Marevan (Varfarina) na Prevenção de Trombose após Prótese — Ainda Vale a Pena?

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

A varfarina foi o anticoagulante padrão por décadas. Entenda quando ela ainda é usada e por que tem sido substituída por opções mais modernas.

A varfarina (Marevan) foi durante décadas o anticoagulante mais utilizado para prevenir coágulos após cirurgias de prótese de quadril e joelho. Por mais de 60 anos, essa medicação salvou vidas e continua sendo amplamente usada em todo o mundo.

Mas com o surgimento de novos anticoagulantes mais seguros e práticos, você pode estar se perguntando: ainda vale a pena tomar varfarina? Por que meu médico recomenda essa medicação em vez das mais modernas?

Neste artigo, vou explicar como a varfarina funciona, suas vantagens e limitações, e — mais importante — quando ela ainda é a melhor escolha para você.

Como a varfarina funciona?

A varfarina é um anticoagulante oral que funciona bloqueando a síntese de fatores de coagulação dependentes de vitamina K (fatores II, VII, IX e X) [2]. Em termos simples: ela reduz a capacidade natural do corpo de formar coágulos, diminuindo o risco de trombose venosa profunda (TVP) e embolia pulmonar (EP).

Diferentemente dos anticoagulantes mais novos, a varfarina é uma substância que foi descoberta acidentalmente como veneno para roedores na década de 1920 — antes de ser reconhecida como segura e eficaz em doses controladas para humanos. Por essa razão, oferece décadas de experiência clínica e um amplo corpo de conhecimento sobre seu uso.

Uma características importante da varfarina é que ela é rapidamente absorvida pelo trato gastrointestinal, mas seu efeito anticoagulante não é imediato — leva 48 a 72 horas para atingir níveis terapêuticos adequados. Por isso, nos primeiros dias após a cirurgia, geralmente é combinada com heparina de baixo peso molecular (HBPM), que atua rapidamente [2].

Eficácia comprovada e histórico

Os dados de eficácia da varfarina em prevenir eventos tromboembólicos após prótese de quadril e joelho são sólidos e bem documentados. Múltiplos ensaios clínicos randomizados e metanálises ao longo dos últimos 40 anos demonstram que a varfarina reduz significativamente a incidência de trombose venosa profunda (TVP) proximal e embolia pulmonar (EP) em comparação com placebo [2, 3].

O nível de anticoagulação alcançado pela varfarina é monitorado através do Índice Normalizado Internacional (INR) — um teste de sangue que mede quanto tempo o sangue leva para coagular. Para prevenção de trombose após prótese, o objetivo é manter um INR entre 2.0 e 3.0 [3, 4]. Esse intervalo (chamado "range terapêutico") oferece proteção contra coágulos sem aumentar demasiadamente o risco de sangramento.

No entanto, quando comparada com anticoagulantes mais novos (como rivaroxabana e apixabana), a varfarina mostra resultados menos consistentes [3]. Enquanto os anticoagulantes orais diretos (DOACs) mantêm um nível de anticoagulação mais previsível, a varfarina é influenciada por dieta, outros medicamentos, e variabilidade genética individual — o que a torna menos "previsível" em termos clínicos [3, 4].

Limitações e desafios práticos

Embora eficaz, a varfarina apresenta várias limitações práticas que explicam por que muitos médicos estão migrando para alternativas modernas:

  • Índice terapêutico estreito: A diferença entre uma dose segura e uma dose perigosa é pequena. INR abaixo de 2.0 oferece proteção inadequada; acima de 3.0, aumenta risco de sangramento [3, 4]
  • Monitoramento frequente: Você precisa fazer testes de sangue regularmente (inicialmente a cada 3-7 dias, depois a cada 4 semanas) para manter o INR no alvo [2, 4]
  • Onset lento: A varfarina leva vários dias para fazer efeito, exigindo o uso de heparina ("bridging") nos primeiros dias [2]
  • Interações com alimentos: Alimentos ricos em vitamina K (brócolis, couve, espinafre) reduzem o efeito da varfarina, exigindo constância na ingestão desses alimentos [4]
  • Interações medicamentosas: Antibióticos, anti-inflamatórios e dezenas de outras medicações podem aumentar ou diminuir o efeito da varfarina [2, 4]
  • Variabilidade genética: Alguns pacientes metabolizam a varfarina muito rapidamente (requerem doses altas), enquanto outros a metabolizam lentamente (requerem doses baixas) — isso é determinado geneticamente [3]
  • Adesão ao tratamento: A complexidade do regime (ajustes frequentes, monitoramento, restrições alimentares) reduz a adesão em comparação com medicações mais simples [4]

Por essas razões, a varfarina tem sido gradualmente substituída por alternativas mais simples e seguras em muitos países desenvolvidos [3].

