Este artigo é informativo. As decisões sobre qualquer tratamento envolvem avaliação da equipe médica — cirurgião, anestesista, clínico, fisioterapeuta, enfermagem — considerando o quadro individual de cada paciente.
Quem vai fazer uma prótese de quadril ou uma prótese de joelho quase sempre faz, em algum momento da preparação, a mesma pergunta: "Vou sentir muita dor?". É uma pergunta legítima, e merece uma resposta completa — porque a dor depois da cirurgia não é só desconforto passageiro [1].
Segundo a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS), o controle inadequado da dor depois da artroplastia (cirurgia de substituição da articulação por uma prótese) pode aumentar o tempo de internação, elevar os custos hospitalares, aumentar o risco de complicações clínicas — entre elas a trombose venosa profunda (entupimento de veias das pernas por um coágulo), a pneumonia por imobilidade (pneumonia causada pelo paciente ficar muito tempo parado na cama) e o delirium (confusão mental aguda do paciente idoso) — e, talvez o mais importante, atrasar a reabilitação [1].
O conceito central da evolução recente é o protocolo multimodal: usar várias ferramentas em conjunto, cada uma atuando em um ponto diferente do caminho da dor, para oferecer um controle mais estável e reduzir o consumo de opioides (remédios fortes para dor, derivados ou parentes da morfina) [1][2][3][4]. Este artigo é o tema central sobre manejo da dor na prótese de quadril e de joelho — explica o conjunto, separando o que se aplica à prótese de quadril, o que se aplica à prótese de joelho e o que é comum às duas cirurgias. Cada peça do protocolo é aprofundada em um subartigo relacionado.
1. Como a dor funciona depois da cirurgia de prótese
Para entender por que o protocolo usa várias ferramentas em vez de "um remédio forte", vale uma explicação rápida sobre como o sinal de dor chega ao cérebro depois de uma cirurgia ortopédica grande.
A Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS) divide a dor que aparece depois da prótese em três grandes tipos, que convivem nas primeiras semanas [1]:
- Dor nociceptiva (dor do trauma cirúrgico direto no osso e nos tecidos moles). É a dor "mecânica" da incisão, do corte no osso, do manuseio da articulação e da colocação do implante. Aparece logo após a cirurgia e segue por alguns dias.
- Dor inflamatória (dor causada pela liberação de substâncias inflamatórias nos tecidos operados). As principais dessas substâncias são as citocinas e prostaglandinas (mediadores químicos da inflamação, as mesmas substâncias que fazem um corte no dedo ficar vermelho e inchado). Costuma piorar nas primeiras 24 a 48 horas e é justamente a que os anti-inflamatórios sem cortisona (conhecidos pela sigla AINEs) combatem especificamente.
- Dor neuropática (dor causada por um nervo irritado, comprimido ou lesado). Menos comum nas primeiras semanas, mas importante quando a dor persiste além de 3 meses.
A anatomia e a inervação de cada articulação são diferentes — e as ferramentas do protocolo acompanham essa diferença.
Anatomia em torno da prótese de quadril
Ao redor do quadril passam grandes nervos motores e sensitivos: o ciático (atrás), o femoral (na frente), o glúteo superior (lateral) e o obturador (medial, na parte interna). Cada um cobre uma região diferente, o que explica por que a dor no quadril operado não é igual em todo paciente: um pode sentir mais a dor do lado de fora, outro na virilha, outro na coxa. A AAOS descreve que lesões nesses nervos acontecem em 0,6% a 3,7% dos casos de prótese de quadril — são uma causa conhecida de insatisfação no pós-operatório e precisam entrar no consentimento informado (conversa de preparação que o paciente tem com o cirurgião antes de operar) [1].
Um detalhe específico do acesso anterior direto (via cirúrgica que passa entre os músculos sem cortá-los, e que tem ganhado espaço na prótese de quadril nos últimos anos) é o risco ao nervo cutâneo lateral da coxa (nervo que dá sensibilidade à parte de fora da coxa). A AAOS cita uma taxa de 14% a 81% de neuroapraxia (lesão temporária e reversível do nervo, sem corte da fibra nervosa) por essa via, o que gera uma sensação de "formigamento" ou "coxa anestesiada" na parte lateral. Normalmente é leve, melhora com o tempo e raramente traz perda de função — mas precisa ser conversada antes da cirurgia [1].
