Prótese de Quadril: Via Anterior ou Posterior?

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

Explico, em linguagem simples, como funcionam as vias anterior, posterior e lateral da prótese de quadril e o que a ciência mostra sobre cada uma.

Via de acesso é o caminho por onde eu chego até a articulação do quadril para trocar a cabeça do fêmur e o encaixe da bacia pela prótese. A pele, os músculos e a cápsula que envolvem a articulação podem ser afastados por lados diferentes, e é isso que dá nome a cada via.

As três mais usadas são a via anterior (pela frente da coxa), a via posterior (por trás, na região da nádega) e a via lateral (pela lateral do quadril). Cada uma afasta grupos musculares diferentes para alcançar a articulação. A via anterior passa entre os músculos sem cortá-los; a posterior e a lateral trabalham por outros planos musculares.

Nenhuma dessas vias é experimental. No estudo canadense de referência, com mais de 30 mil cirurgias, a via lateral respondeu por cerca de 70% dos casos, a posterior por 20% e a anterior por 10%. A frequência de cada uma varia conforme o país e a formação do cirurgião. [1]

A via anterior tem menos complicação que a posterior?

Não há prova de que a via anterior tenha menos complicações. O maior estudo sobre o assunto, publicado na revista JAMA em 2020 com 30.098 pacientes operados, comparou a via anterior com as vias lateral e posterior e não encontrou vantagem para a anterior.

Nesse estudo, a taxa de complicação maior no primeiro ano foi de cerca de 2% na via anterior e de 1% nas vias lateral ou posterior, uma diferença pequena, porém estatisticamente significativa a favor destas últimas. Complicação maior aqui significa infecção profunda que exige nova cirurgia, luxação que precisa ser colocada de volta no lugar ou necessidade de refazer a prótese.

Vale um cuidado ao ler esse dado: os pacientes operados pela via anterior eram, em média, mais jovens e atendidos por cirurgiões de maior volume, e ainda assim a via anterior não saiu na frente. Revisões que juntam vários estudos confirmam que as taxas de complicação são semelhantes entre as vias. [1, 2, 3]

Qual via causa menos luxação (a prótese sair do lugar)?

As taxas de luxação são parecidas entre as vias na maioria dos estudos recentes. Luxação é quando a bola da prótese escapa do encaixe, e costuma acontecer em torno de 2% dos casos.

Uma revisão de 2025 que somou 44.477 pacientes não encontrou diferença estatística de luxação entre a via anterior e a posterior, e outras revisões de estudos sorteados chegaram à mesma conclusão.

Existe uma exceção que mostra por que a escolha é individual: em pacientes com a coluna lombar rígida ou já operada (fusão da coluna), a via anterior mostrou menos luxação do que a posterior. Além disso, boa parte das luxações vem de quedas, e não do tipo de via, o que reforça a importância de prevenir tombos em casa nas primeiras semanas. [2, 3, 4, 8, 9]

O que muda na minha recuperação conforme a via?

A via anterior costuma trazer alguma vantagem nas primeiras semanas, sobretudo menos dor no primeiro dia e função um pouco melhor no primeiro mês. Essa diferença tende a desaparecer por volta de três meses, quando os resultados se igualam.

Nas revisões de estudos sorteados, a via anterior teve menos dor no dia seguinte à cirurgia e notas de função um pouco melhores no início, além de uma internação um pouco mais curta (cerca de 0,3 dia a menos). Aos três meses, a função medida foi igual entre as vias.

Em troca, a via anterior costuma ter tempo de cirurgia maior (cerca de 15 minutos a mais) e mostrou risco mais alto de irritar um nervo da coxa, que causa dormência numa faixa da pele e, na maioria das vezes, melhora com o tempo. De modo geral, seja qual for a via, você começa a andar com apoio ainda no dia da cirurgia ou no dia seguinte. [2, 3, 4]

Preciso seguir restrições de movimento depois da cirurgia?

Depende da sua via e do seu caso, mas estudos recentes mostram que afrouxar ou retirar as restrições clássicas na via posterior não aumentou a luxação. Essas restrições (evitar cruzar as pernas, dobrar o quadril além de 90 graus e girar o pé para dentro) foram muito usadas para prevenir a prótese de sair do lugar.

Uma revisão com 6.900 pacientes operados pela via posterior encontrou taxa de luxação de 2,2% com restrições e 2,0% sem restrições, sem diferença relevante. Uma análise que somou 9.599 cirurgias chegou ao mesmo resultado e observou que as quedas responderam por cerca de 24% das luxações.

Na prática, eu oriento as precauções conforme a sua via de acesso, a sua estabilidade no dia da cirurgia e o seu perfil. O objetivo é que você volte a se mover cedo e com segurança, com atenção especial a evitar quedas no começo. [7, 8]

A experiência do cirurgião importa mais que a via?

A experiência e o volume de cirurgias do cirurgião pesam mais no resultado do que a via escolhida. As próprias revisões que compararam as vias concluem que a decisão deve ser guiada pela experiência e pela preferência do cirurgião e pelas características de cada paciente.

A via anterior tem uma curva de aprendizado mais longa. Uma análise econômica mostrou que ela só passa a compensar em mãos de cirurgiões de alto volume, acima de cerca de 100 cirurgias por essa via. No começo da curva, o risco de precisar refazer a prótese é maior.

