Estalos e Crepitação no Joelho: É Artrose?

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

O joelho que "range" ou estala preocupa muita gente — mas, na maioria das vezes, o barulho sozinho é benigno. Veja o que a ciência mostra sobre quando o estalo se liga à artrose e quando merece avaliação.

"Meu joelho estala quando eu me levanto — será que é artrose?" É uma das queixas mais comuns no consultório, e quase sempre vem com uma dose de preocupação. A boa notícia é que, na maior parte das vezes, o barulho sozinho — sem dor, sem inchaço — é benigno e muito frequente na população. O que muda o significado é o contexto: idade, dor, inchaço e outros sinais.

Neste artigo, reunimos o que a literatura médica recente mostra sobre a crepitação no joelho: o quanto ela é comum, quando se associa à artrose, o que o estalo isolado realmente prediz, e quais sinais de alerta merecem avaliação. Se a sua queixa principal é dor ao usar escadas, comece por dor no joelho ao subir e descer escada; se a dúvida é sobre atividade física, veja caminhada e artrose de joelho.

1. Meu joelho estala: devo me preocupar?

Antes de tudo, uma informação que tranquiliza: estalos e rangidos no joelho são muito comuns. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 no British Journal of Sports Medicine, do grupo de Couch, reuniu 103 estudos e mais de 36 mil pessoas e encontrou uma prevalência de crepitação de cerca de 41% na população geral e 36% entre pessoas sem dor no joelho [1]. Ou seja: ouvir o joelho estalar, por si só, está longe de ser algo raro ou necessariamente doentio.

Do ponto de vista de quem convive com isso, um estudo qualitativo de Drum e colaboradores (2023), na Musculoskeletal Care, observou que a crepitação costuma incomodar menos do que sintomas como a dor — para muitos, "não é uma grande causa de preocupação" [2]. De onde vem o barulho? Costuma ter origem no deslizamento normal de tendões, ligamentos e tecidos moles ao redor da articulação; os mecanismos exatos ainda não estão totalmente estabelecidos na literatura. O ponto prático é este: ruído isolado, sem dor nem inchaço, geralmente não indica doença.

2. Quando o estalo se liga à artrose

O quadro muda quando a crepitação vem acompanhada de outros sinais. A mesma meta-análise de Couch (2025) mostrou que a presença de crepitação associa-se a uma chance cerca de 3,8 vezes maior de artrose visível na radiografia (razão de chances 3,79), e que a crepitação está presente em torno de 81% das pessoas que já têm artrose de joelho [1]. É importante a honestidade científica aqui: os próprios autores classificam essa evidência como de certeza baixa, então o correto é dizer que a crepitação está associada à artrose — não que "estalo significa artrose".

Há ainda uma pista sobre a localização. Um estudo de coorte de Schiphof e colaboradores (2014), na Osteoarthritis and Cartilage, é o trabalho de referência que mostrou que a crepitação é um primeiro indicador da artrose patelofemoral (entre a patela e o fêmur) — e não da tibiofemoral [3]. É um estudo mais antigo, mas continua sendo a melhor referência específica para essa localização. E quando há dor associada, a crepitação fica mais frequente: um estudo de de Oliveira Silva e colaboradores (2018) observou crepitação em cerca de metade das mulheres com dor patelofemoral, contra um terço das sem dor [4].

3. O estalo sozinho prevê artrose no futuro? Pouco

Uma dúvida natural é se quem estala hoje vai desenvolver artrose amanhã. O melhor estudo longitudinal disponível para essa pergunta é o de Lo e colaboradores (2018), na Arthritis Care & Research, que acompanhou 3.495 participantes do banco Osteoarthritis Initiative [5]. A crepitação de fato aumentou a chance de artrose sintomática ao longo do tempo — mas o dado mais revelador é outro: mais de três quartos dos casos ocorreram em pessoas que já tinham artrose visível na radiografia, ainda sem dor [5].

