Na maioria dos casos você levanta e dá os primeiros passos ainda no mesmo dia da cirurgia, com ajuda da fisioterapia e apoiando o peso na perna operada. Isso é feito com um andador ou muletas, para dar segurança enquanto a força volta.
Levantar cedo tem um motivo prático além de você se sentir melhor. Andar no próprio dia da operação está associado a alta hospitalar mais rápida, e os programas de recuperação acelerada, que estimulam a saída da cama logo, reduziram o tempo de internação e a dor no primeiro dia em comparação com o cuidado tradicional.
Eu oriento apoiar o peso conforme a dor permite e caminhar distâncias curtas, várias vezes ao dia. A distância aumenta um pouco a cada dia. O andador vira uma bengala quando você se sente firme, em geral ao longo das primeiras semanas. [1, 2]
Por que a fisioterapia precoce é tão importante no joelho?
A fisioterapia precoce é importante no joelho porque essa articulação tende a enrijecer se ficar parada. Quando o joelho não é movimentado nas primeiras semanas, pode se formar um tecido cicatricial em excesso dentro dele, um problema chamado artrofibrose, que trava a dobra e a esticada.
O momento de mais ganho é logo no início. Um estudo que acompanhou a recuperação diária com sensores mostrou que os maiores avanços na amplitude de movimento e na caminhada acontecem nas primeiras três semanas, e depois o ritmo desacelera. É por isso que eu insisto para começar a mexer o joelho desde o primeiro dia.
Quando o joelho enrijece apesar da reabilitação, existe um procedimento chamado manipulação sob anestesia, em que o médico dobra o joelho com você dormindo para soltar as aderências. Ele funciona melhor quando feito cedo: numa série de pacientes, a amplitude passou em média de 70 para 97 graus, e quanto antes a manipulação, melhor o resultado. A forma mais eficaz de evitar essa situação é movimentar o joelho todos os dias desde o começo. [3, 4, 5]
Como recupero a dobra e a esticada do joelho a cada semana?
Você recupera a dobra (flexão) e a esticada (extensão) treinando os dois movimentos todos os dias, com metas que sobem semana a semana. A esticada completa, deixar o joelho totalmente reto, é tão importante quanto a dobra, porque sem ela você anda mancando.
Nas primeiras semanas o foco é dobrar o joelho um pouco mais a cada dia e apoiar o calcanhar para forçar a perna a esticar por completo. A evolução é mais rápida no começo e vai ficando gradual: os maiores ganhos vêm nas primeiras semanas e depois o ritmo diminui, então é normal sentir que melhora depressa no início e mais devagar com o passar do tempo.
Na consulta eu meço esses ângulos com um goniômetro, o instrumento que mede o quanto o joelho dobra e estica, e comparo com o esperado para a sua semana de pós-operatório. Se a dobra não estiver progredindo, nós intensificamos a fisioterapia antes que o joelho enrijeça. Excesso de peso e uma dobra já baixa antes de qualquer intervenção são fatores que dificultam esse ganho, o que reforça a importância do trabalho diário. [4, 6, 5]
Como usar o gelo e controlar o inchaço no joelho operado?
O gelo ajuda a controlar dor e inchaço no joelho operado e deve ser usado várias vezes ao dia nas primeiras semanas, sempre com um pano entre o gelo e a pele para não queimar. Manter a perna elevada, acima do nível do coração, ajuda o inchaço a diminuir.
O frio ajuda de forma mensurável. Num estudo com 40 pacientes de prótese de joelho, aplicar frio ao longo da reabilitação melhorou a amplitude de movimento, reduziu o inchaço e diminuiu a dor. Quando o frio foi combinado com compressão, a recuperação da dobra e a redução do inchaço foram ainda mais rápidas.
Algum inchaço na perna e no pé é esperado por várias semanas e costuma piorar no fim do dia, quando você fica mais tempo de pé. Ele melhora com repouso e elevação. O que não é esperado é inchaço que aumenta de repente, endurece a panturrilha ou vem com dor forte e vermelhidão, e isso eu explico nos sinais de alerta mais abaixo. [7]
Quando posso voltar a dirigir depois da prótese de joelho?
Para a prótese no joelho direito, a recomendação é esperar cerca de 6 semanas antes de voltar a dirigir. Esse é o tempo que a força de frenagem e a confiança para uma freada de emergência levam para voltar ao nível de antes da cirurgia, segundo um estudo que mediu esses parâmetros em simulador.
