Prótese de Quadril: Cirurgia de Revisão

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

Explico de forma simples o que é a cirurgia de revisão de prótese de quadril, por que ela às vezes é necessária, quais sinais merecem atenção e o que esperar da recuperação.

A revisão de prótese de quadril é a cirurgia em que se troca, no todo ou em parte, uma prótese que já foi colocada antes e que passou a apresentar algum problema. Em vez de operar um quadril natural desgastado, como na primeira cirurgia, aqui eu opero um quadril que já tem um implante dentro dele.

A prótese de quadril tem duas partes principais: um componente que fica no osso da bacia (o encaixe, chamado acetábulo) e outro que fica no fêmur (a haste com a cabeça). Na revisão, às vezes troco só uma dessas partes, às vezes troco os dois lados. Na Alemanha, por exemplo, em 2020 cerca de 75% das revisões envolveram a troca de pelo menos um componente, e em 27,5% dos casos todos os componentes foram trocados. [2]

Na consulta, eu avalio a prótese com base no seu exame clínico e nas radiografias. É a partir disso que decido o que precisa ser trocado e como. [2]

Por que uma prótese de quadril pode precisar de revisão?

Uma prótese de quadril pode precisar de revisão por alguns motivos bem definidos, e conhecê-los ajuda você a entender o próprio caso. Os principais são a soltura da prótese, a infecção, a luxação que se repete (quando a prótese "sai do lugar"), o desgaste das peças e a fratura do osso ao redor do implante.

A soltura sem infecção, chamada de soltura asséptica, continua sendo a causa mais comum de revisão do quadril. Com o tempo, o implante pode perder a fixação no osso e passar a doer. Em dados de registros nacionais, a soltura asséptica responde por cerca de 35% das revisões de quadril. [2] [3]

A infecção da prótese é outra causa importante e vem aumentando ao longo dos anos, respondendo por volta de 18% das revisões de quadril nesses mesmos registros. [3] A instabilidade, quando a prótese luxa de forma repetida, e a fratura do osso próximo ao implante completam a lista das razões mais frequentes. [2] [3] [2, 3]

Quais são os sinais de alerta de que a prótese pode estar com problema?

Os sinais de alerta mais importantes são uma dor nova ou que voltou depois de um período sem dor, e a sensação de que o quadril está frouxo, escapando ou saindo do lugar. Se você notar qualquer um desses, vale marcar uma avaliação.

Dor que aparece na virilha, na coxa ou na nádega, principalmente ao apoiar o peso ou ao começar a andar, pode indicar soltura do implante. Já a sensação de instabilidade, com episódios em que a perna parece "pular" ou travar em certas posições, aponta para o risco de luxação. [2]

Sinais de infecção também merecem atenção: dor persistente, vermelhidão, calor ou inchaço na região da cirurgia, saída de secreção pela cicatriz ou febre. Nenhum desses sinais, sozinho, confirma um diagnóstico. Eles indicam que é hora de investigar com exame clínico, radiografias e, quando necessário, exames de sangue e coleta de líquido da articulação. [3] [2, 3]

Quanto tempo dura uma prótese de quadril moderna?

A maioria das próteses de quadril dura muitos anos, e uma grande revisão da literatura ajuda a colocar números nisso. Reunindo dados de registros nacionais, cerca de 58% das próteses de quadril continuavam funcionando 25 anos após a cirurgia. Nas séries de pacientes acompanhados por centros especializados, essa estimativa em 25 anos foi ainda maior, em torno de 77%. [1]

Em outras palavras, para boa parte das pessoas a primeira prótese acompanha o resto da vida sem precisar de troca. Para a maioria dos casos, a revisão não chega a ser necessária; ela fica restrita a um grupo menor de pacientes. [1]

Vale lembrar que toda prótese, se ficar tempo suficiente no corpo, pode um dia se desgastar. Por isso o acompanhamento com radiografias ao longo dos anos é útil: ele permite identificar cedo um eventual problema, muitas vezes antes de a dor ficar intensa. [1] [1]

Como é a cirurgia de revisão do quadril?

