Este artigo é informativo. As decisões sobre qualquer tratamento envolvem a avaliação da sua equipe médica — que considera seus exames, suas outras doenças, suas expectativas e o seu caso individual. Nenhum texto substitui essa conversa.
"O PRP — sigla de plasma rico em plaquetas, um concentrado preparado a partir do sangue do próprio paciente — regenera a cartilagem" é uma das frases mais repetidas em anúncios de tratamento para artrose de joelho. Ela é atraente porque responde exatamente ao medo de quem tem artrose: a cartilagem gastou, e a esperança é que algo a faça voltar.
Só que essa frase tem um problema. Ela é testável — e foi testada. Este artigo mostra o que aconteceu quando pesquisadores pararam de perguntar ao paciente como ele se sentia e passaram a medir a cartilagem por ressonância magnética.

1. A pergunta certa: sentir melhor não é a mesma coisa que regenerar
Existem duas perguntas completamente diferentes escondidas dentro de "o PRP funciona?".
A primeira é sintomática: a dor diminui? A função melhora? A segunda é estrutural: a cartilagem, que é o tecido que se perdeu, volta a existir? Um tratamento pode responder sim à primeira e não à segunda — e essa distinção costuma se perder quando a informação chega ao paciente pela publicidade.
Confundir as duas não é um detalhe técnico. Um paciente que acredita estar regenerando a articulação toma decisões diferentes: adia mudanças que ajudariam de verdade, repete aplicações esperando um efeito acumulado que não foi demonstrado, e às vezes direciona a um único tratamento um investimento que poderia ser dividido com outras frentes do cuidado.
Se a sua pergunta é sobre alívio de sintomas, ela está respondida em PRP no joelho funciona? o que a ciência recente diz. Aqui tratamos só da segunda pergunta.
2. O ensaio que mediu a cartilagem, e não a sensação
Em 2021, a revista JAMA publicou o ensaio RESTORE [1]. Ele foi desenhado justamente para separar as duas perguntas acima, e teve dois resultados principais definidos antes de o estudo começar, ou seja, o que os pesquisadores se comprometeram a medir: a mudança na dor do joelho e a variação percentual do volume de cartilagem da tíbia medial, medida por ressonância magnética [1].
O desenho é o que dá peso ao resultado. Foram 288 participantes com 50 anos ou mais e artrose medial sintomática de joelho (graus 2 ou 3 na classificação de Kellgren-Lawrence, que mede no raio-X o desgaste visível, numa escala de 0 a 4), sorteados para receber três injeções semanais de PRP pobre em leucócitos, isto é, preparado com poucas células de defesa, ou de soro fisiológico como placebo [1]. Paciente, aplicador e avaliador ficaram cegos, e 93% completaram os 12 meses de seguimento [1].
O resultado, aos 12 meses: a variação média do volume da cartilagem tibial medial foi de −1,4% no grupo PRP contra −1,2% no grupo placebo — diferença de −0,2%, pequena o bastante para ser explicada pelo acaso [1]. Na dor, a diferença também não foi significativa [1]. Das 31 medidas secundárias avaliadas, 29 não mostraram diferença entre os grupos [1].
Traduzindo: nos dois grupos a cartilagem continuou diminuindo, praticamente no mesmo ritmo. Neste ensaio, o PRP não conteve essa perda nem a reverteu.
3. "Mas eu vi um estudo que mostrou melhora na ressonância"
Provavelmente viu — e essa objeção merece uma resposta honesta em vez de ser ignorada.
Existem estudos menores que relatam alguma mudança em escores de ressonância depois do PRP. Um ensaio de 2026, por exemplo, com 70 pacientes, descreveu redução no escore WORMS, uma pontuação que soma vários achados da ressonância, no grupo PRP [2]. Outro, com 58 pacientes, encontrou redução do edema, ou inchaço, do osso logo abaixo da cartilagem, aos 12 meses no grupo que recebeu PRP associado a ácido hialurônico, embora sem superioridade clínica sobre o ácido hialurônico isolado [3].
Por que, então, o RESTORE pesa mais? Por três motivos concretos, e nenhum deles é "porque saiu numa revista melhor":
- Tamanho. 288 pacientes contra 70 e 58. Estudos pequenos oscilam muito, e é comum que um achado positivo isolado desapareça quando o estudo é repetido em escala.
- Comparador. O RESTORE comparou com placebo injetado. Comparar PRP com outra substância ativa, como no estudo de 58 pacientes [3], responde outra pergunta.
- O que foi medido. O RESTORE mediu volume de cartilagem, que é a estrutura em questão. Escores compostos de ressonância misturam vários achados, e edema de medula óssea não é cartilagem.
A leitura equilibrada não é "todos os outros estudos estão errados". É que, quando a pergunta estrutural foi feita no ensaio de maior porte e com placebo, a resposta foi negativa — e uma promessa comercial precisa de bem mais do que sinais isolados para ser feita a um paciente.
4. E é justamente isso que a nova regra do CFM proíbe prometer
Esse ponto deixou de ser apenas científico e passou a ser também normativo no Brasil.
