Preparação Antes da Prótese: Como a Prehabilitação e o Controle do Diabetes Mudam o Resultado

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

O que você pode fazer nas semanas antes da cirurgia de quadril ou joelho para reduzir riscos, diminuir dor e acelerar a recuperação — segundo a atualização 2026 da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos.

Se você vai colocar uma prótese de quadril ou joelho, saiba que boa parte do sucesso da cirurgia é decidida antes de você entrar no centro cirúrgico. A preparação pré-operatória — tudo o que se faz nas semanas e meses que antecedem a cirurgia — é considerada pela Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS, a maior sociedade de ortopedia do mundo) um dos componentes mais críticos de todo o processo, especialmente quando o objetivo é ir para casa no mesmo dia ou no dia seguinte [1].

Neste artigo, vamos aprofundar o que o livro da AAOS — Orthopaedic Knowledge Update (edição 2026) — traz sobre preparação pré-operatória [1]. Este artigo faz parte da nossa série sobre Artroplastia Ambulatorial: Prótese de Quadril e Joelho com Alta no Mesmo Dia, onde apresentamos o tema geral. Hoje vamos ao detalhe: o que exatamente pode ser otimizado, o que a ciência mostra, e o que você pode fazer na prática.

Os pilares principais são: avaliação médica completa, controle do diabetes e do peso, correção de anemia e desnutrição, prehabilitação (exercícios antes da cirurgia), educação do paciente e rede de apoio em casa. Vamos a cada um deles.

1. Por que a preparação antes da cirurgia é tão importante

Segundo o livro da AAOS, a preparação pré-operatória tem três objetivos principais: (1) identificar e tratar fatores de risco que podem ser modificados antes da cirurgia, (2) educar o paciente sobre o que esperar durante e depois do procedimento, e (3) preparar o corpo e a mente para a cirurgia [1]. O texto original do livro da AAOS diz, literalmente:

"Preoperative optimization is a critical component of the surgical process, particularly in the context of TJA. This phase involves a series of measures aimed at reducing the risk of complications and enhancing the overall success of the surgery."

Em linguagem simples: quanto mais preparado você chega à cirurgia, menores são os riscos de complicação e mais rápida tende a ser a recuperação. Isso vale tanto para quem vai ficar internado alguns dias quanto para quem é candidato à alta no mesmo dia [1].

A preparação não é feita só pelo cirurgião — envolve também o clínico geral, o endocrinologista (quando há diabetes), o nutricionista, o fisioterapeuta e até a família, que precisa estar preparada para ajudar nos primeiros dias após a cirurgia [1].

2. Diabetes: o papel da hemoglobina glicada (HbA1c)

O diabetes é um dos fatores de risco mais estudados no contexto da cirurgia de prótese. A hemoglobina glicada — conhecida como HbA1c, um exame de sangue que mostra a média do açúcar no sangue dos últimos 3 meses — é usada pelos cirurgiões para avaliar se o diabetes está controlado o suficiente para operar com segurança [1].

O livro da AAOS menciona que alguns centros usam faixas de HbA1c entre 7,0% e 8,0% como limite para a cirurgia, com um estudo sugerindo 7,7% como ponto de corte para melhores resultados [1]. Mas o próprio AAOS deixa claro que esse valor ainda é controverso — não existe um número universal aceito por todos. O que se sabe é que diabetes descontrolado aumenta o risco de infecção da prótese, e por isso o controle rigoroso antes da cirurgia é recomendado [1].

Na prática, se você tem diabetes e vai fazer uma cirurgia de prótese, o ideal é trabalhar junto com seu endocrinologista para otimizar a HbA1c nas semanas e meses antes do procedimento. Isso pode incluir ajuste de medicação, mudanças na alimentação e aumento da atividade física — tudo com acompanhamento médico [1].

3. Peso, nutrição e anemia: três fatores que fazem diferença

O excesso de peso aumenta o estresse mecânico sobre a prótese nova e pode dificultar a recuperação. Já a desnutrição — que não é rara em idosos, mesmo nos que não estão magros — prejudica a cicatrização e aumenta o risco de infecção [1]. O AAOS inclui a otimização nutricional entre os pilares da preparação, citando que garantir uma ingestão adequada de proteínas, vitaminas e minerais antes da cirurgia pode melhorar a cicatrização e a recuperação [1].

