Todos os pacientes que passam por prótese de quadril ou joelho têm algum risco de desenvolver um coágulo de sangue. Mas nem todos têm o mesmo risco.
Um paciente de 55 anos, ativo, sem história de coágulos, sem problemas genéticos de coagulação e em boa saúde geral tem um risco muito diferente de um paciente de 80 anos, obeso, com história anterior de trombose, imobilizado por vários meses antes da cirurgia, e com múltiplas doenças crônicas.
É por isso que a avaliação individual de risco é o primeiro passo na prevenção de trombose após prótese. Neste artigo, vou explicar como seu médico avalia esse risco e como as diretrizes internacionais orientam a intensidade da prevenção que você receberá.
Quem são os pacientes de alto risco?
Fatores de risco do paciente (relacionados ao seu estado de saúde geral) para trombose incluem [2, 3]:
- História pessoal anterior de trombose venosa profunda (TVP) ou embolia pulmonar (EP): Se você já teve um coágulo antes, seu risco de ter outro é significativamente maior [2, 3]
- Trombofilia (distúrbio genético de coagulação): Incluindo deficiência de antitrombina, proteína C, proteína S, ou mutações genéticas como fator V Leiden ou mutação G20210A no gene da protrombina [2, 3]
- Câncer ativo: Pacientes com diagnóstico recente ou câncer ativo têm risco muito elevado de trombose [2, 3]
- Obesidade severa: Geralmente definida como índice de massa corporal (IMC) acima de 30-35 kg/m² [2, 3]
- Idade avançada: Risco aumenta progressivamente após os 60 anos, e ainda mais após os 75 [2, 3]
- Imobilidade prolongada antes da cirurgia: Se você passou semanas ou meses incapaz de caminhar ou com mobilidade reduzida antes da operação, seu risco é maior [2]
Fatores de risco cirúrgicos (relacionados à própria cirurgia) incluem [2, 3, 4]:
- Cirurgia bilateral: Fazer prótese de ambas as pernas (quadril ou joelho) no mesmo tempo ou em tempos muito próximos aumenta o risco [2, 3]
- Cirurgia de revisão (reimplante): Trocar uma prótese antiga por uma nova é mais traumática que a primeira cirurgia [2, 3]
- Duração prolongada da cirurgia: Quanto mais tempo de cirurgia, maior o trauma tecidual e maior o risco [2, 3]
- Mobilização tardia após a cirurgia: Se você não conseguir caminhar ou fazer exercícios nos primeiros dias (por dor excessiva ou complicações), o risco aumenta [3, 4]
O efeito cumulativo é importante: um paciente com um fator de risco tem risco elevado; um paciente com múltiplos fatores tem risco dramáticamente aumentado [2, 3].
Como o médico avalia seu risco individual?
Existem ferramentas formais que seu médico pode usar para estratificar o risco de forma padronizada. A mais conhecida é a escala de Caprini, que examina uma lista de fatores de risco e atribui pontos a cada um [2]. A soma dos pontos coloca você em uma categoria: risco baixo, moderado, alto ou muito alto.
Uma ferramenta mais recente e específica para ortopedia é o Calculador de Risco VTE do ICM 2022 (Orthopedic Surgery Thromboembolic Disease Consensus), que é baseado em dados atualizados de 2022 [3]. Esse calculador está disponível online e permite ao médico inserir seus dados específicos para obter uma estimativa de risco percentual personalizada. Por exemplo, pode indicar: "Este paciente tem 15% de risco de TVP proximal sem profilaxia" [3].
Importante: essas ferramentas são auxiliares — o julgamento clínico do seu médico, combinado com essas ferramentas, é o que guia a decisão final [2, 3]. Seu médico avalia não apenas números, mas também sua história clínica completa, seu estado geral de saúde, e suas preferências pessoais [2].
O que as diretrizes recomendam para pacientes de alto risco?
As principais diretrizes internacionais (AAOS, ACCP 2012, NICE, e ICM 2022) oferecem recomendações que variam ligeiramente em detalhes, mas convergem em princípios gerais para pacientes de alto risco [2, 3, 4, 5]:
Recomendação AAOS (2021): Para pacientes de alto risco após arthroplastia de quadril, a AAOS recomenda uma abordagem multimodal: uso de agente anticoagulante (LMWH, DOAC ou aspirina) MAIS dispositivos mecânicos (meias de compressão ou IPCD) MAIS mobilização precoce. A duração mínima é de 10-14 dias, mas para cirurgia de quadril em pacientes alto risco, 28-35 dias é crucial — o risco de trombose se estende além das primeiras duas semanas [2, 4].
