A prótese de quadril tem três peças principais que, juntas, substituem a articulação gasta: a haste, a cabeça e o acetábulo. O quadril funciona como uma bola dentro de uma taça, e a prótese reproduz esse encaixe com peças novas.
A haste é uma peça de metal que entra dentro do fêmur, o osso da coxa. No topo da haste encaixa a cabeça, uma esfera que faz o papel da 'bola'. Do outro lado, o acetábulo é a peça em forma de taça que é fixada na bacia (o osso da pelve) e recebe essa esfera.
Dentro da taça de metal existe ainda um forro, chamado inserto ou liner, que é a superfície onde a cabeça desliza. Esse conjunto de esfera e forro é o que os cirurgiões chamam de par de atrito, e falo dele mais adiante. Quando eu avalio cada paciente na consulta, escolho o tamanho e o material de cada uma dessas peças de acordo com o osso, a idade e o nível de atividade. [1]
Prótese de quadril cimentada ou sem cimento: qual a diferença?
A diferença está em como a prótese se prende ao osso. Na fixação cimentada, uma massa chamada cimento ósseo preenche o espaço entre a peça e o osso e endurece em poucos minutos, segurando o implante de imediato. Na fixação sem cimento, também chamada de biológica, a peça tem a superfície porosa e é encaixada sob pressão, e o próprio osso cresce por cima dela ao longo de algumas semanas até prendê-la com firmeza.
Nenhuma das duas é melhor para todo mundo. As duas técnicas têm resultados muito bons e são usadas todos os dias no mundo inteiro. A escolha depende principalmente da qualidade e da força do seu osso.
A fixação biológica é a mais usada hoje em pacientes com osso firme, porque o encaixe fica estável sem precisar de cimento. O cimento entra em cena quando o osso é mais frágil ou poroso, situação comum em pessoas mais idosas e em quem tem osteoporose, porque ele oferece uma fixação segura mesmo em osso enfraquecido. [3, 5]
Quando se usa cimento e quando se usa fixação sem cimento?
De forma geral, uso cimento na haste de pacientes mais velhos e com osso enfraquecido, e uso fixação sem cimento em pacientes com osso firme, em especial os mais jovens e ativos. A razão é a segurança do encaixe: dados de vários registros nacionais mostram que, em pacientes a partir de 70 anos, a haste cimentada reduz de forma importante o risco de o fêmur trincar durante ou logo após a cirurgia, uma complicação chamada fratura ao redor da prótese.
Em estudos com pessoas acima de 65 anos operadas após fratura do colo do fêmur, a taxa dessa fratura ao redor do implante foi menor com cimento do que sem cimento (2,5% contra 4,4% nos primeiros 90 dias). Por isso, quando o motivo da prótese é uma fratura no idoso, o cimento costuma ser a escolha mais prudente.
A fixação biológica, por sua vez, tem a vantagem de o osso se integrar ao implante, o que é desejável em quem vai usar a prótese por muitas décadas. Em pacientes mais jovens e com osso de boa qualidade, essa integração é confiável e é a opção que eu prefiro na maioria dos casos.
Vale saber que a decisão nem sempre é 'tudo cimentado' ou 'tudo sem cimento'. É possível usar uma combinação, por exemplo, a haste cimentada e a taça sem cimento. Eu defino isso caso a caso, olhando a sua radiografia e a força do seu osso. [2, 3, 4, 10]
O que são os pares de atrito da prótese de quadril?
O par de atrito é a dupla de materiais que desliza um contra o outro dentro da prótese: a cabeça (a esfera) e o forro da taça. Como essas duas peças se movem juntas milhões de vezes ao longo dos anos, o material delas influencia o desgaste e a durabilidade do conjunto. As três combinações mais usadas hoje são metal com polietileno, cerâmica com polietileno e cerâmica com cerâmica.
O polietileno é um plástico muito resistente. As versões modernas, chamadas de polietileno altamente reticulado, desgastam pouquíssimo com o tempo. Em um estudo que acompanhou pacientes por 14 anos, o desgaste desse plástico foi mínimo, o que ajuda a explicar por que ele é o forro mais usado, tanto com cabeça de metal quanto de cerâmica.
