Este artigo é informativo. Ele explica, em linguagem clara, o que a literatura internacional e a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS) descrevem sobre o controle da dor depois da prótese de joelho e de quadril. Nada aqui é prescrição. As decisões sobre qualquer tratamento envolvem avaliação da sua equipe médica — cirurgião, anestesista, fisioterapeuta, clínico — considerando o seu caso como um todo.
Existe uma pergunta que quase todo paciente faz antes de operar um joelho ou um quadril: "Doutor, vai doer muito depois?" É uma pergunta honesta, humana, e a resposta hoje é muito diferente da resposta de vinte anos atrás. A cirurgia de prótese continua sendo um procedimento grande — o cirurgião remove a parte gasta da articulação (a cartilagem e uma pequena porção óssea) e coloca no lugar uma peça nova, feita de metal e plástico especial. Por décadas, o pós-operatório imediato era marcado por dor intensa, náusea de morfina, dias na cama e recuperação lenta [1,2]. Esse cenário mudou.
Este artigo é parte da nossa série sobre prótese ambulatorial, baseada no livro Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction 7 (AAOS, 2026) [1]. Ele começou com o artigo principal Artroplastia Ambulatorial: Prótese com Alta no Mesmo Dia, seguiu com Preparação Pré-Operatória e Prehabilitação e depois A Escolha do Anestésico da Raquianestesia. Hoje vamos tratar do que é, possivelmente, o maior avanço recente do pós-operatório da prótese: a analgesia multimodal associada aos bloqueios de nervo, em especial o bloqueio do canal adutor e o iPACK.
Antes de qualquer coisa, vale deixar um ponto claro. O objetivo desses avanços não é, em primeiro lugar, "mandar o paciente pra casa no mesmo dia". O objetivo é mais fundamental: dor controlada com o menor uso possível de opioides (morfina, tramadol) e recuperação funcional mais rápida — ou seja, conseguir andar, sentar, comer e dormir com conforto [1,2,3]. A alta mais precoce, quando ela acontece em pacientes cuidadosamente selecionados, é consequência desse avanço, não a sua meta. E para a maioria das próteses feitas hoje — incluindo pacientes idosos, com comorbidades ou com suporte domiciliar limitado — a internação de um a três dias continua sendo a rotina, e continua sendo adequada [1].
1. Por que dói depois da prótese — e por que o jeito antigo de tratar a dor tinha limites
Para entender o avanço, ajuda entender a origem da dor. Quando o cirurgião faz uma prótese de joelho ou de quadril, ele passa por várias camadas que têm nervos da dor: a pele, a gordura, os músculos, a cápsula da articulação (um envoltório fibroso que segura a articulação) e o próprio osso, que é cortado de forma precisa para receber a peça nova. Depois da cirurgia, todas essas camadas cicatrizam — e a dor vem de duas fontes principais [1]:
- Dor inflamatória local: é a dor "avermelhada, quente, inchada" da região operada. Acontece porque o corpo manda células de defesa para começar a cicatrização.
- Dor transmitida pelos nervos: o joelho e o quadril têm nervos que levam o sinal de dor até a coluna e daí ao cérebro. Se a gente consegue "desligar" ou "abaixar o volume" desses nervos por algumas horas, o paciente sente muito menos.
Durante décadas, o jeito padrão de tratar essa dor foi por meio de um único recurso forte: opioides (morfina, tramadol e parentes) [1,3]. Eles funcionam, mas têm um custo importante: náusea e vômito, prisão de ventre, tontura, sonolência excessiva, queda da pressão e — em alguns pacientes — confusão mental, sobretudo em idosos [1,3]. Tudo isso atrasa a recuperação: o paciente com enjoo não come, com sonolência não levanta, com confusão não colabora com a fisioterapia. No fim, a dor está controlada, mas a recuperação funcional emperra [1,2].
Foi para escapar dessa armadilha que surgiu o conceito de analgesia multimodal — que vamos explicar a seguir. A ideia central é simples e elegante: em vez de uma única dose grande de opioide, usar vários remédios diferentes, em doses pequenas, que agem em pontos diferentes da dor. Cada um faz uma parte — o total alivia a dor, e os efeitos indesejados de cada remédio ficam muito menores [1,3].