A anemia (hemoglobina baixa no sangue) também precisa ser avaliada e corrigida antes da cirurgia, porque durante a colocação da prótese existe perda de sangue. Se o paciente já começa a cirurgia anêmico, o risco de precisar de transfusão ou de ter uma recuperação mais lenta aumenta [1]. Exames como hemograma e dosagem de ferro, ferritina e vitamina B12 fazem parte da avaliação pré-operatória em muitos centros.

O livro da AAOS lista entre os componentes essenciais da preparação: "Ensuring adequate nutritional intake and addressing any deficiencies before surgery can promote better healing and recovery" [1]. Na prática: se você vai operar, vale conversar com seu médico sobre fazer uma avaliação nutricional algumas semanas antes.

4. Prehabilitação: exercícios antes da cirurgia que realmente funcionam

A prehabilitação (ou reabilitação pré-operatória) é o nome dado aos exercícios feitos antes da cirurgia, com o objetivo de fortalecer os músculos ao redor da articulação que vai ser operada, melhorar a flexibilidade e aumentar o condicionamento geral [1].

O livro da AAOS cita uma revisão sistemática com meta-análise (técnica que reúne e analisa os resultados de vários estudos ao mesmo tempo) publicada em 2023 por De Klerk e colaboradores no Bone & Joint Open. Esse estudo reuniu dados de vários trabalhos sobre prehabilitação domiciliar (feita em casa) em pacientes de prótese de quadril e joelho e encontrou que [3]:

  • A prehabilitação melhorou a dor e a função antes da cirurgia — ou seja, o paciente já chega ao dia da operação sentindo-se melhor.
  • Houve redução do tempo de internação após a cirurgia.
  • Os efeitos sobre desfechos pós-operatórios de longo prazo ainda precisam de mais estudos.

O que o livro deixa claro é que programas simples, feitos em casa — como fortalecimento de coxa (quadríceps), glúteo e musculatura do tronco (core) — já são suficientes para trazer benefício. Não precisa ser academia sofisticada: exercícios com o próprio peso do corpo ou faixas elásticas, supervisionados pelo fisioterapeuta, funcionam [1].

O texto original do livro diz: "These preoperative interventions have been shown to improve pain and function before total hip arthroplasty and total knee arthroplasty (TKA) and reduce length of hospital stay" [1,3]. Isso é evidência de nível I (o mais alto) — revisão sistemática com meta-análise.

5. Educação do paciente: saber o que esperar faz diferença

O AAOS dedica atenção especial à educação pré-operatória. Segundo o livro, pacientes que são bem informados sobre os detalhes do procedimento, o que esperar na recuperação e a importância de seguir o programa de reabilitação têm melhores resultados e maior satisfação [1].

Na prática, a educação pré-operatória pode incluir: entender como é a cirurgia e quanto tempo dura, saber quais atividades pode e não pode fazer nas primeiras semanas, conhecer os exercícios que vai precisar fazer depois, saber como vai funcionar o controle da dor (medicações, bloqueios de nervo, gelo) e ter expectativas realistas sobre o tempo para voltar a dirigir, trabalhar e praticar esportes.

Outro ponto que o livro reforça: a fisioterapia pós-operatória é obrigatória, não opcional. Para o joelho, a preferência dos autores é por transição direta para fisioterapia ambulatorial (em clínica, com supervisão), onde a reabilitação é mais estruturada. Para o quadril, programas domiciliares por vídeo ou com orientação à distância também são aceitos [1]. Saber isso antes da cirurgia ajuda a planejar e organizar a agenda.

6. Suporte em casa: o fator que muita gente esquece

O livro da AAOS inclui o suporte domiciliar entre os requisitos essenciais para qualquer paciente que vai fazer cirurgia de prótese, independentemente de onde a cirurgia será feita (clínica ambulatorial ou hospital) [1]. Na tabela de componentes essenciais da preparação, o texto diz:

"Confirming the presence of a reliable support system at home for postoperative care and transportation."

