Este artigo é informativo. As decisões sobre qualquer tratamento envolvem avaliação multidisciplinar da equipe médica — ortopedista, fisioterapeuta, geriatra e outros profissionais — considerando o quadro individual do paciente.
Quem tem artrose de joelho ou quadril e passou dos 60 anos conhece uma sensação específica: a insegurança ao descer uma escada, pisar em piso molhado ou atravessar a rua. Não é medo "da cabeça" — é o corpo avisando que o apoio mudou. A dor, a rigidez e a perda de força muscular alteram a forma como a pessoa caminha e se equilibra.
Em pacientes cuidadosamente selecionados, essa insegurança tem nome técnico: risco aumentado de queda. E, felizmente, a ciência tem acumulado evidência sobre o que funciona para reduzir esse risco — de forma segura, gradual e com acompanhamento profissional. O ponto de partida é entender que uma queda nunca acontece por um único motivo: o resultado depende do conjunto.
Este artigo reúne recomendações educativas baseadas em publicações recentes (2025-2026) sobre quatro pilares: por que a artrose eleva o risco, como o exercício atua, o papel do calçado e quando buscar avaliação especializada. A decisão sobre qual estratégia usar no seu caso é da sua equipe médica, que avalia o conjunto [1][2][3][4][5].
1. Por que a artrose aumenta o risco de quedas
Cerca de 1 em cada 3 pessoas com 65 anos ou mais cai pelo menos uma vez por ano, e a artrose contribui como uma das peças do quebra-cabeça [1]. Três mecanismos ajudam a explicar essa relação — e todos os três podem ser trabalhados.
O primeiro é a dor, que modifica o padrão de marcha. Para fugir do incômodo, a pessoa pisa de forma protetora, reduz o balanço dos braços e encurta o passo — e essa adaptação reduz a estabilidade.
O segundo é a fraqueza do quadríceps (músculo da frente da coxa), que costuma acompanhar a artrose de joelho. O quadríceps é o principal estabilizador do joelho durante a descida de escada, a mudança de direção e o levantar da cadeira. Quando ele enfraquece, o joelho fica menos confiável mesmo em superfícies planas.
O terceiro é a fragilidade, um estado de reserva física reduzida que envolve força, marcha, peso e energia. Um estudo longitudinal recente acompanhou adultos mais velhos e mostrou que a fragilidade apareceu associada tanto ao aparecimento quanto à piora da artrose em adultos mais velhos [1]. Ou seja: artrose e fragilidade caminham juntas, e cuidar de uma ajuda a proteger a outra. Para entender melhor, veja também o conteúdo sobre sarcopenia.
É importante entender que a queda não é "só falta de atenção" — é o corpo sinalizando que força, equilíbrio e condicionamento precisam de atenção profissional.
2. Exercício — o tratamento com mais evidência
Quando se pergunta "o que mais ajuda?", a resposta da literatura é consistente: exercício estruturado, feito com regularidade e com os componentes certos. Uma meta-análise em rede publicada em 2026 reuniu dezenas de estudos e avaliou qual tipo e qual "dose" de exercício mais melhoram o comportamento relacionado a quedas em idosos [2]. O padrão que apareceu como mais robusto combina três componentes: treino de equilíbrio, fortalecimento muscular e prática funcional (movimentos que imitam o dia a dia, como levantar-se, agachar e caminhar).
Outra revisão sistemática recente, também publicada em 2026, reforçou essa linha em idosos da comunidade: programas combinados reduziram quedas de forma clinicamente relevante, especialmente quando incluíram exercícios de equilíbrio dinâmico e força de membros inferiores [3].
Um estudo de prioridades internacionais em reabilitação para artrose de joelho e quadril, conduzido por um grupo ligado à OARSI, reafirmou que a atividade física e o exercício seguem como pilares centrais do manejo, com necessidade de individualização para comorbidades e preferências do paciente [4]. Isso tem uma implicação prática: o "exercício certo" para cada pessoa não é um protocolo único — ele é ajustado pelo fisioterapeuta em função da dor, do estágio da artrose, das outras doenças e das limitações.
Exemplos de componentes comumente indicados, sempre sob orientação profissional:
- Ficar em pé em um só pé perto de um apoio (treino de equilíbrio).
- Levantar e sentar da cadeira sem usar as mãos (força de quadríceps e glúteos).
- Caminhar em linha reta colocando um pé na frente do outro ("tandem gait", treino proprioceptivo).
Esses exercícios são exemplos educativos — a prescrição real depende da avaliação clínica. Veja também o artigo sobre perda de peso e artrose, que interage diretamente com força e equilíbrio.
Em outros cenários — por exemplo, pacientes com instabilidade severa, pós-operatório recente ou doença cardiovascular descompensada — a abordagem pode ser diferente, com progressão mais gradual ou contraindicações específicas. Toda recomendação tem indicação e contraindicação.
3. O calçado importa — mais do que parece
Um fator frequentemente subestimado é o calçado usado no dia a dia. Uma revisão recente reuniu as recomendações sobre o tema para pessoas idosas, com atenção especial a quem tem risco de queda [5]. Os pontos principais convergem para quatro elementos: sola firme mas não escorregadia, contraforte (a parte de trás do sapato) que segura bem o calcanhar, salto baixo (≤ 2,5 cm) e ajuste seguro com cadarço ou velcro.