A cerâmica é um material muito duro e liso, que produz atrito baixo e resiste bem ao desgaste. O par cerâmica com cerâmica é uma opção frequente em pacientes jovens. Ele é durável, mas alguns pacientes percebem um ruído ocasional na articulação, descrito como um rangido, que aparece em torno de 3% dos casos; a quebra da peça de cerâmica é rara, com menos de 1% em 12 anos de acompanhamento.
Quando comparamos as combinações modernas, cabeça de metal ou de cerâmica deslizando sobre o polietileno altamente reticulado e o par cerâmica com cerâmica têm risco parecido de precisar de nova cirurgia. Não existe um material único ideal para todos. Na consulta, eu explico qual combinação faz mais sentido para a sua idade e o seu dia a dia. [5, 7, 8]
Quanto tempo dura uma prótese de quadril?
Segundo a maior revisão de dados sobre o assunto, cerca de 6 em cada 10 próteses de quadril ainda estão funcionando 25 anos depois da cirurgia, de acordo com registros nacionais de milhares de pacientes. Em séries acompanhadas por equipes especializadas, esse número chega a perto de 8 em cada 10.
Em outras palavras, para a maioria das pessoas a prótese dura muitos anos, com frequência mais de duas décadas. Nenhum implante é eterno, e é honesto dizer que, com tempo suficiente, qualquer prótese pode precisar de uma troca. Mas a chance de a sua prótese durar bastante é alta.
A durabilidade depende de vários fatores além do implante: o seu peso, o seu nível de atividade, a força do osso e a técnica da cirurgia. Por isso eu oriento cada paciente sobre cuidados que ajudam o implante a durar mais, e acompanho a prótese com radiografias ao longo dos anos. [1, 5]
A prótese de quadril pode sair do lugar (luxar)?
Pode, mas é incomum. A luxação acontece quando a esfera escapa da taça, e nos estudos atuais ela ocorre em cerca de 1% das próteses de quadril primárias. É uma das principais razões de reoperação, por isso levamos essa prevenção a sério desde a escolha das peças.
Alguns fatores aumentam o risco, como idade mais avançada e o tipo de cirurgia. Para reduzir esse risco, eu escolho o tamanho adequado da cabeça e a posição correta das peças, e oriento você sobre alguns movimentos a evitar nas primeiras semanas, enquanto os tecidos ao redor cicatrizam.
A experiência da equipe também conta. Dados de registro mostram que cirurgiões com maior volume de cirurgias por ano têm menos reoperações por luxação. É uma boa pergunta para você fazer na sua consulta. [6, 9]
O que eu preciso saber para conversar com o cirurgião?
Você não precisa decorar nomes técnicos. Basta entender que a prótese tem haste, cabeça e taça, que ela pode ser fixada com cimento ou sem cimento, e que o par de atrito pode ser de metal, cerâmica ou plástico. Com isso, você já consegue fazer perguntas úteis.
Boas perguntas para levar à consulta: no meu caso, a fixação vai ser com cimento ou sem cimento, e por quê? Qual par de atrito você recomenda para a minha idade e atividade? Qual o tamanho da cabeça e por que essa escolha? Quantas cirurgias de quadril você faz por ano?
