Prótese: Quem Não Pode Operar? Contraindicações e Preparo

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

A maioria das "contraindicações" que assustam — idade, peso, diabetes — não impede a cirurgia: são fatores que se preparam. O que realmente contraindica é raro. Um guia honesto sobre quem não pode operar e como chegar à cirurgia mais seguro.

Este artigo é informativo. As decisões sobre qualquer tratamento envolvem a avaliação da sua equipe médica — que considera seus exames, suas outras doenças, suas expectativas e o seu caso individual. Nenhum texto substitui essa conversa.

"Será que eu posso operar?" é uma dúvida que trava muita gente — e boa parte do medo vem de contraindicações que, na prática, não são o que se imagina. Idade avançada, sobrepeso, diabetes: essas três, que assustam tanto, raramente impedem a cirurgia. Elas se preparam.

Este guia separa, com honestidade, o que realmente contraindica a prótese (é uma lista curta) do que apenas adia ou pede cuidado — e mostra como o preparo pré-operatório pode reduzir riscos de forma concreta.

1. A maioria das "contraindicações" temidas não é barreira

A diretriz de prática clínica mais recente sobre o momento da prótese de quadril e joelho, publicada em 2023 pelo Colégio Americano de Reumatologia com a Associação Americana de Cirurgiões de Quadril e Joelho, é reveladora justamente por afastar vários mitos [1]:

  • Obesidade: houve consenso de que a obesidade, por si só, não é motivo para negar ou adiar a cirurgia — embora a perda de peso deva ser fortemente incentivada e o aumento do risco operatório precise ser conversado [1].
  • Idade: não é critério de indicação nem de exclusão. A diretriz define a cirurgia pela artrose sintomática que já não responde ao tratamento conservador — não pelo número da identidade [1].
  • Deformidade ou perda óssea: em vez de contraindicar, a diretriz recomenda não adiar a cirurgia nesses casos [1] — esperar até esse ponto tende a piorar o resultado.

Ou seja: muito do que as pessoas ouvem como "você não pode operar" é, na verdade, "vamos preparar melhor esse ponto antes de operar".

2. As poucas situações que realmente impedem (por ora)

Contraindicações verdadeiramente absolutas à prótese eletiva são poucas, e fazem parte da prática cirúrgica consolidada. As principais:

  • Infecção ativa — não se implanta uma prótese na presença de uma infecção ativa (no próprio joelho/quadril ou em outro ponto do corpo), pelo risco de a bactéria se instalar no implante. A cirurgia espera o tratamento e a resolução da infecção.
  • Condição clínica que torne a anestesia e a cirurgia perigosas demais naquele momento — uma doença cardíaca, pulmonar ou outra descompensada precisa ser estabilizada antes.

Repare que quase todas essas situações são temporárias: resolvida a infecção, compensada a doença de base, a cirurgia volta a ser possível. "Não pode agora" quase nunca significa "não pode nunca". Quem faz essa avaliação é a sua equipe médica e anestésica.

3. O que faz a cirurgia esperar — mas não cancela

Entre "pode operar" e "não pode", existe uma zona importante: fatores que a diretriz de 2023 recomenda otimizar antes, adiando a cirurgia por um período para reduzir riscos [1]:

  • Tabagismo: recomenda-se reduzir ou parar o cigarro antes de operar, porque ele piora a cicatrização e aumenta o risco de complicações [1]. Parar de fumar é um dos preparos de maior retorno.
  • Diabetes mal controlado: recomenda-se buscar um melhor controle glicêmico antes da cirurgia (a diretriz não fixa um número exato) [1].

Esses não são "nãos" — são "ainda não, vamos melhorar isto primeiro". E a diferença entre um e outro muda completamente a conversa e o resultado.

4. O que pede cuidado, não proibição: peso e idade

Vale reforçar, porque é onde mora a maior confusão. O peso aumenta o risco operatório e merece atenção — mas, sozinho, não é uma proibição [1]. A idade muda o cálculo (operar mais jovem carrega maior chance de precisar de uma revisão ao longo da vida [2]), mas não impede a cirurgia em nenhuma das pontas. Aprofunde esse ponto nos guias sobre a idade na prótese de joelho e na prótese de quadril.

A lógica é sempre a mesma: fatores de risco pedem preparo e conversa franca sobre a balança risco-benefício — não uma porta fechada.

5. O preparo que muda o jogo

Se a maioria dos obstáculos é modificável, então o preparo pré-operatório não é burocracia — é parte do tratamento. E há evidência concreta disso: um estudo de 2024 mostrou que um programa estruturado de otimização antes da cirurgia (cuidando de peso, anemia, controle do diabetes, vitamina D e engajamento do paciente) esteve associado a menor risco de infecção superficial da ferida — com cerca de um terço menos de chance desse tipo de infecção no grupo otimizado [3].

Traduzindo: chegar bem preparado à cirurgia não é detalhe — é o que ajuda a transformar "quem tem fatores de risco" em "quem opera com segurança". A decisão sobre se, quando e como operar é exclusiva do seu médico, que avalia o conjunto: seu quadro clínico, exames, comorbidades e objetivos. Comece pelos guias completos da prótese de joelho e da prótese de quadril.

Referencias

  1. Hannon CP, Goodman SM, Austin MS, et al. 2023 American College of Rheumatology and American Association of Hip and Knee Surgeons Clinical Practice Guideline for the Optimal Timing of Elective Hip or Knee Arthroplasty. Arthritis Rheumatol. 2023;75(11):1877-1888. link
  2. Bayliss LE, Culliford D, Monk AP, et al. The effect of patient age at intervention on risk of implant revision after total replacement of the hip or knee: a population-based cohort study. Lancet. 2017;389(10077):1424-1430. link
  3. Sigurdardottir M, Sigurdsson MI, Vias RD, Olafsson Y. Preoperative optimization of modifiable risk factors is associated with decreased superficial surgical site infections after total joint arthroplasty: a prospective case-control study. Acta Orthop. 2024;95:392-400. link

Perguntas Frequentes

Sou diabético. Posso colocar prótese?

Na maioria dos casos, sim — o diabetes não é uma contraindicação absoluta. A recomendação é buscar um melhor controle glicêmico antes da cirurgia para reduzir riscos [1]. Quem define o momento é a sua equipe, com base no seu controle e no conjunto do seu quadro.

Estou acima do peso. Isso me impede de operar?

A obesidade, por si só, não é motivo para negar ou adiar a cirurgia [1]. Ela aumenta o risco operatório e a perda de peso é fortemente incentivada, mas a decisão pesa o conjunto — não fecha a porta pelo peso isolado.

O que realmente impede uma prótese?

A lista é curta: uma infecção ativa (que precisa ser tratada antes de implantar a prótese) e uma condição clínica descompensada que torne a anestesia e a cirurgia perigosas naquele momento. Quase sempre são situações temporárias — resolvido o problema, a cirurgia volta a ser possível. A avaliação é da sua equipe médica.

Fumo. Preciso parar antes da cirurgia?

A diretriz de 2023 recomenda reduzir ou parar de fumar antes de operar, porque o cigarro piora a cicatrização e aumenta o risco de complicações [1]. Parar de fumar é um dos preparos de maior retorno para a segurança da cirurgia.

Como o preparo pré-operatório ajuda?

Um programa estruturado de otimização (peso, anemia, controle do diabetes, vitamina D, engajamento) esteve associado a menos infecção superficial da ferida — cerca de um terço menos nesse grupo [3]. Preparar-se bem é parte do tratamento, não burocracia.

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