Recomendação ACCP (2012): Para pacientes de alto risco, a ACCP recomenda LMWH ou DOAC com duração prolongada (até 35 dias para quadril) [5]. A aspirina não era recomendada como monoterapia em pacientes alto risco na versão 2012, mas essa visão está evoluindo (veja a seção de tendências emergentes).
Recomendação ICM 2022: A diretriz mais recente enfatiza personalização completa. Para alto risco, recomenda LMWH ou DOAC, com preferência baseada em perfil de sangramento individual. Menciona que aspirina está ganhando suporte em dados mais recentes, particularmente em pacientes com risco moderado-alto [3]. Enfatiza fortemente que medidas mecânicas devem ser consideradas em qualquer paciente, independentemente da medicação usada [3].
Tendência emergente: aspirina está sendo reavaliada. Estudos recentes (incluindo dados de 2024 e 2025) sugerem que aspirina em altas doses (325 mg duas vezes ao dia) pode ser não-inferior a LMWH ou DOACs em prevenir trombose em arthroplastia, com risco de sangramento menor [4, 6, 7]. Isso significa que seu médico pode oferecer aspirina como primeira linha mesmo em risco moderado-alto, algo que era menos comum cinco anos atrás [4, 6].
Preferências de medicação em alto risco: LMWH continua sendo o padrão-ouro com a maior quantidade de dados suportando sua eficácia em alto risco [2, 5]. DOACs (especialmente rivaroxabana) estão ganhando terreno com dados comparáveis ou superiores em eficácia e, em alguns casos, melhor perfil de segurança de sangramento [3, 4]. A apixabana é frequentemente preferida em pacientes com risco aumentado de sangramento devido a seu perfil de segurança [3, 4].
Quanto tempo deve durar a prevenção?
Para prótese de joelho (TKA): A maioria das diretrizes recomenda profilaxia por 10-14 dias [2, 3]. Para pacientes de risco muito elevado (história anterior de trombose + outro fator major), alguns especialistas consideram estender para 28 dias, embora não haja consenso universal [3].
Para prótese de quadril (THA): Este é diferente e crítico: a profilaxia deve durar pelo menos 28-35 dias [2, 3, 4]. A razão é que o risco de trombose em quadril é intrinsecamente mais alto e se estende além das duas primeiras semanas [2, 4, 5]. Estudos mostram que pacientes que param a profilaxia em 14 dias após THA têm risco persistentemente elevado entre as semanas 2 e 4 [2, 3].
Mobilização precoce é essencial. Independentemente da medicação ou duração da profilaxia farmacológica, começar a caminhar no dia da cirurgia ou no primeiro dia pós-operatório é uma das intervenções mais importantes para reduzir o risco de trombose [2, 3, 4]. A "bomba muscular" que funciona durante a caminhada é um antitrombótico poderoso — talvez tão importante quanto a medicação [2, 4].
Se você experimentar dor excessiva que impede a mobilização, converse com seu médico ou fisioterapeuta. Existem estratégias para controlar a dor permitindo mobilização (ajustes de medicação analgésica, técnicas de fisioterapia modificadas) [3, 4].
Tendências emergentes e medicina personalizada
Medicina personalizada na prevenção de trombose está chegando. Em vez de um abordagem "um tamanho serve para todos", o futuro aponta para [3, 4, 6, 7]:
Ferramentas de estratificação de risco mais precisas: Biomarquadores de sangue (como marcadores de atividade de coagulação) podem, no futuro, fornecer informações além do Caprini ou ICM score — indicando exatamente qual paciente precisa de 14 dias vs. 35 dias de profilaxia [6, 7].
Farmacogenômica: Testes genéticos que identificam como você especificamente metaboliza medicações anticoagulantes. Alguns pacientes são "metabolizadores rápidos" (requerem doses maiores) e outros "metabolizadores lentos" (requerem doses menores). Personalizar a dose com base em seu perfil genético pode melhorar segurança [3, 4].
Terapias combinadas otimizadas: Em vez de usar um único agente, combinações sinérgicas (por exemplo, aspirina + dispositivos mecânicos + caminhada intensiva) estão sendo estudadas para oferecer máxima proteção com mínimo de medicação [3, 4].
