Tem um gesto banal que, para quem está desenvolvendo artrose de quadril, deixa de ser banal: entrar e sair do carro. Não é força que falta — é que esse movimento combina duas coisas que a artrose de quadril limita cedo: dobrar a articulação e girá-la ao mesmo tempo, enquanto você se abaixa para o banco e traz as pernas para dentro. Quando isso começa a custar, o corpo está dando uma pista.
Neste artigo você vai entender por que justamente esse gesto pesa, o que ele indica e o que ajuda a manter a função. Se você também nota rigidez ao girar o quadril, veja rigidez e perda de rotação no quadril. Este texto é informação geral e não substitui a avaliação médica individual.

1. Por que entrar no carro pesa tanto
Entrar no carro é um dos movimentos mais exigentes do dia para o quadril, ainda que a gente nem perceba. Para sentar no banco e trazer as pernas, você precisa flexionar o quadril (dobrar) e, ao mesmo tempo, girá-lo (rodar) — e a rotação é justamente o movimento que a artrose de quadril limita mais cedo. A perda de amplitude nos movimentos de rotação é um dos achados mais característicos da artrose dessa articulação, como mostrou a revisão do exame clínico de Metcalfe e colaboradores (2019), no JAMA [1].
Some-se a isso a dor na virilha que costuma aparecer ao usar o quadril, e o resultado é aquele desconforto ao se dobrar para dentro do carro — ou ao apoiar o pé para sair. Não é falta de flexibilidade genérica: é um sinal bastante específico de que a articulação do quadril está perdendo movimento.
2. O que esse sinal costuma vir acompanhado
A dificuldade para entrar e sair do carro raramente vem sozinha. Ela costuma andar junto de outras limitações funcionais que compartilham a mesma raiz — a perda de rotação e a dor ao usar o quadril:
- Dificuldade para calçar meias e sapatos e cortar as unhas dos pés.
- Dor na virilha ou na frente da coxa ao caminhar e ao levantar de cadeiras baixas.
- Quadril "travado" nos primeiros passos após ficar parado.
- Encurtar a passada ou mancar discretamente de um lado.
Esse conjunto de dificuldades no dia a dia é exatamente o tipo de informação que orienta o diagnóstico da artrose, que é clínico — baseado na história e no exame físico —, como resumem Katz e colaboradores (2021), no JAMA [2]. A radiografia, quando necessária, complementa; não substitui esse quadro.
3. O que ajuda a manter a função
A boa notícia é que função se treina. O exercício orientado, com foco em fortalecimento e mobilidade, é o pilar do tratamento da artrose de quadril e melhora tanto a dor quanto a capacidade de fazer as tarefas do dia — inclusive as que envolvem dobrar e girar a articulação. A atualização de 2023 das recomendações da EULAR, de Moseng e colaboradores (2024), no Annals of the Rheumatic Diseases, coloca o exercício e a educação como base individualizada do cuidado [3]. E o efeito não é pequeno: uma meta-análise em rede de Weng e colaboradores (2023), no British Journal of Sports Medicine, encontrou efeito sobre a dor comparável ao dos anti-inflamatórios orais e do paracetamol na artrose de quadril e joelho [4].
Além do exercício, pequenas adaptações ajudam no imediato — sentar primeiro e depois girar as duas pernas juntas para dentro, usar o apoio das mãos, ajustar a altura do banco. Elas não tratam a artrose, mas reduzem o desconforto enquanto o trabalho de base faz efeito. E, se a dor e a limitação avançam muito apesar de tudo, vale reavaliar o caminho — veja quando o tratamento conservador do quadril não basta mais.
4. Quando procurar avaliação
Vale procurar um ortopedista quando a dificuldade para entrar e sair do carro — e gestos parecidos — passa a ser frequente e limitante, especialmente se vem com dor na virilha ao usar o quadril, quadril travado após o repouso ou tendência a mancar. Não é preciso esperar a dor ficar insuportável: reconhecer cedo esses sinais funcionais permite começar antes o tratamento que preserva movimento.
Como sempre, nenhum sinal isolado fecha o diagnóstico — é o conjunto, avaliado por quem examina o seu quadril de perto, que orienta [1][2]. O papel deste texto é ajudar você a perceber que um gesto simples, quando começa a custar, pode ser uma pista valiosa — e um bom motivo para uma avaliação sem pressa nem alarme.
Referencias
- Metcalfe D, Perry DC, Claireaux HA, et al. Does This Patient Have Hip Osteoarthritis?: The Rational Clinical Examination Systematic Review. JAMA. 2019;322(23):2323-2333. link
- Katz JN, Arant KR, Loeser RF. Diagnosis and Treatment of Hip and Knee Osteoarthritis: A Review. JAMA. 2021;325(6):568-578. link
- Moseng T, Vliet Vlieland TPM, Battista S, et al. EULAR recommendations for the non-pharmacological core management of hip and knee osteoarthritis: 2023 update. Ann Rheum Dis. 2024;83(6):730-740. link
- Weng Q, Goh SL, Wu J, et al. Comparative efficacy of exercise therapy and oral non-steroidal anti-inflammatory drugs and paracetamol for knee or hip osteoarthritis: a network meta-analysis of randomised controlled trials. Br J Sports Med. 2023;57(15):990-996. link
Perguntas Frequentes
Por que ficou difícil entrar e sair do carro?
Porque esse gesto combina dobrar e girar o quadril ao mesmo tempo — e a rotação é justamente o movimento que a artrose de quadril limita mais cedo. Somada à dor na virilha ao usar a articulação, essa combinação torna o movimento desconfortável. É um sinal funcional bastante específico do quadril [1].
Isso é só falta de flexibilidade ou idade?
Não necessariamente. Quando a dificuldade para entrar no carro vem junto de dor na virilha, dificuldade para calçar meias e quadril travado após o repouso, o padrão aponta para perda de movimento do quadril — não apenas flexibilidade genérica. Vale avaliar, sobretudo se piora ao longo de semanas a meses [1,2].
O que ajuda a continuar fazendo esses movimentos?
O exercício orientado (fortalecimento e mobilidade) é o pilar do tratamento e melhora dor e função, com efeito comparável ao dos anti-inflamatórios na artrose de quadril e joelho. Pequenas adaptações — girar as duas pernas juntas, usar o apoio das mãos, ajustar o banco — reduzem o desconforto imediato [3,4].
Preciso esperar a dor piorar para procurar o médico?
Não. Reconhecer cedo os sinais funcionais — como a dificuldade para entrar e sair do carro — permite começar antes o tratamento que preserva movimento. Não é preciso esperar a dor ficar insuportável; uma avaliação sem pressa ajuda a situar em que ponto você está.
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