2. Analgesia multimodal: vários remédios pequenos, em vez de um único remédio forte
Uma analogia do dia a dia ajuda. Imagine que você precisa apagar um incêndio pequeno em vários lugares da casa. Você pode tentar fazer isso com uma única mangueira potente (o opioide) — vai molhar tudo, apagar o fogo, mas também alagar a casa. Ou pode usar cinco extintores menores, cada um apontado para um foco específico (os vários remédios da analgesia multimodal). No fim, você apaga o fogo com menos dano. É mais ou menos essa a lógica [1,3].
Segundo a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS), o protocolo multimodal típico combina, em diferentes momentos do dia da cirurgia [1]:
- Paracetamol (acetaminofeno): é o analgésico mais simples, muito usado para dor leve a moderada. Funciona no cérebro, não é anti-inflamatório. Costuma ser iniciado antes da cirurgia e mantido nas primeiras 48 a 72 horas.
- Anti-inflamatório sem cortisona (AINE, por exemplo celecoxibe ou cetorolaco): são remédios como o ibuprofeno ou o naproxeno. Agem diretamente na inflamação local — a "vermelhidão e o inchaço" da cicatrização. Reduzem a dor de forma significativa. Não se aplica a toda pessoa (pacientes com problema renal, úlcera ativa ou certas cardiopatias podem não poder usar); por isso a equipe médica decide caso a caso [1].
- Gabapentinoides (gabapentina ou pregabalina): remédios originalmente criados para tratar certos tipos de dor do nervo. Em doses pequenas, como parte do protocolo, podem reduzir a dor transmitida pelos nervos e o uso total de opioide [1,3].
- Dexametasona: um corticoide em dose única ou em doses pequenas. Reduz a inflamação e a náusea — dois inimigos do pós-operatório [1].
- Opioide em dose pequena: continua existindo, mas como "reforço" para os picos de dor, não mais como a base do tratamento [1,3].
O estudo de Passias e colaboradores (2023), publicado na revista Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery, testou esse conceito de forma direta: deu a combinação de paracetamol + celecoxibe + gabapentina 30 a 60 minutos antes da cirurgia de prótese (uma estratégia chamada "analgesia preemptiva" — chegar na dor antes dela chegar no paciente) e comparou com um grupo que não recebeu essa combinação [3]. O resultado: pacientes que receberam a combinação precisaram de menos opioide no pós-operatório e relataram notas de dor menores em praticamente todos os momentos da internação [3]. A redução não foi dramática — foi "modesta", nas palavras dos autores — mas foi real e consistente, e quando combinada com as outras estratégias descritas a seguir, o efeito conjunto é clinicamente relevante [1,3].
Ponto importante: a analgesia multimodal não elimina a dor. Ela reduz a intensidade, diminui a necessidade de opioide e, com isso, reduz os efeitos indesejados que atrapalham a recuperação [1,3]. Em pacientes com internação planejada, o mesmo protocolo funciona — o ganho principal é o conforto e menos enjoo, não "ir pra casa mais rápido".
3. Bloqueio do canal adutor: "desligar" os nervos do joelho sem tirar a força
A analgesia multimodal com remédios orais e venosos resolve uma parte da dor. Para o joelho, porém, a cirurgia moderna acrescenta uma peça que mudou o jogo: o bloqueio do canal adutor (em inglês, "adductor canal block", ou ACB). Esse bloqueio é feito pelo anestesista, geralmente logo após a cirurgia ou no despertar da raquianestesia. Ele usa ultrassom para enxergar um pequeno corredor na face interna da coxa — o canal adutor — onde passam os nervos que levam a sensação de dor para a parte da frente e do lado de dentro do joelho. O anestesista injeta ali um anestésico local (como a bupivacaína ou a ropivacaína) [1].
Uma analogia útil: o joelho tem vários "fios elétricos" de dor que chegam a ele. O bloqueio do canal adutor "desliga" um desses fios principais por algumas horas — normalmente entre 12 e 24 horas. É como puxar o disjuntor de um cômodo específico da casa sem desligar a casa inteira [1]. Nesse período, a dor do paciente cai de forma significativa.
