Prótese de Joelho Total ou Parcial: qual escolher?

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

Quando a artrose atinge só um lado do joelho, a prótese parcial pode substituir apenas o compartimento gasto, e neste texto eu explico como escolher entre ela e a prótese total.

A prótese total de joelho substitui as três regiões da articulação (o lado de dentro, o lado de fora e a frente, onde fica a rótula), enquanto a prótese parcial troca apenas o compartimento que está gasto e preserva o restante do joelho. Por isso a parcial também é chamada de unicompartimental, ou seja, de um só compartimento.

O joelho tem três compartimentos. Na maioria das pessoas a artrose começa e se concentra no lado de dentro (medial). Quando o desgaste fica restrito a esse lado, dá para tratar só ele, mantendo a cartilagem sadia dos outros compartimentos e os ligamentos próprios do joelho, inclusive o ligamento cruzado anterior.

Estima-se que cerca de metade das pessoas com artrose que precisam de prótese teria desgaste compatível com uma prótese parcial medial. Na prática, o uso costuma ser menor do que isso, e a indicação depende de uma avaliação cuidadosa de cada caso. [1, 5]

Quem é candidato à prótese parcial de joelho?

O candidato à prótese parcial é o paciente cuja artrose está limitada a um único compartimento do joelho, geralmente o lado de dentro, com os ligamentos preservados e um desgaste que ainda permite corrigir o alinhamento da perna durante a cirurgia. Quando a artrose já tomou mais de um compartimento, a prótese total costuma ser a escolha.

Algumas situações reduzem a chance de a parcial dar certo a longo prazo. Nos registros e bancos de dados, obesidade e idade mais jovem (abaixo de 60 anos) se associam a mais risco de precisar de uma nova cirurgia depois. Artrite inflamatória, como a artrite reumatoide, também afasta a indicação da parcial.

Um dado importante é a experiência do serviço. Em uma base francesa com mais de 108 mil casos, centros que faziam poucas próteses parciais por ano tiveram mais revisões. Por isso a indicação e a técnica precisam estar bem estabelecidas na equipe que vai operar.

Na consulta eu confirmo o compartimento afetado com radiografias em pé e com o exame do joelho, e discuto com você o que faz mais sentido para o seu caso, tanto no plano de saúde quanto no atendimento particular. A escolha é clínica e não depende do tipo de cobertura. [3, 5]

A recuperação da prótese parcial é mais rápida?

A prótese parcial costuma ter recuperação inicial um pouco mais rápida do que a total. Em uma revisão que reuniu ensaios clínicos, registros nacionais e grandes coortes, o tempo de internação foi em média cerca de 1,5 dia menor com a prótese parcial, e as notas de função nos primeiros meses foram um pouco melhores.

Isso acontece porque a cirurgia parcial mexe em menos estruturas do joelho e preserva os ligamentos. Como todo o restante da articulação continua no lugar, o joelho tende a dobrar e a recuperar força um pouco antes no começo.

Vale um cuidado com as expectativas. No maior estudo controlado que comparou as duas cirurgias diretamente, o TOPKAT, a nota de função do joelho aos 5 anos foi praticamente igual entre a parcial e a total. Ou seja, a diferença de recuperação aparece mais no início do que no resultado final. [1, 2]

A prótese parcial dá uma sensação mais natural no joelho?

Muitos pacientes com prótese parcial relatam que se esquecem do joelho no dia a dia, uma sensação mais próxima do natural. Como a cirurgia preserva os ligamentos e boa parte da articulação, o joelho tende a se mover de forma parecida com a de antes do desgaste.

Em um estudo que comparou pacientes semelhantes operados dos dois jeitos, o grupo da prótese parcial teve mais gente muito satisfeita (cerca de 75%, contra 62% na total) e maior chance de considerar o joelho um joelho esquecido. Ainda assim, boa parte dessas diferenças foi pequena e nem sempre atinge o limiar que o próprio paciente percebe como relevante.

Um ensaio clínico recente que preservou os ligamentos cruzados na prótese parcial encontrou resultados de função e taxa de complicações parecidos com os da prótese total em 2 anos. Na prática, a parcial pode oferecer uma sensação mais natural para alguns pacientes, sem que isso represente um resultado superior para todos. [6, 7]

A prótese parcial dura menos? O que os registros mostram sobre revisão?

Nos registros de grande porte, a prótese parcial tem taxa de nova cirurgia (revisão) mais alta do que a total nos primeiros anos, algo em torno de duas a três vezes maior. Na base francesa com mais de 108 mil casos, cerca de 76% das próteses parciais seguiam sem virar prótese total ao longo de cerca de 10 anos de acompanhamento.

Parte dessa diferença tem uma explicação técnica. A prótese parcial é mais simples de revisar, então o cirurgião tende a indicar a troca mais cedo, às vezes por dor ou por avanço da artrose em outro compartimento. Isso eleva a contagem de revisões, mas nem sempre reflete uma falha grave do implante.

Quando as duas cirurgias são feitas por equipes experientes e comparadas de forma controlada, o quadro fica mais equilibrado. No estudo TOPKAT, a taxa de reoperações e de complicações em 5 anos foi semelhante entre a parcial e a total. E, olhando um problema específico, a fratura do osso ao redor da prótese em 10 anos foi menor com a parcial (0,6%) do que com a total (1%).