No joelho esquerdo, em carro automático, o retorno costuma ser mais cedo, porque essa perna não é a que freia. De todo modo, você só deve dirigir quando não estiver mais usando remédio forte para dor, conseguir entrar e sair do carro sem dificuldade e sentir que controla bem o pedal.
Eu prefiro combinar essa liberação na consulta, olhando o seu caso. Cada pessoa recupera a força e o tempo de reação em um ritmo, e dirigir cedo demais coloca você e outras pessoas em risco. [8]
Quando volto ao trabalho e às atividades do dia a dia?
A maioria das pessoas volta ao trabalho entre cerca de 8 e 13 semanas após a prótese de joelho, dependendo do tipo de serviço. Numa revisão de vários estudos, o tempo médio de retorno ficou em torno de 12 a 13 semanas, e um ano depois da cirurgia cerca de 90% das pessoas que trabalhavam já haviam voltado.
O que mais influencia esse prazo é o esforço físico da função. Quem tem trabalho de escritório ou leve costuma voltar antes; quem tem função pesada, que exige agachar, subir escadas o dia todo ou carregar peso, precisa de mais tempo. Idade mais avançada e afastamento prévio também tendem a atrasar o retorno.
Nas atividades de casa, você vai retomando aos poucos. Tarefas leves voltam nas primeiras semanas; subir e descer escadas com segurança e caminhadas mais longas costumam vir ao longo do primeiro e segundo mês, conforme a força e a dobra do joelho melhoram. [9, 10]
O que esperar do dia 0 até 12 semanas, semana a semana?
Do dia 0 ao dia 3, o foco é levantar, dar os primeiros passos com andador, começar a dobrar e esticar o joelho e controlar dor e inchaço com gelo e elevação. Muitos pacientes já vão para casa nesse período.
Da semana 1 à 3 acontecem os maiores ganhos: a dobra aumenta bastante, a esticada se aproxima do total e a caminhada fica mais firme, trocando o andador pela bengala. Da semana 4 à 6, você tende a andar distâncias maiores, subir escadas com mais confiança e, no joelho direito, aproximar-se do retorno à direção por volta das 6 semanas.
Da semana 6 à 12, a força continua voltando, o inchaço vai cedendo e muitas pessoas retomam o trabalho, em geral entre 8 e 13 semanas conforme a função. A recuperação completa do joelho, com ganho final de força e conforto, continua evoluindo por vários meses depois disso. E os resultados de longo prazo são sólidos: dados de registros nacionais mostram que cerca de 82% das próteses totais de joelho seguem funcionando após 25 anos. [6, 8, 9, 11]
Quais são os sinais de alerta que exigem procurar o médico?
Procure atendimento se aparecer dor forte e súbita na panturrilha, com inchaço que endurece, vermelhidão e calor na perna, porque isso pode indicar um coágulo (trombose). Falta de ar repentina ou dor no peito são sinais de que um coágulo pode ter ido para o pulmão e exigem socorro imediato.
Para reduzir o risco de coágulos, você recebe um remédio preventivo por um período após a cirurgia; as diretrizes recomendam pelo menos 10 a 14 dias de prevenção. A escolha do remédio é individual: um grande estudo comparando aspirina com uma injeção anticoagulante mostrou mais casos de trombose com a aspirina isolada (3,45% contra 1,82%), então eu defino a prevenção caso a caso.
