Failure to Launch: Por Que Alguns Pacientes Não Conseguem Alta no Mesmo Dia Após a Prótese

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

Segundo a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS), uma parte dos pacientes programados para alta no mesmo dia acaba precisando ficar internado — e isso é, na maior parte das vezes, um sinal de que o sistema funcionou. Este artigo explica quais são os motivos mais comuns, quais pacientes têm mais risco e por que "ficar uma noite" não é fracasso, é segurança.

Este artigo é informativo. Ele explica, em linguagem clara, o que a literatura internacional e a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS) descrevem sobre o fenômeno conhecido como "failure to launch" — pacientes que tinham alta programada no mesmo dia da prótese e acabaram precisando ficar internados. Nada aqui é prescrição. Cada decisão sobre onde e quando operar, e quando dar alta, depende de avaliação individual da sua equipe médica — cirurgião, anestesista, clínico, fisioterapeuta — considerando o seu caso como um todo.

Existe uma frase que tem aparecido com frequência nas propagandas da ortopedia moderna: "prótese com alta no mesmo dia". Ela é verdadeira para uma parte dos pacientes, e é um avanço real. Mas ela conta uma parte da história. Quando a gente olha para os números de quem tinha alta programada no mesmo dia e, na vida real, precisou ficar internado, aparece um fenômeno descrito na literatura com um nome em inglês que soa estranho: "failure to launch" (em tradução livre, "falha na decolagem"). A expressão vem do mundo da aviação e foi adaptada para descrever o paciente que foi "preparado para voar pra casa" e acabou precisando de uma noite a mais no hospital [1,2].

Este artigo é parte da nossa série sobre prótese ambulatorial, baseada no capítulo Outpatient Total Joint Arthroplasty do livro Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction 7 (AAOS, 2026) [1]. A série começou com o artigo principal Artroplastia Ambulatorial: Prótese com Alta no Mesmo Dia, seguiu com Preparação Pré-Operatória e Prehabilitação, depois A Escolha do Anestésico da Raquianestesia, em seguida A Evolução do Controle da Dor (Anestesia), e hoje chega ao que pode ser o tema mais honesto da série inteira: quando o plano da alta no mesmo dia não se concretiza — e por quê.

Antes de seguir, um ponto que orienta toda a leitura. Se a equipe médica resolveu manter o paciente internado uma noite — ou duas, ou três — depois de uma cirurgia originalmente programada para alta no mesmo dia, na esmagadora maioria das vezes isso não é fracasso nem do paciente, nem do cirurgião. É o sistema de segurança funcionando. "Failure to launch" é um termo técnico, operacional — ele descreve o evento do ponto de vista do hospital, não do ponto de vista do resultado da sua cirurgia. Os dados mostram com clareza: pacientes que precisaram ficar internados uma noite a mais não tiveram mais readmissões, nem mais idas ao pronto-socorro depois, comparados com quem foi direto pra casa [2,3]. Ou seja, a decisão de ficar um pouco mais funcionou: evitou um problema, não criou um.

1. "Failure to launch": o que esse nome quer dizer (e o que ele NÃO quer dizer)

O termo "failure to launch" (FTL) entrou na literatura de artroplastia para descrever um evento bem específico: o paciente que tinha alta programada no mesmo dia (em inglês, "same-day discharge", SDD) e, no dia da cirurgia, não conseguiu ser liberado pra casa — precisou dormir ao menos uma noite no hospital ou no centro ambulatorial [1,2]. O nome é metafórico: como se o paciente tivesse sido "preparado para decolar" de volta pra casa e o "voo" tivesse sido adiado por razões técnicas.

É importante separar o que esse nome significa do que ele não significa. FTL, na literatura, significa:

  • Um evento do dia da cirurgia — mede se o paciente saiu do hospital no mesmo dia ou não;
  • Uma métrica operacional — usada pelos serviços para planejar camas, escala de enfermagem e custos [4];
  • Um desfecho binário — sim/não saiu no mesmo dia.