Por isso, o ponto central é escolher um cirurgião que domine bem a via que vai usar no seu caso. Na consulta, eu avalio o seu quadril, a sua coluna, o seu peso e a sua rotina para indicar a via mais adequada para o seu caso. [1, 4, 5]

Quanto tempo dura a prótese e a via influencia?

A via de acesso não define quanto tempo a prótese vai durar. A durabilidade depende do tipo de implante, do desgaste ao longo dos anos e do seu perfil de atividade.

Uma grande revisão que acompanhou pacientes por mais de 15 anos estimou que cerca de 58% das próteses de quadril continuam funcionando após 25 anos, segundo os registros nacionais, e cerca de 77% nas séries de hospitais. São números para orientar expectativas, e não uma garantia individual.

As revisões que compararam as vias não mostraram diferença na necessidade de refazer a prótese entre a anterior e a posterior. A escolha da via leva em conta a sua recuperação e o seu perfil. Não há evidência de que uma via faça a prótese durar mais do que outra. [3, 6]

Referencias

  1. Pincus D, Jenkinson R, Paterson M, Leroux T, Ravi B. Association Between Surgical Approach and Major Surgical Complications in Patients Undergoing Total Hip Arthroplasty. JAMA. 2020;323(11):1070-1076. link
  2. Liu R, Zhao Y, Yu Z, Liu C, Sun Q, Nan X. Comparative efficacy of direct anterior approach versus conventional surgical approaches in total hip arthroplasty: a systematic review and meta-analysis of randomized clinical trials. J Orthop Surg Res. 2025;20(1):837. link
  3. Ghandour M, Salomon O, Hammouchi M, Lawan Abdou A, Okoma K, Souissi M, et al. Direct anterior approach versus posterior approach in total hip arthroplasty: A systematic review and meta-analysis. J Orthop. 2025;65:233-250. link
  4. Ang JJM, Onggo JR, Stokes CM, Ambikaipalan A. Comparing direct anterior approach versus posterior approach or lateral approach in total hip arthroplasty: a systematic review and meta-analysis. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2023;33(7):2773-2792. link
  5. Berg AR, Held MB, Jiao B, Swart E, Lakra A, Cooper HJ, et al. Is the Direct Anterior Approach to THA Cost-effective? A Markov Analysis. Clin Orthop Relat Res. 2022;480(8):1518-1532. link
  6. Evans JT, Evans JP, Walker RW, Blom AW, Whitehouse MR, Sayers A. How long does a hip replacement last? A systematic review and meta-analysis of case series and national registry reports with more than 15 years of follow-up. Lancet. 2019;393(10172):647-654. link
  7. Crompton J, Osagie-Clouard L, Patel A. Do hip precautions after posterior-approach total hip arthroplasty affect dislocation rates? A systematic review of 7 studies with 6,900 patients. Acta Orthop. 2020;91(6):687-692. link
  8. Reimert J, Lockwood KJ, Hau R, Taylor NF. Are hip movement precautions effective in preventing prosthesis dislocation post hip arthroplasty using a posterior surgical approach? A systematic review and meta-analysis. Disabil Rehabil. 2022;44(12):2560-2566. link
  9. Leibovitch L, Machinski E, Fernandes A, Park JY, Souza G, Sayudo IF, et al. Direct anterior vs other surgical approaches in patients with lumbar stiffness undergoing total hip arthroplasty: a systematic review and meta-analysis. Arch Orthop Trauma Surg. 2024;145(1):48. link

Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre via anterior e posterior na prótese de quadril?

A via anterior chega à articulação pela frente da coxa e a posterior por trás, na região da nádega. Cada uma afasta músculos diferentes. Na maioria dos estudos, as taxas de complicação e de luxação são semelhantes entre as duas.

A via anterior é melhor que a posterior?

Não há prova de que seja melhor. O maior estudo, com 30.098 pacientes, não mostrou menos complicações com a via anterior. Ela pode trazer menos dor nas primeiras semanas, mas os resultados se igualam por volta de três meses.

Qual via tem menos risco de luxação?

As taxas de luxação são parecidas, em torno de 2%, na maioria dos estudos. Em pessoas com a coluna lombar rígida ou já operada, a via anterior mostrou menos luxação. Boa parte das luxações vem de quedas.

Preciso seguir restrições de movimento depois da prótese de quadril?

Depende da sua via e do seu caso. Estudos mostram que retirar as restrições clássicas na via posterior não aumentou a luxação. Eu oriento as precauções de forma individual, com atenção a evitar quedas no começo.

Quanto tempo dura uma prótese de quadril?

Cerca de 58% das próteses continuam funcionando após 25 anos, segundo os registros nacionais. A via de acesso não define a durabilidade; o implante, o desgaste e o seu perfil de atividade pesam mais.

Quando vou voltar a andar depois da cirurgia?

Na maioria dos casos você dá os primeiros passos com apoio ainda no dia da cirurgia ou no dia seguinte, seja qual for a via. A internação costuma durar poucos dias.

A via de acesso muda com a experiência do cirurgião?

A experiência e o volume do cirurgião pesam mais no resultado do que a via em si. O mais importante é escolher um profissional que domine bem a via usada no seu caso.

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