Traduzindo: ter um acompanhante confiável em casa nas primeiras 48 horas é tão importante quanto qualquer variável clínica. Esse acompanhante precisa poder ajudar com atividades básicas (como ir ao banheiro, preparar refeições, organizar medicações) e estar disponível para levar o paciente ao médico ou ao pronto-socorro se surgir algum problema inesperado.

Se você mora sozinho e não tem alguém que possa ficar com você nos primeiros dias, é importante avisar seu cirurgião com antecedência — existem alternativas, como centros de reabilitação de curta permanência, que podem ser consideradas [1].

7. A tabela completa de preparação do AAOS

O livro traz uma tabela-resumo (Tabela 1) com todos os componentes que devem ser avaliados antes da cirurgia. Adaptando para linguagem mais acessível [1]:

  • Avaliação médica: levantar toda a história de saúde e tratar o que for possível (diabetes, pressão alta, obesidade).
  • Educação do paciente: explicar o procedimento, a recuperação e os cuidados pós-operatórios.
  • Nutrição: garantir alimentação adequada e corrigir deficiências (ferro, vitaminas, proteínas).
  • Prehabilitação: exercícios de fortalecimento antes da cirurgia.
  • Suporte social: confirmar acompanhante confiável em casa.
  • Plano de anestesia: definir o tipo de anestesia com base no perfil do paciente.
  • Estratégia de controle da dor: combinar várias técnicas (medicações + bloqueios + infiltração).
  • Prevenção de trombose: definir o esquema de anticoagulação.
  • Critérios de alta: definir antes da cirurgia o que o paciente precisa alcançar para ir para casa.

Perceba que a cirurgia em si é só uma parte do processo. A maior parte do trabalho acontece antes e depois — e o paciente é protagonista nessa preparação.

Referencias

  1. Fricka KB, Murphy MP. Outpatient Total Joint Arthroplasty. In: AAOS Orthopaedic Knowledge Update (OKU): Hip and Knee Reconstruction 7. American Academy of Orthopaedic Surgeons; 2026: Cap. 5. link
  2. De Klerk TC, Dounavi DM, Hamilton DF, Clement ND, Kaliarntas KT. Effects of home-based prehabilitation on pre- and postoperative outcomes following total hip and knee arthroplasty. Bone Jt Open. 2023;4(5):315-328. link
  3. Radtke LE, Blackburn BE, Kapron CR, et al. Outpatient Total Joint Arthroplasty at a High-Volume Academic Center: An Analysis of Failure to Launch. J Arthroplasty. 2024;39(9 Suppl 2):S134-S142. link

Perguntas Frequentes

Quanto tempo antes da cirurgia devo começar a prehabilitação?

O ideal é começar pelo menos 4 a 6 semanas antes da data da cirurgia. Programas simples em casa — fortalecimento de coxa, glúteo e core com exercícios de peso corporal ou faixa elástica — já trazem benefício comprovado em dor e tempo de internação [1,3].

Minha HbA1c precisa estar abaixo de quanto para operar?

O AAOS cita faixas entre 7,0% e 8,0% como referência, com um estudo sugerindo 7,7% como ponto de corte. Mas esse valor ainda é controverso e não existe um número universal. O mais importante é trabalhar com seu endocrinologista para otimizar o controle do diabetes antes da cirurgia [1].

Preciso perder peso antes da prótese?

O excesso de peso aumenta o risco de complicações e o estresse mecânico sobre a prótese. O AAOS inclui a otimização do peso entre os pilares da preparação. Converse com seu cirurgião sobre metas realistas — mesmo uma perda modesta pode fazer diferença [1].

O que é prehabilitação e como é diferente da fisioterapia pós-operatória?

Prehabilitação são exercícios feitos ANTES da cirurgia para fortalecer músculos e melhorar condicionamento. A fisioterapia pós-operatória é feita DEPOIS, para recuperar movimento e força. As duas se complementam — e a prehabilitação ajuda a tornar a reabilitação pós-cirúrgica mais rápida e menos dolorosa [1,3].

Posso fazer a cirurgia se moro sozinho?

O AAOS lista o suporte domiciliar como requisito essencial. Se você mora sozinho, converse com seu cirurgião com antecedência — pode ser necessário organizar um acompanhante para os primeiros dias ou considerar um centro de reabilitação de curta permanência [1].

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