Artrose e Quedas Depois dos 60: O Que a Ciência Recomenda para Reduzir o Risco

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

Guia educativo baseado em evidência sobre como exercício, calçado e avaliação clínica reduzem o risco de queda em pacientes com artrose de joelho ou quadril.

Este artigo é informativo. As decisões sobre qualquer tratamento envolvem avaliação multidisciplinar da equipe médica — ortopedista, fisioterapeuta, geriatra e outros profissionais — considerando o quadro individual do paciente.

Quem tem artrose de joelho ou quadril e passou dos 60 anos conhece uma sensação específica: a insegurança ao descer uma escada, pisar em piso molhado ou atravessar a rua. Não é medo "da cabeça" — é o corpo avisando que o apoio mudou. A dor, a rigidez e a perda de força muscular alteram a forma como a pessoa caminha e se equilibra.

Em pacientes cuidadosamente selecionados, essa insegurança tem nome técnico: risco aumentado de queda. E, felizmente, a ciência tem acumulado evidência sobre o que funciona para reduzir esse risco — de forma segura, gradual e com acompanhamento profissional. O ponto de partida é entender que uma queda nunca acontece por um único motivo: o resultado depende do conjunto.

Este artigo reúne recomendações educativas baseadas em publicações recentes (2025-2026) sobre quatro pilares: por que a artrose eleva o risco, como o exercício atua, o papel do calçado e quando buscar avaliação especializada. A decisão sobre qual estratégia usar no seu caso é da sua equipe médica, que avalia o conjunto [1][2][3][4][5].

1. Por que a artrose aumenta o risco de quedas

Cerca de 1 em cada 3 pessoas com 65 anos ou mais cai pelo menos uma vez por ano, e a artrose contribui como uma das peças do quebra-cabeça [1]. Três mecanismos ajudam a explicar essa relação — e todos os três podem ser trabalhados.

O primeiro é a dor, que modifica o padrão de marcha. Para fugir do incômodo, a pessoa pisa de forma protetora, reduz o balanço dos braços e encurta o passo — e essa adaptação reduz a estabilidade.

O segundo é a fraqueza do quadríceps (músculo da frente da coxa), que costuma acompanhar a artrose de joelho. O quadríceps é o principal estabilizador do joelho durante a descida de escada, a mudança de direção e o levantar da cadeira. Quando ele enfraquece, o joelho fica menos confiável mesmo em superfícies planas.

O terceiro é a fragilidade, um estado de reserva física reduzida que envolve força, marcha, peso e energia. Um estudo longitudinal recente acompanhou adultos mais velhos e mostrou que a fragilidade apareceu associada tanto ao aparecimento quanto à piora da artrose em adultos mais velhos [1]. Ou seja: artrose e fragilidade caminham juntas, e cuidar de uma ajuda a proteger a outra. Para entender melhor, veja também o conteúdo sobre sarcopenia.

É importante entender que a queda não é "só falta de atenção" — é o corpo sinalizando que força, equilíbrio e condicionamento precisam de atenção profissional.

2. Exercício — o tratamento com mais evidência

Quando se pergunta "o que mais ajuda?", a resposta da literatura é consistente: exercício estruturado, feito com regularidade e com os componentes certos. Uma meta-análise em rede publicada em 2026 reuniu dezenas de estudos e avaliou qual tipo e qual "dose" de exercício mais melhoram o comportamento relacionado a quedas em idosos [2]. O padrão que apareceu como mais robusto combina três componentes: treino de equilíbrio, fortalecimento muscular e prática funcional (movimentos que imitam o dia a dia, como levantar-se, agachar e caminhar).

Outra revisão sistemática recente, também publicada em 2026, reforçou essa linha em idosos da comunidade: programas combinados reduziram quedas de forma clinicamente relevante, especialmente quando incluíram exercícios de equilíbrio dinâmico e força de membros inferiores [3].

Um estudo de prioridades internacionais em reabilitação para artrose de joelho e quadril, conduzido por um grupo ligado à OARSI, reafirmou que a atividade física e o exercício seguem como pilares centrais do manejo, com necessidade de individualização para comorbidades e preferências do paciente [4]. Isso tem uma implicação prática: o "exercício certo" para cada pessoa não é um protocolo único — ele é ajustado pelo fisioterapeuta em função da dor, do estágio da artrose, das outras doenças e das limitações.

Exemplos de componentes comumente indicados, sempre sob orientação profissional:

  • Ficar em pé em um só pé perto de um apoio (treino de equilíbrio).
  • Levantar e sentar da cadeira sem usar as mãos (força de quadríceps e glúteos).
  • Caminhar em linha reta colocando um pé na frente do outro ("tandem gait", treino proprioceptivo).

Esses exercícios são exemplos educativos — a prescrição real depende da avaliação clínica. Veja também o artigo sobre perda de peso e artrose, que interage diretamente com força e equilíbrio.

Em outros cenários — por exemplo, pacientes com instabilidade severa, pós-operatório recente ou doença cardiovascular descompensada — a abordagem pode ser diferente, com progressão mais gradual ou contraindicações específicas. Toda recomendação tem indicação e contraindicação.

3. O calçado importa — mais do que parece

Um fator frequentemente subestimado é o calçado usado no dia a dia. Uma revisão recente reuniu as recomendações sobre o tema para pessoas idosas, com atenção especial a quem tem risco de queda [5]. Os pontos principais convergem para quatro elementos: sola firme mas não escorregadia, contraforte (a parte de trás do sapato) que segura bem o calcanhar, salto baixo (≤ 2,5 cm) e ajuste seguro com cadarço ou velcro.