O que costuma atrapalhar na prática clínica:
- Chinelos soltos dentro de casa, que exigem que os dedos fiquem "agarrando" o calçado para não sair.
- Sapatos muito macios, que dobram facilmente e não oferecem apoio para o retropé.
- Salto alto em dia de dor — mesmo ocasional, aumenta a sobrecarga no joelho e reduz a base de apoio.
- Meias escorregadias em piso de madeira ou cerâmica, sem qualquer calçado.
Vale lembrar que essa recomendação é voltada ao ambiente doméstico e urbano de um paciente idoso com risco de queda. Em outros cenários — como prática esportiva, atividade militar ou trabalho — o calçado adequado é outro. Toda recomendação tem indicação e contraindicação, e a escolha depende do contexto de uso.
4. Quando buscar ajuda especializada
Procure seu médico ou fisioterapeuta se você se identifica com algum destes pontos:
- Caiu ao menos uma vez nos últimos 12 meses.
- Sente "quase caindo" ao virar-se, descer escada ou levantar do vaso sanitário.
- Evita sair de casa ou reduziu atividades por medo de cair.
- Percebe uma perna mais fraca, mais dolorida ou mais "bamba" que a outra.
- Usa múltiplos remédios — alguns podem afetar equilíbrio e pressão.
- Tem problemas recentes de visão, tontura ou perdas de equilíbrio.
Esses sinais pedem avaliação. Não são drama — são prevenção. Quem acompanha o seu quadro é a pessoa mais indicada para montar o plano: fisioterapeuta para o treino, ortopedista para o manejo da artrose, geriatra ou clínico para o olhar global, e, quando necessário, outros especialistas (oftalmologia, otorrinolaringologia, cardiologia). A decisão sobre qual estratégia usar no seu caso é da sua equipe médica, que avalia o conjunto. Conheça o Programa de Acompanhamento para pacientes com artrose.
Uma limitação honesta dos estudos citados: a maior parte dos ensaios é feita em populações selecionadas (idosos relativamente ativos, sem demência avançada, com adesão possível ao programa). Os resultados podem ser menores em pacientes com quadros mais complexos — o que reforça a importância de individualizar o plano [2][3][4].
Referencias
- Waghorn J et al. Associations of frailty with incident and progressive knee osteoarthritis in older adults. J Rheumatol. 2026. IF 3.6 link
- Cheng M, Ni J, Liu F, Wang S et al. Optimal type and dose of exercise to improve fall behavior in older adults: A systematic evaluation and network meta-analysis. Ageing Res Rev. 2026. IF 13.1 link
- Luo Y et al. Network meta-analysis of exercise interventions for fall prevention in community-dwelling older adults. Worldviews Evid Based Nurs. 2026. IF 3.7 link
- Bennell KL, Nelligan RK, Pardo JJ, Stratulate S, Holden MA et al. Research priorities for physical activity and exercise management of people with knee and hip osteoarthritis: A multi-stage international priority-setting study from the OARSI Rehabilitation Discussion Group. Osteoarthritis Cartilage. 2025. IF 5.8 link
- Cheever CR et al. Footwear recommendations for older adults to reduce fall risk. J Am Geriatr Soc. 2026. IF 4.7 link
Perguntas Frequentes
Se eu tenho dor na artrose, o exercício não vai piorar?
Na maior parte dos casos, o contrário: programas estruturados de exercício reduzem a dor a médio prazo e melhoram função em pessoas com artrose de joelho e quadril, quando acompanhados por um fisioterapeuta. A progressão respeita a dor — ela orienta o ajuste, não proíbe o movimento. Em casos de crise aguda ou lesão associada, a abordagem muda; por isso a avaliação individual é essencial.
Quanto tempo leva para o exercício fazer efeito na prevenção de queda?
Os programas revisados em metanálises recentes costumam mostrar benefício mensurável a partir de 8 a 12 semanas de prática regular, com melhora progressiva nos meses seguintes. O ganho real vem da manutenção — programas de longo prazo (≥ 6 meses) tendem a mostrar resultados mais robustos. A consistência importa mais que a intensidade inicial.
Qual sapato eu devo usar em casa?
A literatura aponta para calçados com sola firme mas não escorregadia, contraforte que segura o calcanhar, salto baixo (≤ 2,5 cm) e ajuste seguro com cadarço ou velcro. Chinelos soltos e meias sozinhas em piso liso costumam ser pontos de atenção. O calçado específico que melhor se encaixa no seu caso — inclusive o "sapato de casa" — faz parte da conversa com sua equipe.
Eu já caí uma vez. Isso significa que vou cair de novo?
Ter caído uma vez é um dos principais fatores associados a novas quedas — por isso toda queda (mesmo sem machucar) merece avaliação. Mas "fator de risco" não é destino: identificar o que contribuiu (força, remédios, visão, calçado, ambiente) permite agir sobre cada ponto. Esse é justamente o papel da avaliação multiprofissional.
Eu devo parar de andar na rua por medo de cair?
Parar de andar costuma piorar o quadro — reduz força, piora equilíbrio e aumenta o medo, num ciclo vicioso. O caminho com mais evidência é o oposto: trabalhar gradualmente as limitações com acompanhamento, começando em ambiente seguro e ampliando conforme a confiança aumenta. Essa progressão, quando feita com orientação profissional, tende a recuperar autonomia.
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