Recomendações Atuais de Exercícios Após Prótese Total de Joelho

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

Como prescrever treino de resistência com segurança após a artroplastia total de joelho — exercícios liberados, contraindicados, cargas e sinais de alerta, com base em evidência científica recente.

Você é educador físico e recebeu um aluno que fez prótese total de joelho. A reabilitação inicial com o fisioterapeuta terminou, e agora é com você: cabe a você conduzir o treinamento de resistência que vai proteger esse implante e devolver função ao paciente pelas próximas décadas.

A boa notícia é que a literatura científica mais recente é clara: o treinamento de resistência (musculação) após a artroplastia total de joelho é seguro e efetivo, melhora força muscular e função física, e quando bem prescrito, supera a reabilitação padrão isolada [1, 2]. A má notícia é que muitos pacientes nunca recebem essa prescrição estruturada — e perdem grande parte do potencial funcional que a cirurgia oferece.

Este artigo é um guia prático, baseado em evidência, com o que o educador físico precisa saber: por que a musculação é parte do tratamento, quais exercícios estão liberados ou contraindicados, como prescrever a carga, e quando interromper o treino e encaminhar de volta ao cirurgião.

1. Por que o treino de resistência é parte do tratamento

A artrose que levou o paciente à prótese de joelho não apareceu de repente — foram anos de dor, limitação e inatividade progressiva. Quando o paciente chega à cirurgia, ele já apresenta perda de massa muscular e fraqueza do quadríceps significativas. A cirurgia resolve a dor articular, mas a fraqueza muscular não se resolve sozinha [1, 3].

Imediatamente após a artroplastia total de joelho, a força do quadríceps cai drasticamente — em um estudo recente, a redução foi de aproximadamente 72% nos primeiros dias após a cirurgia [3]. Mais relevante: a magnitude dessa perda de força do quadríceps é um preditor independente da força muscular alcançada três meses depois, ou seja, quem perde mais força tem recuperação pior [3]. Isso reforça por que o treinamento estruturado de força não é opcional após a alta da fisioterapia.

A revisão narrativa mais atual sobre o tema, publicada no European Journal of Sport Science, é direta: tanto a força muscular quanto a massa muscular podem ser melhoradas em maior grau com treinamento de resistência adicionado à reabilitação padrão, em comparação com a reabilitação padrão isolada [1]. Os ganhos se traduzem em desempenho em testes funcionais que dependem de força do quadríceps e equilíbrio (subir escadas, levantar de cadeiras), especialmente em pacientes com pior nível funcional inicial [1].

Além do ganho funcional, há outra razão crítica: a queda. Pacientes operados de prótese de joelho têm risco aumentado de quedas no pós-operatório, em parte por alterações de força muscular e propriocepção induzidas pela cirurgia [4]. As estratégias mais eficazes de prevenção combinam educação do paciente, intervenções de exercício e modificações ambientais [4]. O educador físico tem papel central nesse processo.

2. O que o educador físico precisa saber sobre a prótese

A prótese total do joelho substitui as superfícies articulares desgastadas pela artrose por componentes artificiais: um componente femoral metálico, uma base tibial metálica, e entre eles um inserto de polietileno de alta densidade que faz o papel de cartilagem artificial. O componente patelar pode ou não ter sido substituído, dependendo da técnica do cirurgião.

O ponto-chave para o educador físico é o polietileno: ele sofre desgaste mecânico ao longo dos anos, e o desgaste é diretamente influenciado pela carga de impacto e pela frequência de movimentos em amplitudes extremas. É por isso que esportes de alto impacto e corrida permanecem temas controversos após a artroplastia total de joelho — há preocupação real sobre soltura do implante e desgaste acelerado, e a recomendação atual continua sendo priorizar atividades de baixo impacto [5].

Sobre amplitude de movimento: a maioria dos pacientes atinge entre 100° e 120° de flexão após a prótese, raramente ultrapassando 125°. Isso impacta diretamente a escolha e o ajuste dos exercícios — agachamentos, leg press e cadeira flexora precisam respeitar o arco disponível, sem forçar amplitude. Travamento, dor aguda ou sensação de bloqueio são sinais para parar o exercício e comunicar o cirurgião.