Quando a varfarina ainda é indicada?

Apesar de suas limitações, a varfarina continua sendo uma opção válida em contextos específicos:

Em países com recursos limitados, onde acesso a anticoagulantes mais novos é restrito ou proibitivo em custo, a varfarina pode ser a melhor opção — se houver possibilidade de monitoramento regular do INR [4]. Seu custo é significativamente menor que DOACs, o que a torna economicamente viável em muitos sistemas de saúde.

Em pacientes com certos tipos de trombofilia, a varfarina pode oferecer cobertura anticoagulante mais ampla do que alguns DOACs, especialmente naqueles com deficiências de antitrombina, proteína C ou S [3, 4]. Nesses casos, os dados de segurança e eficácia da varfarina são mais robustos.

A reversibilidade é uma vantagem importante. Se você sofrer uma hemorragia grave, a varfarina pode ser rapidamente revertida com vitamina K intravenosa ou plasma fresco congelado [2, 4]. Alguns DOACs mais antigos também têm antídotos, mas a experiência clínica com reversão de varfarina é décadas mais antiga.

Ferramentas emergentes estão melhorando seu uso. Testes de farmacogenômica (que identificam seu tipo genético de metabolismo de varfarina) e aplicativos de monitoramento remoto de INR estão tornando a varfarina mais segura e previsível para pacientes que usam adequadamente essas ferramentas [3].

Em resumo: a varfarina não desapareceu. Ela continua sendo uma opção válida, particularmente em cenários de recursos limitados, pacientes com certas trombofilias, e em sistemas de saúde com boa estrutura de monitoramento [3, 4].

Referencias

  1. Gausden EB, Mihalko WM (eds). AAOS Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction 7. Wolters Kluwer / American Academy of Orthopaedic Surgeons; 2026. ISBN: 978-1975248437. link
  2. Geerts WH, Bergqvist D, Pineo GF, et al. Prevention of venous thromboembolism: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines (8th Edition). Chest. 2008;133(6 suppl):381S-453S. link
  3. Lieberman JR, Bell JA. Thromboembolism prophylaxis in arthroplasty. J Bone Joint Surg Am. 2021;103(16):1556-1564. link
  4. Falck-Ytter Y, Francis CW, Jonasson T, et al. Prevention of VTE in orthopedic surgery patients: Antithrombotic Therapy and Prevention of Thrombosis, 9th ed: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines. Chest. 2012;141(2 suppl):e278S-e325S. link
  5. Fitzgerald RH, Spinal R, Hopson CN. Prevention of venous thromboembolism following total hip arthroplasty: a randomised trial of aspirin versus external pneumatic compression. J Bone Joint Surg Am. 2001;83(6):900-906. link

Perguntas Frequentes

Quais alimentos devo evitar com varfarina?

Você não precisa evitar completamente alimentos ricos em vitamina K (brócolis, couve, espinafre), mas deve mantê-los em quantidade consistente. Mudanças abruptas na ingestão de vitamina K alteram o INR. A chave é estabilidade — coma sempre a mesma quantidade.

Com que frequência preciso fazer testes de sangue (INR)?

Inicialmente, durante o primeiro mês, geralmente a cada 3-7 dias. Após estabilizar, a frequência reduz para a cada 4 semanas ou até 2-3 meses. Seu médico ajustará conforme sua resposta individual à medicação.

Posso mudar para um anticoagulante mais moderno (como Xarelto ou Eliquis)?

Sim, muitos pacientes fazem essa transição. No entanto, o "bridging" (sobreposição de medicações) deve ser feito sob supervisão médica. Não mude sem orientação — a varfarina requer "washout" (eliminação gradual) para evitar hipercoagulabilidade.

O que acontece se eu esquecer uma dose de varfarina?

Se esquecer de uma dose, não tome o dobro no dia seguinte. Tome a dose esquecida apenas se lembrar no mesmo dia. Se lembrar depois, espere até o próximo horário normal. Informe seu médico e faça um INR em breve para verificar se há necessidade de ajuste.

A varfarina aumenta o risco de sangramento? Vale a pena o risco?

Sim, varfarina aumenta ligeiramente o risco de sangramento quando comparada a não tomar nada. Mas o benefício (prevenir coágulos que podem ser fatais) geralmente supera esse risco em pacientes que passaram por prótese de quadril ou joelho. A avaliação é individual — seu médico avaliará seu risco específico.

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