Prótese de Quadril Cimentada ou Não Cimentada: Qual a Diferença?

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

Cimentada ou não cimentada? As duas formas de fixar a prótese de quadril funcionam bem — a diferença está em quando cada uma é a mais indicada. Um guia honesto sobre como o cirurgião decide, sem promessas.

Este artigo é informativo. As decisões sobre qualquer tratamento envolvem a avaliação da sua equipe médica — que considera seus exames, suas outras doenças, suas expectativas e o seu caso individual. Nenhum texto substitui essa conversa.

"A minha prótese vai ser cimentada ou não?" é uma dúvida técnica que gera muita ansiedade — como se uma opção fosse "melhor" que a outra. A verdade honesta é mais tranquila: as duas formas de fixar a prótese de quadril funcionam bem, e a escolha entre elas é uma decisão técnica do cirurgião, feita para o seu osso e o seu caso.

Este guia explica, sem jargão, o que cada uma significa e em que situações uma tende a ser preferida à outra. Para o panorama geral dos tipos de implante, veja o guia de tipos de implante de quadril — aqui o foco é especificamente a fixação.

1. O que significa "cimentada" e "não cimentada"

A diferença está em como a prótese se prende ao osso:

  • Cimentada: usa um cimento ósseo (um polímero chamado PMMA) que preenche os pequenos espaços entre a prótese e o osso e se entrelaça mecanicamente nas microestruturas ósseas, travando o componente no lugar. Não é uma "cola" no sentido comum — é um encaixe mecânico que fixa a prótese imediatamente.
  • Não cimentada (ou "press-fit"): a prótese tem uma superfície porosa e é encaixada sob pressão diretamente no osso. Com o tempo, o próprio osso cresce para dentro dessa superfície e fixa a prótese de forma biológica e duradoura.

Repare: uma fixa na hora (mecânica), a outra fixa ao longo das semanas (biológica). As duas, bem indicadas, seguram a prótese por décadas.

2. As duas funcionam — e a não cimentada é hoje a mais comum

Nas últimas décadas, a fixação não cimentada passou a ser a mais utilizada no mundo. Um estudo de registro nacional (2001–2024) mostrou que a fixação não cimentada já responde por cerca de 57% das próteses de quadril, com tendência de crescimento em todas as faixas etárias — inclusive acima dos 80 anos — enquanto os índices de revisão das duas técnicas permaneceram numa faixa estreita e semelhante [1].

Ou seja: a preferência atual pela não cimentada reflete bons resultados de longo prazo, mas isso não torna a cimentada "ultrapassada". Ela continua tendo indicações precisas — e, em algumas situações, é a escolha mais segura.

3. Onde a escolha realmente importa: a qualidade do osso

O ponto em que a decisão pesa de verdade é a fragilidade do osso. Em osso mais frágil, encaixar uma haste sob pressão (não cimentada) pode aumentar o risco de uma fratura ao redor da prótese.

Um estudo de registro nacional de 2026 mostrou isso com clareza: em mulheres com 70 anos ou mais, a fixação não cimentada esteve associada a um risco maior de fratura periprotética que exigiu revisão, comparada à cimentada (0,5% contra 0,2%) [2]. O mesmo estudo trouxe uma nuance importante: entre as hastes não cimentadas, as que têm um "colar" (um apoio na região do colo do fêmur) reduziram muito esse risco [2] — mostrando que o desenho da prótese também conta. É por isso que, em pacientes idosos com osso mais frágil, o cirurgião frequentemente prefere a fixação cimentada ou uma haste não cimentada com colar.

4. Como o cirurgião decide

Não existe uma resposta única — existe a melhor escolha para o seu caso. Na prática, a decisão pondera:

  • Idade e qualidade do osso: osso jovem e forte favorece a fixação biológica (não cimentada); osso mais frágil, comum em pessoas mais idosas, pode favorecer a cimentada pela segurança contra fratura [2].
  • Anatomia do fêmur e desenho do implante: o formato do canal ósseo e o tipo de haste (com ou sem colar) entram na conta [2].
  • Experiência e julgamento do cirurgião diante do conjunto — é uma decisão técnica, tomada muitas vezes durante o planejamento e confirmada na própria cirurgia.

O que você precisa saber é que ambos os caminhos são legítimos e seguros quando bem indicados — não há motivo para ansiedade sobre "ter recebido o tipo errado".

5. E a durabilidade, muda?

Boa notícia: bem indicada, a prótese de quadril moderna dura décadas independentemente de o tipo de fixação ter sido bem escolhido. A meta-análise mais recente de registros nacionais estima sobrevida em torno de 92% aos 30 anos para os implantes contemporâneos [3]. O detalhamento está em quanto tempo dura a prótese de quadril.

A decisão sobre qual fixação usar é exclusiva do seu cirurgião, que avalia o conjunto: seu quadro clínico, exames, qualidade óssea e anatomia. Comece pelo guia completo da prótese de quadril.

Referencias

  1. Moldovan F, Moldovan L. Fixation Methods in Primary Hip Arthroplasty: A Nationwide, Registry-Based Observational Study in Romania (2001-2024). Healthcare (Basel). 2025;13(19):2432. link
  2. Ladurner A, Kramer M, Giesinger K, et al. Collared, Uncemented Stems Markedly Reduce Periprosthetic Femoral Fracture Risk in Women ≥ 70 Years: A Swiss National Registry Study. J Arthroplasty. 2026 Aug 24 (online ahead of print). link
  3. Pentland V, Thompson Z, Dayimu A, et al. Survivorship of modern total hip replacement to 30 years: systematic review, meta-analysis, and extrapolation of global joint registry data. Lancet. 2026;407(10531):855-866. link

Perguntas Frequentes

Qual é melhor: prótese de quadril cimentada ou não cimentada?

Nenhuma é universalmente "melhor" — as duas funcionam bem quando bem indicadas. A não cimentada é hoje a mais comum e favorece osso jovem e forte; a cimentada tem vantagem de segurança contra fratura em osso mais frágil [1][2]. A escolha é técnica e individualizada, feita pelo seu cirurgião.

A prótese cimentada é ultrapassada?

Não. Embora a não cimentada seja hoje a mais usada, a cimentada mantém indicações precisas — especialmente em pacientes idosos com osso mais frágil, onde reduz o risco de fratura ao redor da prótese [2]. As duas técnicas têm índices de revisão semelhantes e duradouros [1].

O cimento é uma cola que pode "descolar"?

Não é uma cola no sentido comum. O cimento ósseo (PMMA) preenche e se entrelaça mecanicamente nas microestruturas do osso, travando a prótese no lugar de forma imediata e estável. É um encaixe mecânico, não uma colagem que simplesmente solta.

Idosos devem usar prótese cimentada?

Frequentemente, sim — em pessoas idosas com osso mais frágil, a fixação cimentada (ou uma haste não cimentada com colar) reduz o risco de fratura periprotética [2]. Mas a decisão é individual, avaliada pelo cirurgião conforme a qualidade do seu osso.

O tipo de fixação muda a durabilidade da prótese?

Bem indicada, a prótese de quadril moderna dura décadas independentemente do tipo de fixação — a estimativa é de cerca de 92% de sobrevida aos 30 anos para implantes contemporâneos [3]. O importante é a fixação certa para o seu osso.

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