Eu, Dr. Daniel Araujo Fernandes, sou ortopedista especializado em quadril e joelho e atendo em Florianópolis. Na consulta, avalio a sua radiografia, explico as opções com clareza e escolho junto com você o implante que melhor combina com o seu osso e o seu estilo de vida. Diferencio também o que se aplica ao atendimento por plano de saúde e ao atendimento particular quando isso for pertinente ao seu caso. [1, 5]
Referencias
- Evans JT, Evans JP, Walker RW, Blom AW, Whitehouse MR, Sayers A. How long does a hip replacement last? A systematic review and meta-analysis of case series and national registry reports with more than 15 years of follow-up. Lancet. 2019;393(10172):647-654. link
- Roitzsch C, Rogmark C, Wu Y, Grimberg A, Lützner J, Postler A. Cemented versus cementless cup fixation in total hip arthroplasty for proximal femoral fractures: analysis of revision and mortality rates from the German arthroplasty registry (EPRD). J Orthop Surg Res. 2025;20(1):873. link
- Humez M, Kötter K, Skripitz R, Kühn KD. Evidence for cemented TKA and THA based on a comparison of international register data. Orthopadie (Heidelb). 2024;53(8):597-607. link
- Hameed D, McCormick BP, Sequeira SB, Dubin JA, Bains SS, Mont MA, et al. Cemented versus cementless femoral fixation for total hip arthroplasty following femoral neck fracture in patients aged 65 and older. J Arthroplasty. 2024;39(7):1747-1751. link
- Tsikandylakis G, Overgaard S, Zagra L, Kärrholm J. Global diversity in bearings in primary THA. EFORT Open Rev. 2020;5(10):763-775. link
- Hoskins W, Rainbird S, Lorimer M, Graves SE, Bingham R. What can we learn from surgeons who perform THA and TKA and have the lowest revision rates? A study from the Australian Orthopaedic Association National Joint Replacement Registry. Clin Orthop Relat Res. 2022;480(3):464-481. link
- Thoen PS, Lindalen E, Nordsletten L, Röhrl SM. Low wear with vitamin E-infused highly cross-linked polyethylene: 14 years' follow-up of a randomized radiostereometric analysis study. Bone Joint J. 2025;107-B(11):1182-1188. link
- Park CW, Jeong SJ, Cho K, Kim SY, Lim SJ, Park YS. Bearing-related complications of total hip arthroplasty using fourth-generation ceramic-on-ceramic articulations: does articular noise increase over time? J Arthroplasty. 2024;39(10):2536-2541.e1. link
- Dimentberg E, Barimani B, Alqahtani M, Tayara B, Belzile E, Albers A. The incidence of hip dislocation after posterior approach primary total hip arthroplasty: comparison of two different posterior repair techniques. Arch Orthop Trauma Surg. 2023;143(6):3605-3612. link
- Kuyl EV, Agarwal AR, Patel PK, Harris AB, Gu A, Rao S, et al. Osteoporotic patients undergoing total hip arthroplasty have a similar 5-year cumulative incidence rate of periprosthetic fracture regardless of cemented versus cementless femoral stem fixation. J Arthroplasty. 2024;39(5):1285-1290.e1. link
Perguntas Frequentes
Prótese de quadril cimentada ou sem cimento é melhor?
Nenhuma é melhor para todos. A cimentada prende o implante na hora e é preferida em osso frágil e em pessoas mais idosas. A sem cimento faz o osso crescer sobre a peça e é preferida em osso firme, comum em pacientes mais jovens. A escolha depende da qualidade do seu osso.
Quanto tempo dura uma prótese de quadril?
Cerca de 6 em cada 10 próteses de quadril ainda funcionam 25 anos depois, segundo registros nacionais com milhares de pacientes. Em muitos casos a prótese dura mais de duas décadas. Nenhum implante é eterno, mas a chance de durar bastante é alta.
Qual o melhor par de atrito para a prótese de quadril?
As combinações modernas, cabeça de metal ou cerâmica sobre polietileno altamente reticulado e cerâmica com cerâmica, têm risco parecido de nova cirurgia. Não existe material único ideal. A escolha depende da sua idade e do seu nível de atividade, e é definida na consulta.
A prótese de quadril pode sair do lugar?
A luxação, quando a esfera escapa da taça, ocorre em cerca de 1% das próteses de quadril primárias. O risco cai com a escolha correta do tamanho da cabeça, o bom posicionamento das peças e alguns cuidados de movimento nas primeiras semanas.
A prótese de cerâmica faz barulho?
Alguns pacientes com o par cerâmica com cerâmica percebem um rangido ocasional na articulação, relatado em torno de 3% dos casos. Em geral não exige nova cirurgia. A quebra da peça de cerâmica é rara, com menos de 1% em 12 anos de acompanhamento.
Prótese com cimento serve para idoso com osteoporose?
Sim. Em osso enfraquecido, comum na osteoporose e em pessoas mais idosas, a fixação com cimento dá um encaixe seguro de imediato e reduz o risco de o fêmur trincar ao redor do implante, principalmente a partir dos 70 anos.
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