E FTL NÃO significa:

  • Que a cirurgia deu errado;
  • Que o paciente ficou "pior" por ter dormido no hospital;
  • Que a equipe "errou" na indicação;
  • Que o resultado final — dor, função, satisfação — vai ser pior.

A literatura moderna, inclusive o estudo de referência de Radtke e colaboradores (2024), publicado no Journal of Arthroplasty, deixa isso claro: as taxas de readmissão e de visitas ao pronto-socorro foram semelhantes entre pacientes que tiveram alta no mesmo dia e pacientes que ficaram internados, quando comparados com controles históricos [2]. Quem ficou uma noite a mais não ficou "mais doente" — ficou mais seguro.

Por isso, na nossa experiência de consultório, vale sempre deixar combinado antes da cirurgia: se ficar uma noite fizer mais sentido no dia, a gente fica. Não é plano B, é plano A com duas rotas — e escolher uma rota com base no que o corpo está mostrando no dia da cirurgia é medicina boa, não medicina frustrada.

2. As taxas na vida real: de 0,45% a 5,8% — e o que explica essa diferença

Quando a gente olha os números publicados, uma coisa chama atenção: as taxas de FTL variam enormemente entre os serviços. Vai de menos de meio por cento em alguns centros ambulatoriais até quase 6% em certos hospitais acadêmicos [2,3,5]. À primeira vista, essa diferença parece contraditória. Não é. Ela conta uma história interessante sobre como a seleção prévia do paciente e a estrutura do local da cirurgia mudam tudo.

Alguns dados publicados, em ordem crescente:

  • Centro ambulatorial (ASC) acadêmico, EUA — Chandrashekar e colaboradores (2025), no Journal of Arthroplasty: entre 1.974 pacientes operados ao longo de três anos, apenas 0,45% precisaram de admissão hospitalar direta do centro. A causa mais frequente foi síncope ou hipotensão (66,7% dos casos), seguida por náusea, convulsões e dor [5]. Em outras palavras: 99,6% das pessoas operadas nesse formato foram pra casa no mesmo dia.
  • Centro de alto volume francês — Delfosse e colaboradores (2024), em International Orthopaedics: entre 498 pacientes com protocolo institucional bem definido, 97,2% conseguiram alta no mesmo dia. As falhas se concentraram em retenção urinária (28,6%), hipotensão ortostática (28,6%) e dor mal controlada (14,3%) [6].
  • Hospital acadêmico (EUA) — Radtke e colaboradores (2024) analisaram 2.411 pacientes agendados para alta no mesmo dia em um centro acadêmico de alto volume: 94,2% conseguiram e 5,8% tiveram FTL. Dentro disso, havia diferença entre o que foi operado: taxa de sucesso de 91,4% em prótese de quadril, 96,0% em prótese de joelho e 98,6% em prótese unicompartimental do joelho [2].

O que explica essa variação? Três elementos principais, segundo a literatura [1,2,5]:

  • Quem foi selecionado para o programa. Centros ambulatoriais dedicados tendem a selecionar pacientes com perfil mais favorável (ASA 1-2, comorbidades estáveis, bom suporte em casa) antes de agendar a cirurgia. Quem não se encaixa nesse perfil já é agendado de entrada para internação curta no hospital — e nem entra na conta do "SDD agendado". Isso puxa a taxa de FTL para baixo nos ASCs e para cima nos hospitais acadêmicos, que operam o paciente mais complexo.
  • Otimização clínica prévia. Programas bem estruturados fazem uma "passada fina" pelo paciente antes da cirurgia: diabetes, anemia, sono, nutrição, uso de medicações que interferem com cicatrização, saúde dental, condicionamento físico. Isso não é burocracia — é o que reduz FTL.
  • Estrutura do centro. Equipe familiarizada com alta protocolada, anestesia curta bem executada, fisioterapeuta disponível no dia, canal de contato pós-alta organizado. São detalhes que, juntos, fazem diferença grande.