O que torna o bloqueio do canal adutor especial, em comparação com o que se usava antes (o bloqueio femoral), é que ele preserva a força do quadríceps — o músculo da parte da frente da coxa, o mesmo que você usa pra subir escada e se levantar da cadeira [1,2]. O bloqueio femoral, que era usado por décadas, enfraquecia bastante esse músculo — e isso significava que o paciente, logo após a cirurgia, tinha dificuldade de dar os primeiros passos e precisava usar uma "calça" rígida (imobilizador de joelho) para a perna não dobrar e cair. Segundo a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS):
"The adductor canal block is a motor-sparing nerve blockade that covers the knee's sensory nerves on the anteromedial aspect. (...) Femoral nerve and fascia iliaca blocks can also be used; however, these will cause a reduction of quadriceps muscle strength and impair functional recovery by necessitating the use of a knee immobilizer for ambulation."
Traduzindo: o bloqueio do canal adutor preserva o motor da perna. Ele cobre a sensibilidade do joelho na parte da frente e do lado de dentro. Com isso, o paciente pode começar a fisioterapia mais cedo, com segurança, porque a perna continua "acordada" para segurar o peso do corpo [1]. Esse é o primeiro grande ganho funcional: menos dor, e ao mesmo tempo, movimento preservado [1,2]. Isso não é o mesmo que "ir pra casa no mesmo dia" — é melhor do que isso. É o paciente conseguir se recuperar com conforto e com autonomia, independentemente de onde ele vai dormir essa noite.
4. iPACK: completando o alívio da dor na parte de trás do joelho
O bloqueio do canal adutor resolve a dor da parte da frente e da parte de dentro do joelho — mas o joelho também dói atrás, principalmente quando o paciente começa a dobrar a perna na fisioterapia. Para essa região específica, a literatura descreve um segundo bloqueio, complementar: o iPACK. A sigla vem do inglês "interspace between the Popliteal Artery and the Capsule of the Knee", ou seja, o espaço pequeno entre a artéria que passa atrás do joelho e a cápsula da articulação [1,4]. Nesse espaço passam ramos finos de nervos que levam a dor da parte de trás do joelho.
Segundo a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS):
"Pain arising from the posterior knee after TKA can be alleviated by ultrasonographically guided local anesthesia into the interspace between the posterior knee capsule and the popliteal artery (iPACK block)."
A grande vantagem do iPACK é parecida com a do canal adutor: ele atinge os nervinhos da dor sem atingir os nervos grandes que fazem a perna se mexer [1,4]. Por isso, pode ser combinado com o bloqueio do canal adutor sem que o paciente perca a força para caminhar. Continuando a analogia da casa: é como puxar dois disjuntores pequenos em vez de desligar a chave geral.
A combinação bloqueio do canal adutor + iPACK tem ganhado espaço nos últimos anos justamente porque cobre a dor do joelho inteiro — frente, dentro e atrás — preservando a força da perna [1,4]. É feita com o paciente ainda na sala cirúrgica, orientada por ultrassom, dura poucos minutos e é considerada um procedimento de baixo risco quando executada por anestesista treinado [1,4]. Não é um procedimento sem risco — nenhum procedimento é —, mas o perfil de segurança é favorável e as complicações descritas (hematoma pequeno, dor transitória no local da picada) são raras e autolimitadas [4].
Importante: nem todo paciente recebe ambos os bloqueios. A decisão depende do tipo de cirurgia (joelho ou quadril), da anatomia do paciente, da preferência e da experiência da equipe, e das condições clínicas (por exemplo, uso de anticoagulantes). Não é uma escolha "do paciente" — é uma decisão técnica da equipe [1].
5. E o quadril? O "coquetel periarticular" e a infiltração local
No quadril, a anatomia é diferente e os bloqueios regionais têm um papel um pouco menor do que no joelho. O motivo é simples: no quadril, cortar os nervos grandes da região para controlar a dor também cortaria a força para levantar a perna — o que o paciente precisa fazer logo na fisioterapia [1]. Por isso, o foco do controle da dor no quadril está em dois outros recursos: o protocolo multimodal (que vale para quadril e joelho) e a infiltração periarticular feita pelo próprio cirurgião, durante a cirurgia.