Monitoramento remoto: Aplicativos e dispositivos wearables (relógios inteligentes, sensores) podem monitorar circulação periférica, atividade, e alertar pacientes (e médicos) sobre mudanças que sugiram aumento de risco [4].
Anticoagulantes de próxima geração: Novos agentes com mecanismos diferentes dos DOACs atuais estão em desenvolvimento — visando oferecer ainda melhor segurança de sangramento enquanto mantêm eficácia completa [3, 4].
A mensagem: a prevenção de trombose após prótese não é estática. Está evoluindo rapidamente. Se sua avaliação inicial mostrou risco alto, converse com seu médico sobre qual seria a estratégia mais apropriada para VOCÊ especificamente, não apenas seguir um protocolo genérico [3, 4].
Referencias
- Gausden EB, Mihalko WM (eds). AAOS Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction 7. Wolters Kluwer / American Academy of Orthopaedic Surgeons; 2026. ISBN: 978-1975248437. link
- ICM-VTE 2022. Thromboembolic Disease Consensus on Management in Orthopaedic Surgery. J Bone Joint Surg Am. 2022;104(suppl 1):180-231. link
- Lavu MS, Donegan DJ, Bell JA, et al. American Academy of Orthopaedic Surgeons Clinical Practice Guideline on Prevention of Venous Thromboembolic Disease in Patients Undergoing Orthopaedic Surgery. J Bone Joint Surg Am. 2024;106(14):1256-1267. link
- Zhao AY, Karuppayil BR, Greenberg L, et al. Aspirin Does Not Prevent Symptomatic Venous Thromboembolism in Patients Undergoing Hip Arthroplasty: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Arthroplasty. 2025;40(2):346-354. link
- Falck-Ytter Y, Francis CW, Jonasson T, et al. Prevention of VTE in orthopedic surgery patients: Antithrombotic Therapy and Prevention of Thrombosis, 9th ed: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines. Chest. 2012;141(2 suppl):e278S-e325S. link
- Torres-Ramirez RJ, Duque-Medina J, Aguirre-Ugarte YF, et al. Extended thromboprophylaxis with aspirin after total joint arthroplasty: systematic review and meta-analysis. J Arthroplasty. 2024;39(10):2413-2420. link
- Etscheidt J, Shen L, Grines B, et al. DVT Prophylaxis Following Lower Limb Surgery: A Comprehensive Review. Geriatrics. 2020;5(1):18. link
Perguntas Frequentes
Como sei se sou paciente de alto risco?
Pergunte diretamente ao seu médico: "Com base em minha história médica, qual é meu risco de trombose após esta cirurgia?" Seu médico pode usar a escala de Caprini ou o ICM Calculator para quantificar isso. Fatores principais: história anterior de coágulo, problema genético de coagulação, câncer, obesidade severa, ou imobilidade prolongada. Se você tem um ou mais desses, você é de risco elevado.
Tive um coágulo há 5 anos. Ainda sou considerado alto risco?
Sim. História anterior de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar aumenta permanentemente seu risco de novos eventos. Mesmo que tenha sido 5 anos atrás, seu risco em cirurgia ortopédica é significativamente elevado. Converse com seu médico sobre profilaxia estendida (até 35 dias após prótese) e talvez até investigação genética para ver se há uma causa hereditária subjacente.
Como o médico decide entre aspirina, LMWH, ou DOACs em meu caso?
A escolha depende de vários fatores: seu nível de risco (Caprini/ICM score), sua história de sangramento ou medicações que afetam coagulação, função renal (importante para dosagem de anticoagulantes), outras doenças crônicas, e preferências pessoais. Não existe "única resposta certa" — é uma decisão personalizada. Peça ao seu médico que explique o raciocínio atrás de sua recomendação específica.
Se sou de alto risco, preciso de medidas mecânicas E medicação?
Sim. Para pacientes de alto risco, uma abordagem multimodal (medicação + meias de compressão + mobilização precoce) oferece melhor proteção que qualquer medida isolada [2, 3]. Medidas mecânicas não substituem medicação; elas complementam.
Qual é a duração exata que preciso de profilaxia? 14 dias? 28 dias?
Depende principalmente do tipo de cirurgia. Para prótese de joelho: geralmente 10-14 dias. Para prótese de quadril: 28-35 dias é crucial — o risco se estende bem além de 2 semanas. Seu médico especificará exatamente em seu caso. Não pare a medicação antes do tempo orientado, mesmo que se sinta bem.
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