Anatomia em torno da prótese de joelho
No joelho, a inervação é mais complexa e mais superficial. Os principais nervos envolvidos são: o safeno (um ramo do nervo femoral que desce pela face interna do joelho), ramos do ciático na parte de trás, os nervos geniculares (uma rede de pequenos nervos que cerca a cápsula da articulação) e ramos mais superficiais na frente. Lesões nominais de grandes nervos na prótese de joelho são raras, mas a dor costuma ser mais intensa nas primeiras 48 horas do que no quadril — por isso o joelho tem peculiaridades no protocolo, como bloqueios regionais específicos, uso maior de crioterapia (tratamento com frio controlado) e fisioterapia precoce com atenção redobrada ao consumo de opioide [1].
2. O que o protocolo multimodal é — e o que NÃO é
Antes de apresentar as peças, vale deixar claro o enquadramento para quem vai fazer prótese de quadril ou prótese de joelho:
- O protocolo multimodal não promete "zero dor" no dia da cirurgia. Isso não é realista, nem é o objetivo. O objetivo é dor tolerável, controle estável e reabilitação possível.
- É o uso combinado de várias ferramentas para controlar a dor de forma adequada e reduzir o consumo de opioides (remédios fortes) [1].
- Cada ferramenta tem indicação e contraindicação — nenhuma serve para todo paciente. O que vale para um paciente jovem e sem comorbidades (outras doenças associadas) pode não valer para um idoso com doença renal crônica (problema persistente de funcionamento dos rins).
- Existe porque nenhum remédio sozinho resolve os três tipos de dor (nociceptiva, inflamatória e neuropática). Cada classe de remédio ataca um ponto diferente do circuito, e a combinação cobre o que uma classe isolada não cobriria.
- O objetivo final continua sendo a prótese bem indicada, bem feita tecnicamente, e a reabilitação bem executada. A analgesia (controle da dor) é um dos meios para chegar lá, não um fim em si.
3. Os 3 pilares medicamentosos (AAOS / AAHKS) aplicados a quadril e joelho
A Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS), em parceria com a American Association of Hip and Knee Surgeons (AAHKS — Associação Americana de Cirurgiões de Quadril e Joelho), publicou em 2020 três diretrizes de prática clínica (documentos que reúnem a melhor evidência disponível e orientam a prática médica) no Journal of Arthroplasty, organizando o uso de remédios em torno de três pilares principais. Essas diretrizes valem tanto para a prótese de quadril quanto para a prótese de joelho, com algumas nuances específicas de cada articulação [2][3][4].
Primeiro pilar — paracetamol (acetaminofeno)
Remédio analgésico básico, também usado para febre. Uso rotineiro em quase todos os pacientes elegíveis. Segundo a diretriz de Fillingham e colaboradores (2020), a via intravenosa (pela veia) e a via oral (pela boca) têm eficácia equivalente. É um remédio com perfil de segurança benigno, custo baixo e recomendado como base dos regimes multimodais. Vale igualmente para quadril e para joelho. A dose usual é 1 grama de 6 em 6 horas, sem ultrapassar 4 gramas em 24 horas, com ajuste em pacientes com doença hepática (problema no fígado) [2].
Segundo pilar — anti-inflamatórios sem cortisona (AINEs)
Uso rotineiro, com atenção à função renal (dos rins), ao estômago e à idade. A diretriz de Hannon e colaboradores (2020) demonstrou que o uso de AINEs em pré e pós-operatório reduz o consumo de opioide nas duas cirurgias (prótese de quadril e prótese de joelho). Atenção especial em idosos, em pacientes com doença renal crônica e em quem tem dispepsia (problema crônico de estômago, como queimação e gastrite) — nesses casos a dose e a frequência devem ser limitadas, e o AINE deve ser combinado com um protetor gástrico [3].
Particularidade da prótese de quadril: os AINEs também são usados como profilaxia (prevenção) da ossificação heterotópica (formação de osso fora do lugar, em região de tecido mole ao redor do quadril operado). Esse detalhe não se aplica ao joelho da mesma forma [1].
Terceiro pilar — opioides
Remédios fortes para dor, derivados ou parentes da morfina. Uso apenas quando necessário, em doses baixas, sob demanda, nunca em horário fixo. A diretriz de Hannon e colaboradores (2020) sobre opioides orienta que o uso agendado pode aumentar o risco de complicações, como sedação excessiva, depressão respiratória (queda da frequência respiratória por efeito da medicação), constipação (prisão de ventre) e delirium (confusão mental aguda no idoso) [4]. Tanto na prótese de joelho quanto na prótese de quadril, muitos centros preferem começar com tramadol (opioide fraco) na transição do hospital para casa; a oxicodona (opioide forte) fica reservada para dor mais intensa, sempre na menor dose que funcione [4].