A infiltração periarticular é, em linguagem simples, um "coquetel" de remédios que o cirurgião injeta ao redor da articulação operada antes de fechar a pele [1]. Segundo a AAOS:
"These cocktails typically include a mix of drugs that target different pain pathways: local anesthetic agents (eg, bupivacaine or ropivacaine) for immediate pain relief, NSAIDs such as ketorolac to reduce inflammation, epinephrine to constrict blood vessels and extend the effects of the anesthetic agent, corticosteroids (eg, dexamethasone) to further reduce inflammation and swelling, and opioids (eg, morphine) for added pain relief."
Em português: a mistura costuma ter um anestésico local (para dormência imediata), um anti-inflamatório, uma dose pequena de adrenalina (para fechar os vasos pequenos e fazer o efeito durar mais), um corticoide (para reduzir inflamação e inchaço) e, em alguns protocolos, uma dose pequena de morfina [1]. O cirurgião distribui essa mistura em pontos estratégicos ao redor da articulação — a cápsula, os músculos, a gordura subcutânea — antes de costurar a pele.
A literatura descreve essa infiltração como eficaz em reduzir a dor nas primeiras 12 a 24 horas e em diminuir o consumo de opioide nesse período [1]. Como todos os outros recursos que discutimos, não é "o remédio mágico" — é mais uma peça do quebra-cabeça da analgesia multimodal. Funciona quando está somada ao resto: paracetamol, anti-inflamatório, dexametasona, bloqueio de nervo (quando aplicável) e opioide apenas de resgate [1].
6. A prehabilitação: o paciente não é espectador
Existe uma parte do controle da dor que acontece antes da cirurgia, não depois — e que costuma surpreender os pacientes. Chama-se prehabilitação (em inglês, "prehabilitation", ou "prehab"). A ideia é simples: quanto mais forte, mais preparado e mais bem orientado o paciente chega à cirurgia, melhor ele responde ao protocolo de dor e mais rápido se recupera [1,5]. Não é um detalhe — é um dos fatores que a literatura moderna descreve como capazes de mudar o curso do pós-operatório [5].
A prehabilitação costuma incluir [1,5]:
- Exercícios específicos para fortalecer o quadríceps, os glúteos e os músculos do core (abdômen e tronco) — exatamente os músculos que o paciente vai precisar nos primeiros dias depois da cirurgia.
- Alongamento e mobilidade — para melhorar a flexibilidade da articulação operada e das articulações vizinhas.
- Educação do paciente — explicar o que vai acontecer no dia da cirurgia, no pós-operatório imediato, quais remédios serão usados, o que é esperado e o que não é. Paciente informado tem menos ansiedade — e ansiedade é um amplificador de dor conhecido [1].
- Controle dos fatores clínicos modificáveis — como ajustar o diabetes (HbA1c idealmente entre 7 e 8% segundo a AAOS, mas a meta exata é individualizada pela equipe), tratar anemia, parar de fumar, ajustar medicamentos que interferem com cicatrização [1].
Segundo a AAOS:
"Prehabilitation, or preoperative rehabilitation, is increasingly recognized as a valuable component of preoperative optimization. Engaging in targeted exercises to strengthen the muscles around the joint, improve flexibility, and enhance overall fitness can lead to a smoother postoperative recovery and quicker return to normal activities."
O estudo de De Klerk e colaboradores (2023) — uma revisão sistemática com meta-análise, nível de evidência alto — mostrou que pacientes que fizeram prehab antes da prótese tiveram menos dor e menor tempo de internação, na média [5]. Outras análises mais recentes, como a meta-análise em rede de An e colaboradores (2024) publicada em Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery, confirmam esse benefício da prehabilitação na recuperação funcional pós-prótese [6]. Não transforma uma cirurgia grande em uma cirurgia pequena — mas a diferença é mensurável.
Em termos práticos: se o seu cirurgião ou a equipe dele recomenda prehabilitação, não é sugestão — é parte do tratamento. Paciente que chega fisicamente preparado para a cirurgia sente menos dor depois, usa menos opioide e consegue voltar à fisioterapia mais cedo [1,5,6].
7. Quando faz sentido buscar alta rápida — e quando NÃO faz
Aqui a gente volta ao ponto que abriu o artigo. O conjunto de recursos que discutimos — protocolo multimodal, bloqueio do canal adutor, iPACK, coquetel periarticular, prehabilitação — é o que permite, em casos cuidadosamente selecionados, uma recuperação tão boa no primeiro dia que o paciente pode voltar pra casa em 24 horas ou até no mesmo dia [1,7]. Mas isso é possibilidade, não meta.
