Depois da prótese de joelho, o joelho pode ficar rígido quando o corpo produz cicatriz interna em excesso durante a fase de cura. Esse quadro tem um nome médico, artrofibrose, que significa formação exagerada de tecido cicatricial dentro e ao redor da articulação. Essa cicatriz prende as estruturas que deveriam deslizar e limita o quanto o joelho dobra e estica.
É importante entender que rigidez não é o mesmo que dor comum do pós-operatório. Na rigidez, mesmo com a dor melhorando, o joelho não ganha graus: continua travado, custa a dobrar para sentar e pode não esticar por completo. Quando o joelho não estica de todo, chamamos isso de contratura em flexão, e ele também conta como rigidez.
A rigidez é uma das complicações que mais preocupam depois da prótese de joelho. Em grandes estudos de acompanhamento, cerca de 3% a 4% dos joelhos operados desenvolvem rigidez importante, e por volta de 2% a 3% precisam de manipulação ou de outro procedimento para soltar o joelho. Como a rigidez responde melhor quando é tratada no início, reconhecê-la cedo faz diferença no resultado. [1, 2, 3]
Quantos graus de flexão são esperados na prótese de joelho e quando é pouco?
Um bom resultado de prótese de joelho costuma alcançar em torno de 110 a 120 graus de flexão, ou seja, o joelho dobra bem o suficiente para as tarefas do dia a dia. Em estudos de longo prazo, pacientes sem rigidez chegaram em média a cerca de 116 graus de dobra. O joelho também precisa esticar por completo, chegando perto de 0 grau, para você andar com firmeza.
Na prática, o movimento fica curto quando a flexão não passa de mais ou menos 90 graus. Abaixo disso, subir e descer escada, levantar de uma cadeira baixa e entrar e sair do carro ficam difíceis. Atividades de dobra profunda exigem muito mais: agachar ou sentar no chão pode pedir de 110 até cerca de 155 a 165 graus de flexão, algo que nem toda prótese alcança e que converso com você antes da cirurgia conforme a sua rotina.
Cada pessoa tem um ponto de partida diferente. Um joelho que já era muito rígido antes de operar tende a ficar mais duro depois, e por isso eu meço e anoto a sua flexão em cada consulta. Comparar os graus ao longo das semanas é a forma mais confiável de saber se a recuperação está no caminho ou se precisamos intervir. [3, 4, 5]
Por que a fisioterapia nas primeiras semanas é tão importante?
A fisioterapia começada cedo é a principal defesa contra a rigidez, porque mover o joelho nas primeiras semanas impede que a cicatriz interna se organize de forma que trave a articulação. Por isso, na maioria dos casos você levanta e dá os primeiros passos ainda no dia da cirurgia, e o trabalho de dobrar e esticar começa logo em seguida.
As primeiras seis a doze semanas são a janela mais importante. É nesse período que o tecido está se formando e que o movimento diário decide se o joelho vai ficar solto ou preso. Faltar às sessões, ter medo de dobrar por causa da dor ou parar de fazer os exercícios em casa são as causas mais comuns de perder graus que depois custam a voltar.
O sucesso da reabilitação depende de começar na hora certa, com intensidade adequada e progressão constante, sempre respeitando a sua dor e o seu ritmo. Eu oriento o controle da dor justamente para que você consiga se mover, porque, quando a dor é bem controlada, fica mais fácil dobrar o joelho. Analgesia bem feita, gelo, elevação e exercício orientado, juntos, ajudam a proteger o movimento. [1, 3]
O que é a manipulação sob anestesia e quando ela é indicada?
A manipulação sob anestesia é um procedimento em que, com você dormindo, eu dobro o joelho de forma controlada para romper as aderências de cicatriz que estão travando o movimento. Ela é indicada quando, apesar da fisioterapia bem feita, o joelho continua ganhando poucos graus e a flexão permanece limitada nas primeiras semanas a meses após a prótese.
O momento importa muito. A manipulação tende a dar mais resultado quando é feita cedo, em geral dentro dos primeiros três meses, enquanto a cicatriz ainda é jovem e cede com mais facilidade. Em um estudo grande, as manipulações bem-sucedidas foram feitas em média por volta de 70 dias após a cirurgia, bem antes das que falharam. Por isso eu prefiro identificar a rigidez e tratar sem demora, em vez de esperar.