Sobre esses três pilares, o protocolo adiciona outras ferramentas: pregabalina (remédio que acalma nervos sensibilizados, classe dos gabapentinoides), ácido tranexâmico (medicação que reduz o sangramento durante e depois da cirurgia), bloqueios de nervo guiados por ultrassom, injeção periarticular (injeção feita pelo próprio cirurgião no campo operado) e crioterapia (aplicação controlada de frio). A combinação é o que permite reduzir a dor e o consumo de opioide ao mesmo tempo [1].
4. Analgesia preemptiva: medicar antes da dor começar
A analgesia preemptiva (estratégia de medicar o paciente antes da incisão, com o objetivo de bloquear a sensibilização dos nervos antes que a dor se instale) é uma peça central do protocolo. A Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS) apresenta um protocolo exemplo separado por idade, que vale para as duas cirurgias (quadril e joelho) [1]:
Pacientes com menos de 80 anos:
- paracetamol 1g por via oral (pela boca)
- pregabalina 150mg por via oral
Pacientes com mais de 80 anos:
- paracetamol 1g por via oral
- meloxicam 7,5mg (um anti-inflamatório sem cortisona de meia-vida longa) por via oral, apenas se a função renal estiver preservada — definida como filtração glomerular (exame de sangue que mede a função dos rins) acima de 59 mL/min/1,73m²
Por que a troca em pacientes acima de 80 anos? A AAOS explica que a pregabalina e os demais gabapentinoides (pregabalina e gabapentina, classe que age em nervos sensibilizados) têm maior risco de causar sonolência, tontura e sedação nessa faixa etária — especialmente se o paciente já usa opioide de uso contínuo ou tem alguma dificuldade cognitiva prévia. Por isso, no paciente mais velho, o protocolo exemplo substitui a pregabalina por um AINE em dose baixa, com a trava da função renal preservada [1].
O estudo de Passias e colaboradores (2023), no Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery, reforça essa estratégia: mostrou redução modesta, porém significativa, da dor precoce e do consumo de opioides no pós-operatório com a abordagem preemptiva em prótese total de quadril e prótese total de joelho [5].
5. Bloqueios de nervo periférico: peculiaridade da prótese de joelho
Os bloqueios periféricos (bloqueios de nervo individual em um membro, por meio de injeção de anestésico local guiada por ultrassom) são técnicas usadas pela equipe de anestesia antes ou logo após a cirurgia. A maior parte dos bloqueios é usada principalmente na prótese de joelho — o joelho tem nervos mais superficiais e mais acessíveis.
Os principais bloqueios da prótese de joelho
- Bloqueio do canal dos adutores (ACB, sigla de adductor canal block). Aplicado no meio da coxa, o canal dos adutores é o espaço anatômico onde passa o nervo safeno. O bloqueio alivia a face medial (interna) e anterior (da frente) do joelho operado. Tem uma grande vantagem: preserva a força do quadríceps (músculo da frente da coxa, responsável por estender o joelho), o que é crítico para a fisioterapia precoce e reduz o risco de quedas no pós-operatório [1].
- Infiltração posterior do joelho (conhecida como iPACK, infiltração entre a artéria poplítea e a cápsula posterior do joelho). Complementa a cobertura na parte de trás da articulação, onde o ACB não alcança [1].
- O bloqueio do nervo femoral, muito usado no passado, hoje é pouco indicado exatamente porque enfraquece o quadríceps e aumenta o risco de queda — um trade-off (troca entre custos e benefícios) que deixou de fazer sentido com a chegada do ACB [1].
Bloqueios na prótese de quadril
Na prótese de quadril, os bloqueios periféricos são menos padronizados. Existem opções em crescimento, como o bloqueio do plano do músculo eretor da espinha e o bloqueio PENG (pericapsular nerve group — bloqueio do grupo de nervos que inerva a cápsula do quadril). A evidência científica desses bloqueios ainda é menos robusta do que a dos bloqueios do joelho, mas tem avançado nos últimos anos [1].
Leia o artigo completo sobre bloqueios de nervo na prótese de joelho →
6. Injeção periarticular e ácido tranexâmico: o que o cirurgião faz durante a cirurgia (comum a quadril e joelho)
Duas ferramentas aplicadas no centro cirúrgico pelo próprio cirurgião, em ambas as cirurgias.