3. Exercícios contraindicados, recomendados e como prescrever a carga

Exercícios contraindicados ou a serem evitados:

  • Agachamento profundo (acima de 90° de flexão sob carga): a flexão excessiva sob carga gera estresse destrutivo no polietileno e na interface osso-implante
  • Avanço (lunge) profundo, com agravante do cisalhamento no joelho da frente
  • Saltos e pliometria: o impacto repetitivo é uma das principais preocupações para o desgaste do polietileno e fixação do implante [5]
  • Corrida: cada passo gera 3 a 4 vezes o peso corporal sobre o joelho — embora alguns protocolos recentes investiguem retorno à corrida de baixo volume em pacientes selecionados, a evidência ainda é limitada e a indicação permanece individualizada [5]
  • Movimentos rotacionais sob carga (giro com pés fixos)
  • Carga máxima ou teste de 1RM em membros inferiores
  • Ajoelhar diretamente no chão (pressão direta sobre patela/implante)

Exercícios recomendados (membros inferiores):

  • Leg press 45° com flexão limitada a 70-80°, carga moderada (3x12-15)
  • Cadeira extensora em arco parcial (90° a 30°), com foco em controle excêntrico
  • Cadeira flexora respeitando o arco confortável
  • Abdutora e adutora de quadril (movimento no quadril, não no joelho — essencial para estabilidade da marcha)
  • Panturrilha: liberada sem restrições específicas
  • Agachamento parcial guiado no Smith (até 60-70° de flexão)
  • Stiff/terra romeno: joelhos quase estendidos, baixa demanda sobre a prótese, excelente para posterior de coxa e glúteo

Membros superiores e tronco: liberados sem restrições relacionadas à prótese.

Como prescrever a carga — base de evidência: a revisão do European Journal of Sport Science recomenda, para que o treinamento de resistência seja otimamente efetivo após artroplastia, intensidade de 70 a 80% de uma repetição máxima (1RM), 3 a 4 séries por exercício, mínimo de 3 vezes por semana, por pelo menos 8 semanas [1]. Importante: essa intensidade deve ser estimada de forma conservadora em pacientes com prótese — nunca testar 1RM diretamente em membros inferiores. A meta-análise mais recente confirma que o treinamento de resistência progressiva após artroplastia é seguro, sem aumento na incidência de eventos adversos comparado à reabilitação padrão [2].

Velocidade do movimento controlada (2-3 segundos na fase concêntrica, 3-4 na excêntrica), aquecimento prévio em bicicleta ergométrica, e progressão de carga apenas quando o paciente completa todas as séries sem dor articular e com controle total. Desconforto muscular é esperado; dor articular no joelho não é normal e indica necessidade de ajuste.

4. Cardio, propriocepção e quando encaminhar de volta ao cirurgião

Atividade cardiovascular: a literatura sobre retorno à atividade após artroplastia de joelho recomenda priorizar atividades de baixo impacto como bicicleta ergométrica, elíptico, natação, hidroginástica e caminhada em piso plano [5]. Esteira pode ser usada para caminhada (sem inclinação alta). Atividades com impacto repetitivo (corrida, pular corda, step com salto) e esportes com giro (futsal, tênis competitivo, vôlei) permanecem na categoria de "não recomendados" para a maioria dos pacientes [5].

Propriocepção e equilíbrio: a cirurgia secciona receptores proprioceptivos ao redor do joelho, e o paciente perde parte da noção de posição articular no espaço — proprioceção reduzida do joelho operado é um dos fatores associados a maior risco de queda no pós-operatório [4]. Treino de equilíbrio é obrigatório, mas com segurança: sempre próximo a apoio, começando bilateral e progredindo para unilateral, e superfícies instáveis (bosu, disco) somente sob supervisão direta. Uma queda pode causar fratura periprotética — uma complicação grave [4].