A leitura prática é importante: o estalo isolado é um sinal fraco quando visto sozinho. O que realmente pesa é o conjunto — idade, presença de dor, inchaço, peso corporal e fatores de risco. Em uma pessoa jovem, sem dor e sem outros sintomas, a crepitação tende a ser apenas uma característica do joelho. Em alguém mais velho, com dor ao subir escadas e rigidez, o mesmo barulho ganha outro peso. O contexto é quem dá o significado.

4. Estalo fisiológico x estalo que merece atenção

Nem todo ruído é igual. Uma revisão dedicada ao tema, de Song e colaboradores (2018), na Clinical Orthopaedics and Surgery ("Noise around the Knee"), destaca a importância de diferenciar o ruído fisiológico (benigno) do patológico, considerando a natureza do som, quando ele começou e os sintomas que o acompanham [6].

De forma simplificada: o ruído fisiológico costuma ser indolor, esporádico e sem outros sintomas — é o "barulho de joelho" que muita gente tem a vida toda. Já o ruído que merece atenção geralmente vem acompanhado de dor, inchaço, sensação de travamento ou de falseio. Uma revisão publicada no JAMA em 2023, de Duong e colaboradores, resume bem as causas mais comuns de dor no joelho a partir dos 45 anos — artrose, dor patelofemoral e lesões de menisco — e os sinais clínicos que ajudam a distingui-las [7]. O barulho, nesse cenário, é apenas uma peça do quebra-cabeça, nunca o diagnóstico.

5. Sinais de alerta: quando procurar avaliação

Vale procurar avaliação com um ortopedista quando a crepitação não vem sozinha. Os sinais que justificam uma consulta incluem:

  • Dor persistente no joelho, especialmente ao subir e descer escadas ou ao agachar.
  • Inchaço que aparece e não melhora.
  • Travamento ou bloqueio (o joelho "trava" e custa a esticar ou dobrar).
  • Sensação de falseio (o joelho parece que vai ceder).
  • Barulho que surge após uma torção, queda ou trauma.

Uma ressalva honesta: mesmo o travamento, embora mereça avaliação, não é sinônimo automático de lesão grave que precise de cirurgia. Uma revisão de McHugh e colaboradores (2022), na Osteoarthritis and Cartilage, mostrou que os chamados "sintomas mecânicos" (travamento e "catching") têm capacidade apenas modesta de prever lesão de menisco [8]. Por isso o caminho é sempre a avaliação individual — que combina história, exame físico e, quando necessário, exames de imagem — e não a autointerpretação do sintoma.

6. O que ajuda: o movimento é aliado, não inimigo

Quando a crepitação está ligada à artrose ou à dor patelofemoral, a base do cuidado é conservadora — e o exercício ocupa o centro. Uma meta-análise em rede de Weng e colaboradores (2023), no British Journal of Sports Medicine, com 152 ensaios clínicos e mais de 17 mil participantes, mostrou que o exercício teve efeito semelhante ao de anti-inflamatórios e paracetamol sobre dor e função na artrose de quadril e joelho, com um perfil de segurança excelente [9] — o que é especialmente relevante para a pessoa idosa, que muitas vezes precisa evitar medicamentos com efeitos colaterais.

Que tipo de exercício? Uma revisão de Mo e colaboradores (2023) apontou que diferentes modalidades ajudam, com destaque para o exercício aeróbico e o fortalecimento [10]. Para a dor patelofemoral especificamente, o consenso internacional de referência, de Collins e colaboradores (2018), recomenda o fortalecimento de quadril e joelho como intervenção central [11]. E vale a tranquilização: orientação profissional sobre a crepitação aumenta a confiança do paciente para se manter ativo, em vez de evitar o movimento por medo do barulho [2].

Resumo prático: o estalo sozinho raramente é motivo de preocupação, e o medo de "gastar" o joelho não deve afastar ninguém da atividade física. Se a crepitação vem com dor, inchaço ou travamento, o passo certo é buscar avaliação — sempre sob orientação médica, de forma individualizada. Para entender o panorama do tratamento, veja artrose no joelho tem cura?, e, se o seu caso já avança para a discussão cirúrgica, prótese de joelho.