Injeção periarticular (PAI)
PAI, sigla em inglês para periarticular injection, é a injeção de anestésico local combinado com outras substâncias nos tecidos ao redor do implante. É aplicada pelo próprio cirurgião no campo operado, em tecidos ricos em receptores de dor (cápsula articular, tecidos moles ao redor da prótese). Pode ser combinada com bloqueios periféricos e com raquianestesia (anestesia na coluna que adormece da cintura para baixo). Estudos mostram que a PAI reduz o consumo de opioide nas primeiras 24 horas, tanto na prótese de quadril quanto na prótese de joelho [1].
Ácido tranexâmico (TXA)
Medicação que atua na coagulação e reduz o sangramento durante e depois da cirurgia, diminuindo a necessidade de transfusão de sangue. Pode ser administrado por via intravenosa (na veia), oral (pela boca) ou tópica (diretamente no campo operatório). É usado rotineiramente nas duas cirurgias, mas com impacto especialmente maior na prótese de joelho, que historicamente sangra mais do que a do quadril [1].
Leia o artigo completo sobre injeção periarticular e ácido tranexâmico →
7. Pós-operatório multimodal com menos opioide (comum às duas cirurgias, com nuances)
Como o protocolo continua na enfermaria e em casa. Paracetamol em horário fixo, AINE conforme tolerância renal e gástrica, opioide apenas sob demanda e em dose baixa, pregabalina com critério seletivo para dor mais intensa ou com componente neuropático (dor do nervo irritado) [1][4].
A regra mais importante: opioide nunca agendado — sempre sob demanda. A prescrição agendada aumenta o consumo total e o risco de efeitos colaterais sem benefício adicional na dor [4].
Na prótese de joelho
A crioterapia (aplicação controlada de frio, seja por bolsa de gelo ou por aparelho de resfriamento contínuo) tem papel maior — o joelho tem mais edema (inchaço) e a redução da temperatura ajuda a diminuir a dor inflamatória. A AAOS recomenda manter a temperatura em torno de 0°C ou um pouco acima, nunca em contato direto com a pele, para evitar queimadura por frio [1].
Na prótese de quadril
A crioterapia também pode ser usada, mas é logisticamente mais difícil de adaptar àquela região anatômica. A profilaxia de ossificação heterotópica com AINEs, no entanto, é uma peculiaridade da prótese de quadril que não tem equivalente no joelho [1].
8. Cuidados no paciente idoso (comum a quadril e joelho)
A maioria dos pacientes de prótese eletiva é idosa, e o protocolo precisa se adaptar nas duas cirurgias. Opioides em doses e intervalos reduzidos pelo menor clearance renal (capacidade dos rins de eliminar a medicação da circulação) e clearance hepático (capacidade do fígado de eliminar a medicação) e pelo maior risco de depressão respiratória (queda da frequência respiratória por efeito da medicação). AINEs evitados em doença renal crônica, dispepsia (problema crônico de estômago) ou em uso concomitante de anticoagulantes (medicações que reduzem a coagulação do sangue) [1].
Pregabalina e gabapentinoides avaliados com cautela — uma meta-análise (tipo de estudo que junta e analisa os resultados de vários trabalhos científicos para gerar uma estimativa mais robusta) de 17 estudos mostrou que, no geral, os gabapentinoides não reduzem a dor pós-operatória; apenas a pregabalina reduz o consumo de opioide, e ainda assim com custo de sonolência e tontura no idoso [1].
Em muitos casos, o protocolo do idoso substitui pregabalina por AINE de curta duração, foca em paracetamol, bloqueios de nervo e injeção periarticular — reduzindo ao máximo o opioide sistêmico [1].
9. Dor crônica após a prótese (comum, com epidemiologia diferente)
A dor crônica é definida pela Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP, International Association for the Study of Pain) como dor que persiste por 3 meses ou mais após a cirurgia. Os fatores de risco gerais — sexo feminino, dor pré-operatória intensa, baixo status funcional (capacidade de realizar atividades do dia a dia) antes da cirurgia, ansiedade, depressão, insuficiência cardíaca, condição socioeconômica desfavorável — valem para as duas cirurgias [1].
Do ponto de vista de epidemiologia (quantos pacientes são afetados em uma população), a dor crônica pós-prótese de joelho é mais prevalente do que a pós-prótese de quadril (cerca de 15-20% contra 10-15%, em diferentes séries publicadas) [1].