O que costuma atrapalhar na prática clínica:

  • Chinelos soltos dentro de casa, que exigem que os dedos fiquem "agarrando" o calçado para não sair.
  • Sapatos muito macios, que dobram facilmente e não oferecem apoio para o retropé.
  • Salto alto em dia de dor — mesmo ocasional, aumenta a sobrecarga no joelho e reduz a base de apoio.
  • Meias escorregadias em piso de madeira ou cerâmica, sem qualquer calçado.

Vale lembrar que essa recomendação é voltada ao ambiente doméstico e urbano de um paciente idoso com risco de queda. Em outros cenários — como prática esportiva, atividade militar ou trabalho — o calçado adequado é outro. Toda recomendação tem indicação e contraindicação, e a escolha depende do contexto de uso.

4. Quando buscar ajuda especializada

Procure seu médico ou fisioterapeuta se você se identifica com algum destes pontos:

  • Caiu ao menos uma vez nos últimos 12 meses.
  • Sente "quase caindo" ao virar-se, descer escada ou levantar do vaso sanitário.
  • Evita sair de casa ou reduziu atividades por medo de cair.
  • Percebe uma perna mais fraca, mais dolorida ou mais "bamba" que a outra.
  • Usa múltiplos remédios — alguns podem afetar equilíbrio e pressão.
  • Tem problemas recentes de visão, tontura ou perdas de equilíbrio.

Esses sinais pedem avaliação. Não são drama — são prevenção. Quem acompanha o seu quadro é a pessoa mais indicada para montar o plano: fisioterapeuta para o treino, ortopedista para o manejo da artrose, geriatra ou clínico para o olhar global, e, quando necessário, outros especialistas (oftalmologia, otorrinolaringologia, cardiologia). A decisão sobre qual estratégia usar no seu caso é da sua equipe médica, que avalia o conjunto. Conheça o Programa de Acompanhamento para pacientes com artrose.

Uma limitação honesta dos estudos citados: a maior parte dos ensaios é feita em populações selecionadas (idosos relativamente ativos, sem demência avançada, com adesão possível ao programa). Os resultados podem ser menores em pacientes com quadros mais complexos — o que reforça a importância de individualizar o plano [2][3][4].

Referencias

  1. Waghorn J et al. Associations of frailty with incident and progressive knee osteoarthritis in older adults. J Rheumatol. 2026. IF 3.6 link
  2. Cheng M, Ni J, Liu F, Wang S et al. Optimal type and dose of exercise to improve fall behavior in older adults: A systematic evaluation and network meta-analysis. Ageing Res Rev. 2026. IF 13.1 link
  3. Luo Y et al. Network meta-analysis of exercise interventions for fall prevention in community-dwelling older adults. Worldviews Evid Based Nurs. 2026. IF 3.7 link
  4. Bennell KL, Nelligan RK, Pardo JJ, Stratulate S, Holden MA et al. Research priorities for physical activity and exercise management of people with knee and hip osteoarthritis: A multi-stage international priority-setting study from the OARSI Rehabilitation Discussion Group. Osteoarthritis Cartilage. 2025. IF 5.8 link
  5. Cheever CR et al. Footwear recommendations for older adults to reduce fall risk. J Am Geriatr Soc. 2026. IF 4.7 link

Perguntas Frequentes

Se eu tenho dor na artrose, o exercício não vai piorar?

Na maior parte dos casos, o contrário: programas estruturados de exercício reduzem a dor a médio prazo e melhoram função em pessoas com artrose de joelho e quadril, quando acompanhados por um fisioterapeuta. A progressão respeita a dor — ela orienta o ajuste, não proíbe o movimento. Em casos de crise aguda ou lesão associada, a abordagem muda; por isso a avaliação individual é essencial.

Quanto tempo leva para o exercício fazer efeito na prevenção de queda?

Os programas revisados em metanálises recentes costumam mostrar benefício mensurável a partir de 8 a 12 semanas de prática regular, com melhora progressiva nos meses seguintes. O ganho real vem da manutenção — programas de longo prazo (≥ 6 meses) tendem a mostrar resultados mais robustos. A consistência importa mais que a intensidade inicial.

Qual sapato eu devo usar em casa?

A literatura aponta para calçados com sola firme mas não escorregadia, contraforte que segura o calcanhar, salto baixo (≤ 2,5 cm) e ajuste seguro com cadarço ou velcro. Chinelos soltos e meias sozinhas em piso liso costumam ser pontos de atenção. O calçado específico que melhor se encaixa no seu caso — inclusive o "sapato de casa" — faz parte da conversa com sua equipe.

Eu já caí uma vez. Isso significa que vou cair de novo?

Ter caído uma vez é um dos principais fatores associados a novas quedas — por isso toda queda (mesmo sem machucar) merece avaliação. Mas "fator de risco" não é destino: identificar o que contribuiu (força, remédios, visão, calçado, ambiente) permite agir sobre cada ponto. Esse é justamente o papel da avaliação multiprofissional.

Eu devo parar de andar na rua por medo de cair?

Parar de andar costuma piorar o quadro — reduz força, piora equilíbrio e aumenta o medo, num ciclo vicioso. O caminho com mais evidência é o oposto: trabalhar gradualmente as limitações com acompanhamento, começando em ambiente seguro e ampliando conforme a confiança aumenta. Essa progressão, quando feita com orientação profissional, tende a recuperar autonomia.

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