A manipulação é um procedimento seguro, mas não é isento de riscos. O risco mais temido é uma fratura durante a manobra, que é rara, em torno de 1% dos casos. Ser jovem, ter diabetes e ter feito a anestesia geral estão entre os fatores associados a mais rigidez e maior chance de precisar da manipulação, e eu levo isso em conta no seu acompanhamento. [6, 3, 7]
O quanto a manipulação sob anestesia ajuda a ganhar movimento?
A manipulação costuma recuperar bastante movimento: em média ela acrescenta cerca de 20 a 34 graus de flexão ao joelho. Em casos bem-sucedidos e feitos no tempo certo, o ganho fica em torno de 27 a 33 graus, o suficiente para o joelho voltar a dobrar o bastante para sentar e subir escada.
Uma observação honesta: mesmo com a manipulação, o joelho que passou por rigidez costuma terminar com um pouco menos de dobra do que o joelho que nunca ficou preso. Num acompanhamento de longo prazo, pacientes tratados com manipulação chegaram em média a cerca de 102 graus, contra 116 graus dos que não tiveram rigidez. Ainda assim, é um ganho grande e que melhora muito a função.
Depois da manipulação, o que sustenta o resultado é retomar a fisioterapia com força para manter os graus conquistados. Aparelhos de movimento passivo contínuo, aquelas máquinas que dobram o joelho na cama, não mostraram vantagem em estudos recentes para manter o ganho, então o foco fica no seu movimento ativo e nos exercícios orientados. [6, 3, 7, 8]
E se a manipulação não resolver a rigidez do joelho?
Quando a manipulação não é suficiente, existem outras opções para recuperar o movimento, e a maioria dos pacientes melhora com algum desses caminhos. O passo seguinte costuma ser a liberação das aderências por artroscopia, um procedimento por pequenos furos em que o tecido cicatricial que trava o joelho é cortado por dentro.
Em situações mais difíceis, quando a rigidez persiste e limita muito a vida, pode ser indicada a revisão da prótese, ou seja, uma nova cirurgia para trocar componentes e liberar o joelho. Estudos mostram que a revisão feita por rigidez aumenta o arco de movimento em torno de 25 graus, devolvendo, em média, uma dobra parecida com a que o paciente tinha antes da primeira prótese.
Comparando as opções, a manipulação e a liberação por artroscopia tendem a dar melhores resultados e a exigir menos novos procedimentos do que a revisão completa, que fica reservada para os casos que não respondem às medidas mais simples. Eu escolho o caminho com você, sempre começando pelo menos invasivo que resolva o seu caso. [2, 9]
Como prevenir a rigidez depois da prótese de joelho?
A prevenção mais eficaz combina controle da dor, movimento precoce e fisioterapia constante nas primeiras semanas. Mover o joelho cedo e com frequência, mesmo sentindo desconforto, é o que impede a cicatriz de endurecer na posição travada. Faltar aos exercícios é o erro mais comum e o mais fácil de evitar.
Alguns fatores aumentam o risco e servem de alerta para reforçarmos o cuidado: idade mais jovem, diabetes, um joelho que já era muito rígido antes de operar e histórico de cicatrização exagerada em outras articulações, como o ombro congelado. Se você tem algum desses pontos, eu acompanho a sua flexão mais de perto e ajo mais cedo caso os graus não avancem.