A Resolução CFM 2.464/2026, em vigor desde 15 de julho de 2026, autorizou o uso do PRP em situações específicas, entre elas a osteoartrite de joelho — e, no mesmo texto, vedou a promessa de cura ou de regeneração tecidual [4].
Ou seja: um anúncio que garante regeneração de cartilagem com PRP não está apenas indo além do que o ensaio de maior porte mostrou. Está prometendo algo que a norma vigente veda expressamente. O que a regra mudou, na prática, para quem é paciente, está detalhado em a nova regra do CFM sobre PRP.
5. Então o PRP não serve para nada?
Não é isso, e seria desonesto trocar um exagero por outro.
Se você já fez PRP, nada aqui significa que a sua decisão foi errada ou que você foi ingênuo. O tratamento é autorizado pelo CFM em situações específicas, muita gente relata alívio, e a expectativa de regeneração é compreensível. O que este artigo separa é o que se pode prometer do que se pode esperar.
O que este artigo mostra é uma coisa só: não há base para prometer que o PRP reconstrói a cartilagem perdida. A discussão sobre alívio de sintomas é separada, tem uma literatura própria e resultados menos uniformes — ela está no artigo sobre PRP no joelho, e o panorama mais amplo dos ortobiológicos está em ortobiológicos e medicina regenerativa.
O que muda quando essa expectativa é ajustada é a ordem das prioridades. Exercício supervisionado e controle de peso continuam sendo as medidas com efeito mais consistente — ao lado do fortalecimento muscular, do controle da dor e do sono, do cuidado com as outras doenças associadas e da educação sobre a própria artrose — e estão descritos em tratamento conservador da artrose de joelho. Quando o quadro avança e o conservador se esgota, a conversa passa a ser outra, tratada em quando operar artrose de joelho.
A decisão sobre qual conduta tomar no seu caso é exclusiva do seu médico, que avalia o conjunto — seu quadro clínico, exames, comorbidades e objetivos.
Referencias
- Bennell KL, Paterson KL, Metcalf BR, et al. Effect of Intra-articular Platelet-Rich Plasma vs Placebo Injection on Pain and Medial Tibial Cartilage Volume in Patients With Knee Osteoarthritis: The RESTORE Randomized Clinical Trial. JAMA. 2021;326(20):2021-2030. link
- Phogaat M, Saraf A, Rastogi R, et al. The Effect of Intraarticular Platelet-Rich Plasma Injection in Knee Osteoarthritis. J Orthop Case Rep. 2026;16(8):471-477. link
- Zhang M, Chew K, Goh P, et al. Clinical Efficacy of Platelet-Rich Plasma and Hyaluronic Acid Versus Hyaluronic Acid for Knee Osteoarthritis with MRI Analysis: A Randomized Controlled Trial. J Clin Med. 2025;14(10):3553. link
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.464/2026: regulamenta o uso do plasma rico em plaquetas (PRP) como procedimento médico auxiliar no tratamento de condições osteomusculares específicas. Em vigor desde 15 de julho de 2026 (revoga a Resolução CFM nº 2.128/2015). Notícia oficial do CFM. link
Perguntas Frequentes
O PRP regenera a cartilagem do joelho?
Não há base científica que sustente essa promessa. No ensaio RESTORE, com 288 pacientes e ressonância magnética como desfecho primário, a variação do volume de cartilagem tibial medial em 12 meses foi de −1,4% com PRP contra −1,2% com placebo, sem diferença significativa [1]. A cartilagem continuou diminuindo nos dois grupos.
Então por que tantos anúncios dizem que regenera?
Porque a promessa responde ao medo mais natural de quem tem artrose. Mas a Resolução CFM 2.464/2026 veda expressamente a promessa de cura ou regeneração tecidual com PRP [4] — um anúncio assim vai além do que a evidência mostra e do que a norma vigente permite.
Existem estudos mostrando melhora na ressonância depois do PRP?
Existem estudos menores com achados nesse sentido [2][3], mas eles têm menos pacientes, nem sempre comparam com placebo e muitas vezes medem escores compostos ou edema de medula óssea, que não são volume de cartilagem. No ensaio de maior porte e com placebo, a resposta foi negativa [1].
Se não regenera, o PRP pode ao menos aliviar a dor?
Essa é uma pergunta diferente, com literatura própria e resultados menos uniformes. No RESTORE, a diferença de dor em 12 meses também não foi significativa [1], mas o conjunto da evidência sobre sintomas é discutido em detalhe no artigo específico sobre PRP no joelho. Quem avalia se faz sentido no seu caso é o seu médico.
O que realmente muda a trajetória da artrose de joelho?
Exercício supervisionado e controle de peso seguem sendo as medidas com melhor sustentação na literatura, ao lado do fortalecimento muscular e do cuidado com as outras doenças associadas, e por isso vêm antes de qualquer injeção na ordem de prioridades. Quando o quadro avança e o tratamento conservador se esgota, a conversa passa a ser sobre cirurgia — sempre com a sua equipe médica.
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