A cirurgia de revisão costuma ser maior e mais complexa que a primeira prótese, porque envolve retirar um implante que já está integrado ao osso, avaliar quanto osso restou e reconstruir a articulação com peças adequadas a cada situação. Por isso o planejamento antes da cirurgia é mais detalhado.

Quando o problema é a luxação repetida, uma das soluções é usar um encaixe de dupla mobilidade, um modelo de acetábulo desenhado para reduzir o risco de a prótese sair do lugar. Em pacientes operados por instabilidade, esse tipo de componente mostrou boa estabilidade no acompanhamento de médio prazo. [7] Quando há perda importante de osso na bacia, existem componentes acetabulares feitos sob medida para o paciente, que em uma revisão da literatura permaneceram no lugar em 94% dos casos após cerca de 7 anos. [8]

Quando a causa é infecção, o tratamento mais consolidado é feito em duas etapas: em uma primeira cirurgia retira-se a prótese infectada e coloca-se um espaçador com antibiótico, e semanas depois, com a infecção controlada, coloca-se a prótese definitiva. [6] Em casos selecionados, uma abordagem com espaçador funcional que permanece por mais tempo vem mostrando taxas de sucesso próximas de 87%. [5] Qual caminho seguir depende do tipo de germe, do estado do osso e das suas condições de saúde, e essa decisão eu tomo com você. [5, 6, 7, 8]

Como é a recuperação depois da revisão de prótese?

A recuperação da revisão costuma ser um pouco mais lenta que a da primeira prótese, e as orientações variam conforme o que foi reconstruído. Em alguns casos a liberação para apoiar o peso na perna é imediata, em outros ela é gradual, para proteger o osso ou a fixação enquanto cicatrizam.

A fisioterapia tem papel central. Ela ajuda a recuperar a força, o equilíbrio e a confiança para andar, e o ritmo dos exercícios é ajustado ao seu caso. Quando a revisão foi feita por instabilidade, oriento cuidados com certas posições do quadril nas primeiras semanas para reduzir o risco de nova luxação.

Apesar de ser uma cirurgia maior, a revisão melhora a função e o conforto na maioria das pessoas. Em estudos que medem a função do quadril por escores clínicos, ou seja, pela pontuação que mede a função do quadril, a pontuação melhorou de forma significativa após a revisão. [4] [8] Cada retorno de consulta serve para acompanhar essa evolução e ajustar o que for preciso. [4, 8]

A revisão de prótese funciona? O que esperar do resultado?

A revisão de prótese de quadril funciona bem para a maioria dos pacientes, com melhora da dor e da capacidade de andar, mesmo sendo uma cirurgia mais trabalhosa que a primeira. O resultado tende a ser duradouro, ainda que uma prótese revisada exija acompanhamento continuado.

Como parâmetro de durabilidade, em uma série de mais de 500 revisões de quadril, cerca de 76% dos implantes seguiam sem necessidade de nova troca 20 anos depois da revisão. Nesse mesmo grupo, a principal causa de nova cirurgia foi a luxação, o que reforça a importância dos cuidados com a estabilidade. [4]

O acompanhamento vale a pena porque o número de revisões tende a crescer à medida que mais próteses são colocadas e a população envelhece. [9] Retornos periódicos com radiografia permitem que eu detecte cedo qualquer sinal de desgaste ou de soltura, o que costuma tornar uma eventual nova intervenção mais simples e mais segura. [4, 9]