Sinais de alerta — quando interromper e encaminhar:

  • Dor que piora progressivamente durante ou após o treino (diferente de desconforto muscular)
  • Inchaço no joelho que não melhora em 24-48h após o treino
  • Sensação de instabilidade, falseio ou "joelho saindo do lugar"
  • Estalos novos, crepitação diferente do habitual ou ruído metálico
  • Diminuição do arco de movimento em relação ao habitual
  • Vermelhidão, calor local ou febre (encaminhar com urgência — possível infecção)
  • Dor noturna que acorda o paciente

Limitações da evidência: a maior parte dos estudos sobre treinamento de resistência avalia o período de até um ano após a cirurgia [1, 2]. Para o longo prazo (treino contínuo por anos), a evidência específica é menor — mas o princípio biológico (preservar massa e força muscular para proteger a articulação) é consistente com toda a literatura sobre envelhecimento ativo. O paciente com prótese de joelho precisa de treinamento de resistência pelo resto da vida, com evolução supervisionada.

Referencias

  1. Monsegue AP, Emans P, van Loon LJC, Verdijk LB. Resistance exercise training to improve post-operative rehabilitation in knee arthroplasty patients: A narrative review. Eur J Sport Sci. 2024;24(7):938-949. IF ≈ 3.5. link
  2. Liu HW. Resistance training in patients with total knee arthroplasty: A systematic review and meta-analysis. J Orthop. 2024;56:111-118. IF ≈ 1.9. link
  3. Kubo Y, Fujita D, Sugiyama S, et al. Quadriceps Strength Loss Following Total Knee Arthroplasty as a Predictor of Three-Month Strength Recovery: A Secondary Analysis of a Randomized Controlled Trial. Cureus. 2024;16(8):e68244. link
  4. Wu KA, Kutzer KM, Kugelman DN, Seyler TM. Fall Prevention after Hip and Knee Arthroplasty. Orthop Clin North Am. 2025;56(2):121-134. IF ≈ 2.0. link
  5. Faldini C, Traina F, Digennaro V, et al. Returning to running after total knee arthroplasty: a systematic review and a novel multimodal protocol. Musculoskelet Surg. 2025;109(2):145-153. link

Perguntas Frequentes

Posso fazer agachamento livre com barra após prótese de joelho?

Não é a melhor escolha. A literatura prioriza atividades de baixo impacto e cargas moderadas após a artroplastia, com flexão limitada para proteger o polietileno [1, 5]. Se for fazer agachamento, prefira a versão guiada no Smith machine, com flexão limitada a 60-70° e carga moderada — nunca carga máxima [1].

Quanto tempo após a cirurgia posso começar a musculação estruturada?

O treinamento de resistência pode ser iniciado precocemente como parte da reabilitação, com supervisão. Para os melhores ganhos comprovados, a literatura recomenda incluir treinamento de resistência progressiva no mínimo 3 vezes por semana por pelo menos 8 semanas, em intensidade de 70-80% de 1RM estimada [1]. A transição da fisioterapia para a musculação supervisionada deve ser combinada entre cirurgião, fisioterapeuta e educador físico.

Posso voltar a correr depois da prótese de joelho?

Por décadas a corrida foi desencorajada após a prótese de joelho pelo risco de soltura do implante e desgaste acelerado. Estudos recentes começam a investigar o retorno à corrida em pacientes selecionados, com protocolos específicos, e mostram complicações relativamente baixas — mas a evidência ainda é limitada e a recomendação permanece prioridade para atividades de baixo impacto [5]. A decisão deve ser sempre individualizada e discutida com o cirurgião.

O treino com restrição de fluxo sanguíneo (BFR) é seguro depois da prótese?

Sim, dados recentes mostram que o treino de baixa carga com restrição de fluxo sanguíneo (BFR) é seguro e produz ganhos de força do quadríceps comparáveis a outras estratégias, sem aumento de marcadores trombóticos como D-dímero [3]. É uma alternativa interessante quando a carga alta é mal tolerada — mas exige profissional treinado no método.

Por que é tão importante fortalecer o quadríceps depois da prótese?

A força do quadríceps cai drasticamente após a cirurgia (cerca de 72% nos primeiros dias em estudos recentes), e a magnitude dessa perda é um preditor independente da força recuperada três meses depois — quanto maior a perda inicial, pior a recuperação [3]. Quadríceps fraco também está associado a maior risco de queda no pós-operatório, e quedas podem causar fraturas periprotéticas, uma complicação grave [4]. Portanto, fortalecer o quadríceps com treinamento estruturado não é luxo: é parte do tratamento [1].

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