Técnicas em estudo para pacientes com dor persistente
- Ablação por radiofrequência dos nervos geniculares (técnica que usa corrente elétrica de alta frequência para desligar pequenos nervos ao redor do joelho, interrompendo temporariamente a transmissão do sinal de dor) [1].
- Crioneurólise (congelamento temporário do nervo para reduzir a dor, causando degeneração controlada e reversível da fibra nervosa) [1].
A própria AAOS classifica a evidência atual dessas técnicas como limitada. Na prótese de quadril, as opções de "desligar o nervo" são menos desenvolvidas, porque a anatomia do quadril é mais profunda e o acesso aos nervos que cercam a articulação é tecnicamente mais difícil [1].
10. Populações especiais — adolescentes e usuários crônicos de opioide
A AAOS destaca dois outros grupos que exigem cuidados específicos, igualmente importantes para prótese de quadril e de joelho [1].
Adolescentes (10 a 19 anos, pela definição da Organização Mundial da Saúde — OMS)
Casos raros, geralmente por artrite idiopática juvenil (doença inflamatória das articulações de início na infância, sem causa conhecida) no joelho ou por osteonecrose da cabeça femoral (morte do tecido ósseo na parte superior do fêmur por falta de suprimento sanguíneo) no quadril. Nesses pacientes, a educação da família e o acolhimento emocional são fundamentais; os opioides são usados na menor dose e pelo menor tempo possível; quando a dor persiste, o tratamento preferencial combina fisioterapia, terapia cognitivo-comportamental (modalidade de psicoterapia focada em padrões de pensamento e comportamento) e suporte psicológico [1].
Usuários crônicos de opioide
Pacientes que já fazem uso contínuo de opioides por outras razões antes da cirurgia. Estão associados a piores resultados funcionais e maior consumo de opioide no pós-operatório, em ambas as cirurgias. Exigem abordagem multidisciplinar antes da cirurgia: consulta psiquiátrica para diagnosticar e tratar depressão, ansiedade ou transtornos de humor eventualmente presentes; bloqueios de nervo quando aplicáveis (especialmente no joelho); anestesia neuraxial (raquianestesia ou peridural, que age na coluna) e um protocolo multimodal rigoroso. Diálogo próximo com o especialista em dor antes, durante e depois da cirurgia [1].
Essa individualização é o oposto de "um protocolo igual para todo mundo". A escolha do esquema, em cada caso, é uma decisão da equipe médica, não um algoritmo genérico.
11. O que isso significa para quem vai operar em breve
A evolução do controle da dor em artroplastia é um dos capítulos mais consistentes da ortopedia moderna dos últimos 20 anos. A combinação de medidas pré-operatórias (analgesia preemptiva e psicoeducação do paciente), intra-operatórias (bloqueios regionais, injeção periarticular, ácido tranexâmico) e pós-operatórias (protocolo multimodal com o mínimo necessário de opioide), todas atuando em pontos diferentes do caminho da dor, permite controle mais estável, reabilitação mais precoce e menor dependência de opioides fortes — sem promessa de "zero dor" e sem eleger nenhuma técnica, sozinha, como "a chave" do resultado [1].
A prótese de quadril e a prótese de joelho compartilham a maior parte desse protocolo, mas cada articulação tem suas peculiaridades:
- A prótese de joelho depende mais dos bloqueios periféricos (especialmente o canal dos adutores) e da crioterapia; a dor inicial é mais intensa; a dor crônica é mais prevalente (15-20%).
- A prótese de quadril tem mais peso na profilaxia da ossificação heterotópica com AINEs e em uma anatomia nervosa mais profunda, que torna os bloqueios periféricos ainda em evolução; a dor crônica é menos prevalente (10-15%).
Alguns pontos práticos para quem vai operar:
- Converse com sua equipe médica sobre o plano de analgesia. Saber com antecedência o que será usado antes, durante e depois da cirurgia reduz ansiedade e melhora a expectativa.
- Entenda que opioide é parte do plano, não o plano inteiro. O objetivo é usar doses baixas, sob demanda, e suspender assim que possível.
- Reabilitação precoce é parte do controle da dor. Movimento guiado pelo fisioterapeuta ajuda a reduzir a dor mecânica e melhora a função.