Também são sinais de alerta: febre persistente, a ferida abrindo ou saindo secreção, vermelhidão que aumenta ao redor do corte, ou dor que piora em vez de melhorar com o passar dos dias. Na dúvida, é melhor me procurar. Identificar cedo uma infecção ou um coágulo faz toda a diferença no tratamento. [12, 13]
Referencias
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- Gautreau S, Haley R, Gould ON, Canales DD, Mann T, Forsythe ME. Predictors of farther mobilization on day of surgery and shorter length of stay after total joint arthroplasty. Can J Surg. 2020;63(6):E509-E516. link
- Haffar A, Goh GS, Fillingham YA, Torchia MT, Lonner JH. Treatment of arthrofibrosis and stiffness after total knee arthroplasty: an updated review of the literature. Int Orthop. 2022;46(6):1253-1279. link
- Bolander RP, Mangal RK, Pierce AG, Stulberg SD, D'Apuzzo MR, Hernandez VH. Normative Values for Daily Functional Recovery Patterns Following Total Knee Arthroplasty. J Arthroplasty. 2024;39(11):2731-2736. link
- Randsborg PH, Tajet J, Negård H, Røtterud JH. Manipulation under Anesthesia for Stiffness of the Knee Joint after Total Knee Replacement. Arthroplast Today. 2020;6(3):470-474. link
- Sidhu SP, Howard LC, Levesque G, Greidanus NV, Masri BA, Garbuz DS, et al. Risk factors for failure of manipulation under anesthesia after total knee arthroplasty. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2024;34(6):3061-3066. link
- Quesnot A, Mouchel S, Ben Salah S, Baranes I, Martinez L, Billuart F. Randomized controlled trial of compressive cryotherapy versus standard cryotherapy after total knee arthroplasty: pain, swelling, range of motion and functional recovery. BMC Musculoskelet Disord. 2024;25(1):182. link
- Kirschbaum S, Fuchs M, Otto M, Gwinner C, Perka C, Sentürk U, et al. Reaction time and brake pedal force after total knee replacement: timeframe for return to car driving. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2021;29(10):3213-3220. link
- Pasqualini I, Emara AK, Rullan PJ, Pan X, Simmons HL, Molloy RM, et al. Return to Sports and Return to Work After Total Knee Arthroplasty: A Systematic Review and Meta-Analysis. JBJS Rev. 2023;11(7):e22.00250. link
- Van Leemput D, Neirynck J, Berger P, Vandenneucker H. Return to Work after Primary Total Knee Arthroplasty under the Age of 65 Years: A Systematic Review. J Knee Surg. 2022;35(11):1249-1259. link
- Evans JT, Walker RW, Evans JP, Blom AW, Sayers A, Whitehouse MR. How long does a knee replacement last? A systematic review and meta-analysis of case series and national registry reports with more than 15 years of follow-up. Lancet. 2019;393(10172):655-663. link
- Sidhu VS, Kelly TL, Pratt N, Graves SE, Buchbinder R, Adie S, et al. Effect of Aspirin vs Enoxaparin on Symptomatic Venous Thromboembolism in Patients Undergoing Hip or Knee Arthroplasty: The CRISTAL Randomized Trial. JAMA. 2022;328(8):719-727. link
- Lieberman JR, Bell JA. Venous Thromboembolic Prophylaxis After Total Hip and Knee Arthroplasty. J Bone Joint Surg Am. 2021;103(16):1556-1564. link
Perguntas Frequentes
Quanto tempo leva para andar normal depois da prótese de joelho?
Você dá os primeiros passos com andador ainda no dia da cirurgia. A caminhada mais firme, trocando o andador pela bengala, costuma vir nas primeiras semanas, e os maiores ganhos de amplitude e marcha acontecem nas três primeiras semanas. A recuperação da força continua por vários meses.
Quando posso dirigir depois da prótese de joelho?
Para o joelho direito, a orientação é esperar cerca de 6 semanas, tempo que a força de frenagem leva para voltar ao normal. No joelho esquerdo com carro automático, o retorno tende a ser mais cedo. Só dirija sem remédio forte para dor e quando controlar bem o pedal.
Por que a fisioterapia precisa começar cedo no joelho?
Porque o joelho tende a enrijecer se ficar parado, podendo formar tecido cicatricial em excesso (artrofibrose) que trava a dobra. Os maiores ganhos de movimento ocorrem nas primeiras três semanas, então movimentar o joelho desde o primeiro dia é o que evita o enrijecimento.
É normal o joelho ficar inchado por semanas após a cirurgia?
Sim. Algum inchaço na perna e no pé é esperado por várias semanas e piora no fim do dia. Ele melhora com gelo, repouso e a perna elevada. Já inchaço súbito que endurece a panturrilha, com dor e vermelhidão, precisa de avaliação médica.
Quando volto ao trabalho depois da prótese de joelho?
Em média entre 8 e 13 semanas, dependendo do esforço da função. Trabalho leve ou de escritório permite retorno mais cedo; funções pesadas exigem mais tempo. Cerca de 90% das pessoas que trabalhavam voltaram em até um ano.
Quais sinais depois da prótese de joelho são de alerta?
Dor súbita na panturrilha com inchaço duro e vermelhidão, falta de ar ou dor no peito, febre persistente, ferida abrindo ou com secreção, e dor que piora em vez de melhorar. Nesses casos, procure atendimento; coágulo e infecção precisam ser tratados cedo.
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