Referencias

  1. Evans JT, Evans JP, Walker RW, Blom AW, Whitehouse MR, Sayers A. How long does a hip replacement last? A systematic review and meta-analysis of case series and national registry reports with more than 15 years of follow-up. Lancet. 2019;393(10172):647-654. link
  2. Freitag T, Reichel H. Contemporary indications for aseptic revision total hip arthroplasty. Orthopadie (Heidelb). 2022;51(8):609-618. link
  3. Sadoghi P, Koutp A, Perez Prieto D, Clauss M, Kayaalp ME, Hirschmann MT. The projected economic burden and complications of revision hip and knee arthroplasties: insights from national registry studies. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2025;33(9):3211-3217. link
  4. Carender CN, Bothun CE, Sierra RJ, Trousdale RT, Abdel MP, Bedard NA. Contemporary aseptic revision total hip arthroplasty in patients <=50 years of age: results of >500 cases. J Bone Joint Surg Am. 2024;106(12):1108-1116. link
  5. Khnanisho M, Horne C, Deckey DG, Tarabichi S, Seyler TM, Bingham JS. 1.5-stage revision for the treatment of periprosthetic joint infection: a systematic review. J Arthroplasty. 2025;40(8):1945-1951.e2. link
  6. Hipfl C, Leopold V, Becker L, Pumberger M, Perka C, Hardt S. Two-stage revision for periprosthetic joint infection in cemented total hip arthroplasty: an increased risk for failure? Arch Orthop Trauma Surg. 2022;143(7):4481-4490. link
  7. Bellova P, Koch F, Stiehler M, Hartmann A, Fritzsche H, Guenther KP, Goronzy J. Cementation of a dual mobility cup in a well-fixed acetabular component - a reliable option in revision total hip arthroplasty? BMC Musculoskelet Disord. 2021;22(1):982. link
  8. Weintraub MT, Hadley ML, Bedard NA, Abdel MP, Taunton MJ, Hannon CP. Custom acetabular components in revision total hip arthroplasty: a systematic review. J Arthroplasty. 2025;40(9 Suppl 1):S588-S596.e3. link
  9. Park JW, Won SH, Moon SY, Lee YK, Ha YC, Koo KH. Burden and future projection of revision total hip arthroplasty in South Korea. BMC Musculoskelet Disord. 2021;22(1):375. link

Perguntas Frequentes

Quando a prótese de quadril precisa ser trocada?

A troca é indicada quando a prótese solta, infecciona, luxa de forma repetida, se desgasta ou quando há fratura do osso ao redor do implante. A soltura sem infecção é a causa mais comum. O sinal que mais chama atenção é dor nova ou instabilidade no quadril já operado.

Quanto tempo dura uma prótese de quadril?

A maioria dura muitos anos. Dados de registros nacionais mostram que cerca de 58% das próteses de quadril continuavam funcionando 25 anos após a cirurgia, e séries de centros especializados estimam algo em torno de 77% em 25 anos. Para boa parte das pessoas, a primeira prótese não precisa de troca.

A cirurgia de revisão é mais difícil que a primeira prótese?

Sim. A revisão costuma ser maior e mais complexa, porque envolve retirar um implante já integrado ao osso, avaliar o osso que restou e reconstruir a articulação com peças específicas. Por isso o planejamento antes da cirurgia é mais detalhado.

Como saber se minha prótese de quadril está infeccionada?

Sinais de alerta incluem dor persistente, vermelhidão, calor ou inchaço na região da cirurgia, saída de secreção pela cicatriz e febre. Nenhum sinal isolado confirma o diagnóstico. A confirmação é feita com exame clínico, radiografias, exames de sangue e, quando necessário, coleta do líquido da articulação.

Como é o tratamento quando a prótese infecciona?

O tratamento mais consolidado é feito em duas etapas: primeiro retira-se a prótese e coloca-se um espaçador com antibiótico; semanas depois, com a infecção controlada, coloca-se a prótese definitiva. Em casos selecionados usa-se uma abordagem com espaçador funcional que permanece por mais tempo, com boas taxas de sucesso.

A revisão de prótese de quadril dá certo?

Na maioria dos pacientes, sim, com melhora da dor e da capacidade de andar. Em uma série de mais de 500 casos, cerca de 76% dos implantes seguiam sem nova troca 20 anos após a revisão. O acompanhamento com radiografias ajuda a detectar cedo qualquer problema.

Saiba mais

Agende sua Consulta

Consultas presenciais em tres unidades: SOS Santa Monica (Av. Madre Benvenuta, 920, Florianopolis), Ortho&Co (Square SC, Rod. Jose Carlos Daux/SC-401, 5500, Saco Grande, Florianopolis) e SOS Kobrasol (Av. Joao Ledio Martins, 314, Sao Jose). Tambem ha teleconsultas para todo o Brasil. Agende pelo WhatsApp: (48) 99125-6222.