A AAOS e a literatura descrevem um perfil aproximado de quem pode ser considerado para alta precoce ou no mesmo dia [1,7]. Em geral, esse paciente tende a reunir um conjunto de características — como boa saúde geral e baixo peso de comorbidades (expresso por escores como ASA 1-2), idade fisiológica abaixo de 75-80 anos, boa função muscular e capacidade de caminhar antes da cirurgia, ter alguém confiável em casa para os primeiros 2-3 dias, moradia sem obstáculos graves (escadas intransponíveis, banheiro inacessível) e conseguir acompanhamento presencial ou por telefone com a equipe nas primeiras 48-72 horas. Esse perfil não é fixo — é um conjunto de sinais que a equipe avalia caso a caso [1,7].
E o paciente que NÃO entra nesse perfil — que é a maioria — recebe exatamente o mesmo protocolo de analgesia multimodal e dos bloqueios [1]. A diferença é que fica internado 1 a 3 dias, com supervisão contínua da equipe, controle de remédios, acompanhamento da fisioterapia, avaliação da cicatrização e atenção a sinais precoces de complicação. Isso não é "pior", não é "medicina antiga" — é o padrão-ouro para quem precisa desse nível de cuidado [1]. A decisão entre "alta rápida" e "internação curta" é uma decisão da equipe médica — cirurgião e anestesista — considerando o paciente como um todo, e não uma decisão de "escolher o pacote" [1].
Um ponto que a gente costuma ouvir no consultório e que vale esclarecer: "Doutor, eu quero fazer a alta no mesmo dia." É legítimo querer voltar pra casa rápido, e a maioria dos pacientes se sente melhor no seu próprio quarto. Mas se a equipe recomendar uma noite ou duas de observação, essa recomendação tem motivo técnico — e respeitar esse motivo protege o resultado da cirurgia. A recuperação não começa na hora em que o paciente atravessa a porta de casa; começa na sala de cirurgia [1].
8. Sinais de alerta nas primeiras semanas em casa
Independentemente de ter ido pra casa no mesmo dia, no dia seguinte ou depois de 3 dias, existem sinais que todo paciente operado de prótese precisa conhecer e ligar para a equipe se aparecerem. Não é para assustar — é para agir cedo, porque quase todos os problemas pós-operatórios têm solução boa quando identificados rápido [1].
- Dor que piora progressivamente depois do terceiro ou quarto dia. A dor normal do pós-operatório tende a diminuir, não a aumentar. Se a dor vira para cima após estabilizar, ligue para a equipe.
- Vermelhidão, calor e saída de secreção pela cicatriz. Um pouco de líquido claro nos primeiros dias é esperado — saída de pus, secreção amarelada ou esverdeada não é.
- Febre persistente acima de 38°C depois do terceiro dia, ou qualquer febre que venha acompanhada de calafrios.
- Inchaço grande e doloroso na panturrilha (a "batata da perna") com dor espontânea — pode ser sinal de trombose venosa, que tem protocolo bem estabelecido de prevenção e tratamento [1].
- Dor forte no peito ou falta de ar súbita — procurar pronto-socorro imediatamente.
- Dificuldade nova para urinar ou sensação de bexiga "cheia demais" por muitas horas — pode ser retenção urinária pós-operatória, conhecida na literatura e com prevenção e tratamento descritos [1].
- Queda ou trauma na perna operada — mesmo que pareça "só um susto", vale a equipe examinar para afastar deslocamento ou fratura periprotética.
A regra prática é simples: na dúvida, ligue. A equipe prefere mil ligações desnecessárias a uma complicação identificada tarde. E praticamente todos os serviços de artroplastia moderna mantêm um canal direto (telefone, aplicativo, mensagem) para o paciente nas primeiras semanas, exatamente para resolver essas dúvidas rápido [1].
9. A ciência por trás do que foi explicado
Esta seção é mais técnica e serve para quem quiser aprofundar. Os recursos descritos neste artigo não são "opinião de médico" — são práticas apoiadas pela literatura ortopédica e anestesiológica internacional mais recente. Os principais pilares:
- Analgesia multimodal preemptiva: a revisão sistemática com meta-análise de Passias e colaboradores (2023) no Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery analisou a combinação paracetamol + celecoxibe + gabapentina dada antes da cirurgia de prótese. Conclusão dos autores: "modest reductions in opioid requirements postoperatively" — reduções modestas, mas consistentes, no uso de opioide [3].
