. Effects of intensive diet and exercise on knee joint loads, inflammation, and clinical outcomes among overweight and obese adults with knee osteoarthritis: the IDEA randomized clinical trial. JAMA. 2013;310(12):1263-1273. link
  10. Øiestad BE, Juhl CB, Culvenor AG, et al. Knee extensor muscle weakness is a risk factor for the development of knee osteoarthritis: an updated systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2022;56(6):349-355. link
  11. Wang Y, Li X, Zhang Y, et al. Association of Sleep Disturbance With Catastrophizing and Knee Pain: Data From the Osteoarthritis Initiative. Arthritis Care Res (Hoboken). 2023;75(10):2134-2141. link
  12. Bull FC, Al-Ansari SS, Biddle S, et al. World Health Organization 2020 guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Br J Sports Med. 2020;54(24):1451-1462. link
  13. Paluch AE, Bajpai S, Bassett DR, et al. Daily steps and all-cause mortality: a meta-analysis of 15 international cohorts. Lancet Public Health. 2022;7(3):e219-e228. link

Perguntas Frequentes

Caminhar não vai desgastar mais o meu joelho?

A evidência aponta o contrário. Um estudo de coorte com mais de 1.200 pessoas com 50 anos ou mais e artrose de joelho mostrou que caminhar para se exercitar associou-se a menos dor nova e sem progressão do estreitamento articular na radiografia. Caminhar, de forma gradual, é considerado seguro na artrose de joelho e recomendado como parte do tratamento [1,2].

Quanto devo caminhar por dia?

Não existe um número único para todos — o ideal é individualizar e progredir aos poucos. Como referência geral de saúde, as diretrizes da OMS sugerem 150 a 300 minutos de atividade moderada por semana, e estudos com adultos mais velhos mostram benefício crescente de mortalidade até cerca de 6 a 8 mil passos por dia. O ponto de partida e o ritmo devem ser ajustados à sua condição, de preferência com orientação profissional [12,13].

Sinto um pouco de dor quando caminho. Devo parar?

Desconforto leve durante o exercício não significa que você está causando dano — uma revisão mostrou que permitir algum incômodo no exercício terapêutico não piora os resultados na dor crônica. O que pede atenção é dor que aumenta muito, inchaço importante ou travamento do joelho: nesses casos, vale pausar e buscar avaliação [7].

Além de caminhar, o que mais ajuda?

Controle de peso (cada quilo perdido reduz cerca de quatro vezes mais a carga no joelho), fortalecimento do quadríceps e cuidado com o sono compõem um conjunto que muda o rumo da artrose. E todos esses hábitos também protegem o coração, o metabolismo e a saúde mental — beneficiam o corpo inteiro, não só a articulação [8,9,10,12].

E se caminhar e cuidar do estilo de vida não resolverem?

A artrose é progressiva, e o tratamento é escalonado. Se a dor progride, limita o dia a dia ou não melhora com as medidas conservadoras, vale buscar avaliação com um ortopedista para individualizar a conduta — que pode ir de ajustes no tratamento conservador até, em situações selecionadas, a discussão sobre cirurgia. É uma decisão tomada ao longo do acompanhamento, sob orientação médica.

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