Em resumo, a prótese parcial costuma oferecer recuperação inicial mais rápida e uma sensação mais natural no joelho, com um risco um pouco maior de precisar de nova cirurgia ao longo dos anos. Conhecer esses números ajuda você a decidir com informação clara. [1, 2, 3, 4]

Como eu decido entre prótese total e parcial na consulta?

A decisão é individual e tomada em conjunto na consulta, a partir das suas radiografias, do exame do joelho e das suas prioridades. Nenhuma das duas serve para todo mundo. O que vale é encontrar a opção mais adequada ao seu tipo de desgaste e ao seu momento de vida.

Eu costumo apresentar os dois lados com números. Se o desgaste está mesmo em um só compartimento, os ligamentos estão bons e você valoriza uma volta mais rápida às atividades, a parcial costuma ser uma boa indicação. Se a artrose está mais espalhada, ou se a prioridade é reduzir a chance de nova cirurgia no futuro, a total costuma ser a escolha mais segura.

Tanto a prótese total quanto a parcial estão disponíveis no atendimento pelo plano de saúde e no particular, quando há indicação médica. Quem define a escolha é a condição da sua articulação, e não a forma de pagamento. Qualquer dúvida sobre o seu caso pode ser trazida na consulta. [1, 2]

Referencias

  1. Beard DJ, Davies LJ, Cook JA, et al. The clinical and cost-effectiveness of total versus partial knee replacement in patients with medial compartment osteoarthritis (TOPKAT): 5-year outcomes of a randomised controlled trial. Lancet. 2019;394(10200):746-756. link
  2. Wilson HA, Middleton R, Abram SGF, et al. Patient relevant outcomes of unicompartmental versus total knee replacement: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2019;364:l352. link
  3. Fitoussi A, Dartus J, Erivan R, et al. Management of medial femorotibial osteoarthritis: epidemiology, and survival of unicompartmental knee arthroplasty versus valgus high tibial osteotomy in France. Study of 108,007 cases from the French National Hospitals Database. Orthop Traumatol Surg Res. 2023;109(8):103692. link
  4. Mohammad HR, Barker K, Judge A, Murray DW. A comparison of the periprosthetic fracture rate of unicompartmental and total knee replacements: an analysis of data of >100,000 knee replacements from the National Joint Registry for England, Wales, Northern Ireland and the Isle of Man and Hospital Episode Statistics. J Bone Joint Surg Am. 2023;105(23):1857-1866. link
  5. van Langeveld SJ, Koenraadt-van Oost I, Spruijt S, et al. Unicompartmental knee arthroplasty questionnaire (UniQ-study): unknown is unloved. Knee. 2024;47:186-195. link
  6. Annapareddy A, Mulpur P, Prakash M, et al. Partial versus total knee arthroplasty for isolated antero-medial osteoarthritis - an analysis of PROMs and satisfaction. SICOT J. 2023;9:11. link
  7. Farhan-Alanie OM, Doonan J, Rowe PJ, et al. Prospective, randomised controlled trial comparing robotic arm-assisted bi-unicompartmental knee arthroplasty to total knee arthroplasty. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2025;33(7):2571-2580. link

Perguntas Frequentes

Prótese parcial de joelho dói menos que a total?

As duas cirurgias controlam bem a dor da artrose. A diferença aparece no começo: a prótese parcial costuma ter internação mais curta, em média cerca de 1,5 dia a menos, e função um pouco melhor nos primeiros meses. Aos 5 anos, os resultados de dor e função tendem a se igualar.

Quanto tempo dura uma prótese parcial de joelho?

Em uma base francesa com mais de 108 mil casos, cerca de 76% das próteses parciais seguiam sem virar prótese total ao longo de cerca de 10 anos. A taxa de nova cirurgia é maior do que a da prótese total, em parte porque a parcial é mais simples de revisar e a troca é indicada mais cedo.

A prótese parcial pode virar total depois?

Sim. Se surgir dor persistente ou artrose em outro compartimento, a prótese parcial pode ser convertida em prótese total. Essa conversão é uma das razões pelas quais os registros mostram mais revisões com a parcial, e costuma ser tecnicamente mais direta do que revisar uma prótese total.

Quem não pode fazer a prótese parcial de joelho?

A parcial não é indicada quando a artrose atinge mais de um compartimento do joelho, quando há artrite inflamatória, como a reumatoide, ou quando os ligamentos e o alinhamento não permitem. Obesidade e idade abaixo de 60 anos se associam a mais risco de revisão e entram na avaliação.

A prótese parcial parece mais natural?

Muitos pacientes com prótese parcial relatam esquecer o joelho no dia a dia, porque a cirurgia preserva os ligamentos e boa parte da articulação. Estudos mostram satisfação alta e boa sensação de joelho esquecido, embora parte dessas diferenças em relação à total seja pequena.

Prótese parcial é melhor que a prótese total?

Não existe uma opção melhor para todos. A parcial oferece recuperação inicial mais rápida e sensação mais natural, com risco um pouco maior de nova cirurgia ao longo dos anos. A total é mais versátil e tem menos revisões. A escolha depende do seu tipo de desgaste e é feita na consulta.

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