O controle da dor na cirurgia de prótese (de quadril ou de joelho) é uma das peças do resultado — importante, mas não a única. Depende também da equipe de anestesia, da fisioterapia, da enfermagem, do suporte familiar em casa e das condições clínicas individuais de cada paciente. A decisão sobre qual protocolo de dor usar no seu caso é exclusiva do seu médico, que avalia o conjunto — seu quadro clínico, seus exames, suas comorbidades, seu histórico de uso de medicação e seus objetivos pessoais. Este artigo é informativo e não substitui a consulta.
Referencias
- Gabrielli AS, Mulpuri P, Reddy AVG, Lonner JH, Yakkanti IR. Pain Management Strategies for Joint Replacement Surgery. In: Orthopaedic Knowledge Update — Hip and Knee Reconstruction. American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS); 2026. link
- Fillingham YA, Hannon CP, Erens GA, Hamilton WG, Della Valle CJ. Acetaminophen in Total Joint Arthroplasty: The Clinical Practice Guidelines of the American Association of Hip and Knee Surgeons (AAHKS), American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS), Hip Society, Knee Society, and American Society of Regional Anesthesia. J Arthroplasty 2020;35(10):2697-2699. link
- Hannon CP, Fillingham YA, Nam D, et al. The Efficacy and Safety of Nonsteroidal Anti-Inflammatory Drugs in Total Joint Arthroplasty: AAHKS/AAOS Clinical Practice Guideline. J Arthroplasty 2020;35(10):2704-2708. link
- Hannon CP, Fillingham YA, Browne JA, et al. Opioids in Total Joint Arthroplasty: AAHKS/AAOS Clinical Practice Guideline. J Arthroplasty 2020;35(10):2709-2714. link
- Passias BJ, Johnson DB, Schuette HB, Secic M, Heilbronner B, Hyland SJ, et al. Preemptive Multimodal Analgesia and Post-operative Pain Outcomes in Total Hip and Total Knee Arthroplasty. Arch Orthop Trauma Surg 2023;143(5):2401-2407. link
Perguntas Frequentes
O protocolo multimodal elimina a dor da cirurgia de prótese?
Não. O objetivo não é "zero dor" no dia da cirurgia — isso não é realista. O protocolo combina várias ferramentas com mecanismos diferentes (paracetamol, anti-inflamatórios sem cortisona, opioides em dose baixa, bloqueios de nervo, injeção periarticular, ácido tranexâmico) para oferecer controle mais estável e reduzir o uso de opioides fortes, tornando a recuperação mais confortável e previsível, tanto na prótese de quadril quanto na prótese de joelho.
Vou precisar tomar opioide depois da prótese de quadril ou joelho?
Geralmente sim, mas em doses baixas e apenas quando necessário. A recomendação da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS) e da American Association of Hip and Knee Surgeons (AAHKS) é que o opioide seja prescrito sob demanda (não agendado) e suspenso assim que possível. A maior parte do controle da dor é feito pelos outros pilares: paracetamol, anti-inflamatórios sem cortisona, bloqueios de nervo e injeção periarticular.
Posso tomar anti-inflamatório sem cortisona depois da prótese?
Na maioria dos casos sim, mas depende da função do seu rim, do seu estômago, da sua idade e das medicações que você já usa. A avaliação é individual. A diretriz AAOS/AAHKS recomenda uso rotineiro de anti-inflamatórios sem cortisona (AINEs) no pós-operatório de prótese, com monitoramento dos efeitos colaterais. Na prótese de quadril, os AINEs também têm papel adicional na profilaxia da ossificação heterotópica (formação de osso fora do lugar).
O bloqueio do canal dos adutores pode fraquejar minha perna?
O bloqueio do canal dos adutores (ACB) é especificamente escolhido na prótese de joelho por ser poupador motor — cobre os nervos sensitivos (nervo safeno) sem comprometer significativamente a força do quadríceps, permitindo que você levante e caminhe logo após a cirurgia. Bloqueios mais antigos como o bloqueio do nervo femoral causam fraqueza maior do quadríceps e hoje são menos usados exatamente pelo risco de queda no pós-operatório.
E se a dor continuar depois de 3 meses da prótese?
Dor persistente além de 3 meses precisa ser investigada — infecção, instabilidade, afrouxamento e causas fora da articulação (coluna, outra articulação) precisam ser descartadas antes de qualquer tratamento sintomático. Se a investigação confirmar dor crônica sem causa estrutural, existem técnicas em avaliação (ablação por radiofrequência dos nervos geniculares, crioneurólise), com evidência ainda limitada segundo a AAOS. A dor crônica pós-prótese de joelho (15-20%) é mais prevalente do que a pós-prótese de quadril (10-15%).
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