O acompanhamento próximo faz diferença. Nas consultas eu meço a dobra do joelho, comparo com a consulta anterior e, se percebo que o movimento está estacionando, antecipo a conduta antes que a cicatriz amadureça. A rigidez tratada cedo costuma se resolver melhor do que a rigidez deixada para depois, e por isso eu insisto tanto no cuidado das primeiras semanas. [1, 3, 10]
Referencias
- Cheuy VA, Foran JRH, Paxton RJ, Bade MJ, Zeni JA, Stevens-Lapsley JE. Arthrofibrosis Associated With Total Knee Arthroplasty. J Arthroplasty. 2017;32(8):2604-2611. link
- Haffar A, Goh GS, Fillingham YA, Torchia MT, Lonner JH. Treatment of arthrofibrosis and stiffness after total knee arthroplasty: an updated review of the literature. Int Orthop. 2022;46(6):1253-1279. link
- Owen AR, Tibbo ME, van Wijnen AJ, Pagnano MW, Berry DJ, Abdel MP. Acquired Idiopathic Stiffness After Contemporary Total Knee Arthroplasty: Incidence, Risk Factors, and Results Over 25 Years. J Arthroplasty. 2021;36(8):2980-2985. link
- Mulholland SJ, Wyss UP. Activities of daily living in non-Western cultures: range of motion requirements for hip and knee joint implants. Int J Rehabil Res. 2001;24(3):191-198. link
- Hemmerich A, Brown H, Smith S, Marthandam SSK, Wyss UP. Hip, knee, and ankle kinematics of high range of motion activities of daily living. J Orthop Res. 2006;24(4):770-781. link
- Walsh JM, Sullivan TC, Varghese B, Incavo SJ, Brown TS, Park KJ. Manipulation Under Anesthesia After Primary Total Knee Arthroplasty. J Arthroplasty. 2025;40(9 Suppl 1):S535-S544. link
- Weintraub MT, Kurina SJ, Cline JT, Forlenza EM, Berger RA, Gerlinger TL. Late Manipulation under Anesthesia after Total Knee Arthroplasty: Improved Range of Motion and a Low Complication Rate. J Knee Surg. 2024;37(12):828-833. link
- van Duren BH, Lee K, Firth AM, Imuetinyan E, Ilo K, Berber R, et al. Postoperative Continuous Passive Motion Does Not Improve the Range of Movement Achieved After Manipulation Under Anesthetic for Stiffness in Total Knee Replacement. Arthroplast Today. 2024;27:101397. link
- Rockov ZA, Byrne CT, Rezzadeh KT, Durst CR, Spitzer AI, Paiement GD, et al. Revision total knee arthroplasty for arthrofibrosis improves range of motion. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2023;31(5):1859-1864. link
- Laperche JM, Chang K, Albright JA, Ibrahim Z, Zhang H, Daniels AH, et al. Shoulder Adhesive Capsulitis Prior to Total Knee Arthroplasty is Associated With Increased Rates of Postoperative Stiffness Requiring Manipulation Under Anesthesia and Arthroscopic Lysis of Adhesions. J Arthroplasty. 2024;39(4):960-965. link
Perguntas Frequentes
Quanto tempo depois da prótese de joelho o movimento volta ao normal?
A maior parte do ganho de flexão acontece nas primeiras 6 a 12 semanas, período em que a fisioterapia é mais importante. A recuperação continua por vários meses. Se nesse início o joelho ganhar poucos graus, avaliamos se é preciso intervir cedo.
Quantos graus o joelho precisa dobrar para as atividades do dia a dia?
Um bom resultado costuma ficar em torno de 110 a 120 graus de flexão. Abaixo de mais ou menos 90 graus, subir escada, levantar de cadeira baixa e entrar no carro ficam difíceis. Agachar ou sentar no chão exige bem mais, de 110 até cerca de 155 a 165 graus.
A manipulação sob anestesia dói?
Não, porque ela é feita com você dormindo, sob anestesia. Você não sente a manobra. O desconforto vem depois, no retorno à fisioterapia, e por isso ajusto o controle da dor para você conseguir se movimentar e manter os graus ganhos.
Qual é o melhor momento para fazer a manipulação do joelho?
Em geral dentro dos primeiros três meses após a prótese, enquanto a cicatriz ainda cede com facilidade. Estudos mostram que manipulações feitas mais cedo, por volta de 70 dias, têm mais sucesso do que as tardias. Por isso prefiro tratar a rigidez sem demora.
Quanto a manipulação sob anestesia melhora a dobra do joelho?
Em média ela acrescenta cerca de 20 a 34 graus de flexão. Nos casos bem-sucedidos e feitos no tempo certo, o ganho fica em torno de 27 a 33 graus, o suficiente para transformar um joelho travado em um joelho que dobra para as tarefas do dia.
A manipulação do joelho tem riscos?
É um procedimento seguro, mas não isento de riscos. O mais temido é uma fratura durante a manobra, que é rara, em torno de 1% dos casos. Por isso a manipulação é feita de forma controlada e indicada quando a fisioterapia sozinha não está resolvendo.
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