Referencias

  1. Couch JL, King MG, De Oliveira Silva D, et al. Noisy knees - knee crepitus prevalence and association with structural pathology: a systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2025;59(2):126-132. link
  2. Drum EE, Kovats A, Jones MD, et al. Creaky knees: Is there a reason for concern? A qualitative study of the perspectives of people with knee crepitus. Musculoskeletal Care. 2023;21(4):1114-1124. link
  3. Schiphof D, van Middelkoop M, de Klerk BM, et al. Crepitus is a first indication of patellofemoral osteoarthritis (and not of tibiofemoral osteoarthritis). Osteoarthritis Cartilage. 2014;22(5):631-638. link
  4. de Oliveira Silva D, Barton C, Crossley K, et al. Implications of knee crepitus to the overall clinical presentation of women with and without patellofemoral pain. Phys Ther Sport. 2018;33:89-95. link
  5. Lo GH, Strayhorn MT, Driban JB, et al. Subjective Crepitus as a Risk Factor for Incident Symptomatic Knee Osteoarthritis: Data From the Osteoarthritis Initiative. Arthritis Care Res (Hoboken). 2018;70(1):53-60. link
  6. Song SJ, Park CH, Liang H, Kim SJ. Noise around the Knee. Clin Orthop Surg. 2018;10(1):1-8. link
  7. Duong V, Oo WM, Ding C, et al. Evaluation and Treatment of Knee Pain: A Review. JAMA. 2023;330(16):1568-1580. link
  8. McHugh CG, Matzkin EG, Katz JN. Mechanical symptoms and meniscal tear: a reappraisal. Osteoarthritis Cartilage. 2022;30(2):178-183. link
  9. Weng Q, Goh SL, Wu J, et al. Comparative efficacy of exercise therapy and oral non-steroidal anti-inflammatory drugs and paracetamol for knee or hip osteoarthritis: a network meta-analysis of randomised controlled trials. Br J Sports Med. 2023;57(15):990-996. link
  10. Mo L, Jiang B, Mei T, Zhou D. Exercise Therapy for Knee Osteoarthritis: A Systematic Review and Network Meta-analysis. Orthop J Sports Med. 2023;11(5):23259671231172773. link
  11. Collins NJ, Barton CJ, van Middelkoop M, et al. 2018 Consensus statement on exercise therapy and physical interventions for patellofemoral pain. Br J Sports Med. 2018;52(18):1170-1178. link

Perguntas Frequentes

Meu joelho estala mas não dói. É artrose?

Provavelmente não, se o barulho vem sozinho. Estalos sem dor são muito comuns — aparecem em cerca de um terço das pessoas sem qualquer dor no joelho. O ruído isolado, sem dor, inchaço ou travamento, geralmente é benigno e não indica doença [1,2].

Então o estalo nunca tem a ver com artrose?

Tem, quando vem acompanhado de outros sinais. A crepitação está associada a maior chance de artrose visível na radiografia e é muito frequente em quem já tem artrose de joelho, sobretudo na região entre a patela e o fêmur. Mas essa é uma associação, com evidência de certeza baixa — "estalo" não é sinônimo de diagnóstico [1,3].

Quem estala hoje vai ter artrose no futuro?

O estalo sozinho é um preditor fraco. O melhor estudo longitudinal mostrou que a maioria das pessoas que desenvolveu artrose sintomática já tinha alterações na radiografia antes. O que pesa é o conjunto — idade, dor, inchaço e fatores de risco —, não o barulho isolado [5].

Devo evitar exercício para não "gastar" mais o joelho?

Não. O medo de gastar o joelho não deve afastar ninguém da atividade. O exercício é a base do tratamento conservador e teve efeito semelhante ao de anti-inflamatórios sobre dor e função na artrose, com ótima segurança. Fortalecimento e atividade aeróbica são especialmente úteis [9,10,11].

Quando devo procurar um ortopedista?

Quando o estalo vier acompanhado de dor persistente, inchaço, travamento, sensação de falseio, ou surgir após uma torção ou queda. Nesses casos, a avaliação individual — com história, exame físico e, se necessário, imagem — é o caminho, sempre sob orientação médica.

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