- Bloqueio do canal adutor preservando quadríceps: descrito na literatura como "motor-sparing nerve blockade" e recomendado pela AAOS OKU Hip & Knee Reconstruction 7 (2026, Cap. 5) em contraposição ao bloqueio femoral, que causa perda de força do quadríceps e atrasa a deambulação [1].
- iPACK: bloqueio do espaço entre a artéria poplítea e a cápsula posterior do joelho, descrito na literatura como cobertura eficaz da dor posterior do joelho na ATJ, com preservação motora [1,4].
- Coquetel periarticular: combinação de anestésico local + AINE + corticoide (± epinefrina ± opioide) injetada ao redor da articulação no intraoperatório. Descrita pela AAOS como parte do padrão atual no manejo da dor da prótese [1].
- Prehabilitação: o trabalho de De Klerk e colaboradores (2023), uma revisão sistemática com meta-análise, mostrou melhora de dor pré-operatória e redução do tempo de internação em pacientes submetidos a prehab antes da TJA [5]. A meta-análise em rede de An e colaboradores (2024) reforçou o benefício funcional [6].
Sobre o nível das evidências: a prehabilitação tem evidência de nível I (revisão sistemática com meta-análise). Os bloqueios do canal adutor e iPACK e a analgesia multimodal têm evidências de nível II e III, com consistência entre estudos. A infiltração periarticular tem dezenas de ensaios clínicos randomizados favoráveis, com heterogeneidade nos protocolos exatos [1]. Resumindo: é um conjunto de práticas bem apoiadas por literatura de qualidade, não "promessa futura" nem "marketing médico".
Limites importantes da ciência atual: (a) ainda não há consenso sobre a dose exata e o intervalo exato dos remédios da multimodal — protocolos variam entre centros; (b) o benefício da gabapentina em rotina é debatido e alguns centros limitam seu uso; (c) a seleção do paciente para alta no mesmo dia ainda é mais arte clínica do que ciência pura, e critérios diferem entre cirurgiões; (d) o efeito específico de cada bloqueio isoladamente é difícil de medir — o ganho real vem do pacote, não de uma peça isolada [1,3,5,6]. Isso é saudável: a medicina moderna sabe onde ainda tem dúvida, e isso é diferente de fingir certeza.
10. Como conversar com a equipe sobre o seu controle da dor
Uma conversa produtiva com a equipe não é uma auditoria — é uma troca de prioridades. Algumas perguntas que costumam ser úteis na consulta pré-operatória, adaptadas ao seu caso [1]:
- "Qual é o protocolo de dor que vocês usam para a minha cirurgia? Vocês usam bloqueio do canal adutor? iPACK? Coquetel periarticular?"
- "Eu vou usar opioide? Em que momento, em que dose e por quanto tempo, na média?"
- "Vocês têm alguma recomendação de prehabilitação antes? Fisioterapia, exercícios, ajustes clínicos?"
- "Quanto tempo, em média, seus pacientes com o meu perfil ficam internados?"
- "O que é uma 'dor normal' nas primeiras semanas em casa — e o que é sinal para ligar?"
- "Qual é o canal de contato caso eu precise de vocês fora do horário?"
Essas perguntas não "cobram" a equipe — ajudam você a entender o plano e a se preparar. Paciente informado é paciente que colabora melhor, que toma os remédios corretamente, que faz a fisioterapia no tempo certo e que liga cedo quando precisa. Isso tudo melhora o resultado da sua cirurgia [1,5].
E se você ainda está decidindo se faz a prótese: leve essas perguntas para mais de uma consulta, se possível. A escolha da equipe é tão importante quanto a escolha do modelo de prótese — talvez mais. Um protocolo de analgesia bem executado, com prehab e acompanhamento próximo, faz mais diferença no seu pós-operatório do que qualquer detalhe técnico da cirurgia em si [1].
O objetivo final — que às vezes se perde no marketing em torno da "alta no mesmo dia" — é esse: você conseguir operar, controlar a dor, voltar a andar, voltar a dormir bem, voltar a subir escada, voltar a sentar numa cadeira sem gemer, voltar a fazer o que a artrose tinha roubado. Em quanto tempo isso acontece e onde você dorme nessa primeira noite são detalhes secundários — importantes, mas secundários. A medicina moderna da prótese está cada vez melhor em entregar esse resultado para cada paciente no seu próprio ritmo, e é isso que importa.
Referencias
- Fricka KB, Murphy MP. Outpatient Total Joint Arthroplasty. In: Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction 7. Rosemont, IL: American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS); 2026. link
- Berger RA et al. Outpatient total knee arthroplasty: a retrospective safety analysis. Journal of Arthroplasty. (Discussão do conceito moderno de ATJ ambulatorial com analgesia multimodal e recuperação funcional precoce.) link
- Passias BJ, Emanuelson J, DeCook CA, et al. Preemptive multimodal oral analgesics (acetaminophen, celecoxib, gabapentin) in total knee and total hip arthroplasty: a randomized controlled trial. Arch Orthop Trauma Surg. 2023;143(9):5443-5453. PMID: 35499774. link
- Sankineani SR, Reddy ARC, Eachempati KK, Jangale A, Gurava Reddy AV. Comparison of adductor canal block and IPACK block with adductor canal block alone after total knee arthroplasty: a prospective control trial on pain and knee function in immediate postoperative period. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2018;28(7):1391-1395. PMID: 29619540. link
- De Klerk TC, Dounavi DM, Hamilton DF, Clement ND, Kaliarntas KT. Effects of home-based prehabilitation on pre- and postoperative outcomes following total hip and knee arthroplasty: systematic review and meta-analysis. Bone Jt Open. 2023;4(5):315-328. PMID: 37142259. link
- An T, Liu Z, Wang Z, Wang Z, Shi Y, Chen Q, Sun T, Li Z. Effectiveness of different preoperative rehabilitation interventions in patients undergoing total knee arthroplasty: a systematic review and network meta-analysis. Arch Orthop Trauma Surg. 2024;144(4):1743-1757. PMID: 38246314. link
Perguntas Frequentes
O bloqueio do canal adutor deixa a minha perna totalmente dormente?
Não. Ele "desliga" a sensibilidade da parte da frente e da parte interna do joelho por 12 a 24 horas, preservando a força do quadríceps — o músculo da frente da coxa. Isso permite que você comece a andar com segurança logo após a cirurgia. A força volta totalmente quando o efeito passa. A decisão sobre usar ou não o bloqueio é da equipe, caso a caso.
Todo paciente operado de prótese recebe iPACK?
Não. O iPACK é usado principalmente em prótese de joelho, e sua indicação depende da preferência da equipe, do tipo de cirurgia e das condições clínicas do paciente (por exemplo, uso de anticoagulantes). Muitos pacientes se recuperam bem com bloqueio do canal adutor isolado + protocolo multimodal, sem iPACK.
Vou precisar tomar morfina depois da cirurgia?
Possivelmente sim, mas em dose pequena e como resgate, não como base do tratamento. Os protocolos modernos de analgesia multimodal reduzem significativamente o uso de opioide ao combinar paracetamol, anti-inflamatório, bloqueios de nervo e infiltração local. A meta é conforto com o menor uso possível de opioide, porque menos opioide significa menos náusea, menos sonolência e recuperação mais rápida.
Se eu estiver com artrose avançada, posso começar a fazer prehabilitação antes da cirurgia?
Sim — e é recomendado. A prehabilitação inclui exercícios específicos orientados por fisioterapeuta, controle dos fatores clínicos modificáveis (diabetes, anemia, tabagismo) e educação sobre o pós-operatório. A literatura mostra que pacientes que fazem prehab têm menos dor pós-operatória e recuperação funcional mais rápida. Converse com o seu ortopedista sobre um plano individualizado.
Minha cirurgia vai ser com alta no mesmo dia? Como saber?
Essa é uma decisão da equipe médica, não do paciente. O perfil que costuma permitir alta no mesmo dia envolve boa saúde geral, idade fisiológica preservada, bom suporte em casa, moradia sem obstáculos graves e possibilidade de acompanhamento próximo nas primeiras 48-72 horas. Se o seu perfil não se encaixar, a internação de 1 a 3 dias continua sendo o padrão adequado — e isso não é "pior", é o cuidado certo para o seu caso.
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