Existe uma lição importante nesses números: não faz sentido comparar o serviço A com o serviço B só pelo número de FTL. Um centro ambulatorial que opera só paciente ASA 1-2 otimizado vai ter FTL muito baixo — isso é esperado, é o desenho. Um hospital acadêmico que opera também pacientes mais complexos, com comorbidades relevantes, vai ter FTL um pouco maior — isso também é esperado, é o desenho. Olhar só o número sem olhar o perfil dos pacientes leva a conclusões erradas.

3. As causas mais comuns de ficar internado uma noite a mais

Quando o FTL acontece, quase sempre por uma das poucas causas bem descritas na literatura. A lista varia um pouco de estudo para estudo, mas os "suspeitos de sempre" se repetem [2,5,6]:

  • Retenção urinária pós-operatória — a bexiga "não quer soltar". É talvez a causa mais frequente em alguns estudos (28,6% dos FTL no trabalho francês [6]). Entre os motivos: efeito residual da raquianestesia, uso de opioide, cirurgia longa, próstata aumentada, diabetes. Muitas vezes se resolve com um cateter único (sonda de alívio) — mas até a bexiga voltar a funcionar, o paciente precisa de observação.
  • Hipotensão ortostática e síncope — quando o paciente levanta da cama e a pressão cai muito (ou ele chega a desmaiar). Foi a causa principal no estudo do centro ambulatorial de Nashville (66,7% dos casos [5]). Pode ser por desidratação, pelo próprio efeito residual da anestesia, por medicação anti-hipertensiva, ou por resposta autonômica do corpo à cirurgia. Em geral, se resolve com reposição de líquidos e mais algumas horas de observação — mas essas "horas a mais" muitas vezes viram uma noite.
  • Dor insuficientemente controlada — o paciente está com dor alta mesmo no protocolo multimodal planejado, e não atinge o critério de "dor aceitável para alta". Representa algo em torno de 14% dos FTL em algumas séries [6]. Isso não significa que o protocolo falhou — significa que esse paciente, naquele dia, precisou de reforço, e esse reforço leva tempo.
  • Náusea e vômito pós-operatórios — muitas vezes relacionados a opioide ou ao despertar da anestesia. Se persistem, impedem a alta porque o paciente não consegue se hidratar, não tolera os medicamentos orais e tende a cair a pressão.
  • Falha em atingir os marcos de fisioterapia — alguns protocolos exigem que o paciente consiga levantar da cama, andar uma distância mínima com apoio e subir um pequeno degrau antes da alta. Quem não consegue nessas primeiras horas — por fraqueza, por insegurança, por dor — precisa ficar para fisioterapia adicional no dia seguinte.
  • Eventos clínicos inesperados — menos frequentes, mas possíveis: arritmia transitória, alteração eletrolítica, sangramento mais alto que o previsto, febre, crise hipertensiva. São os casos em que ficar uma noite não é "opcional" — é obrigatório por segurança.

Duas observações práticas sobre essa lista. Primeira: a maioria dessas causas tem solução dentro de 12 a 24 horas — ou seja, o paciente normalmente vai pra casa no dia seguinte, não fica preso por dias. Segunda: várias delas são parcialmente preveníveis — hidratação pré-operatória boa, controle da medicação antihipertensiva no dia, uso de anestésicos de curta duração, protocolo multimodal bem ajustado, e atenção à bexiga (inclusive com ultrassonografia de bexiga, o "bladder scan") em quem tem risco [1]. O objetivo dos protocolos modernos não é "eliminar FTL" — é reduzi-lo ao seu piso biológico e fazer que, quando ele acontece, resolva rápido e sem sequela.

4. Fatores de risco ligados à saúde geral: quando o corpo pede um pouco mais de tempo

A literatura identifica um conjunto de características clínicas que aumentam a probabilidade de FTL. Nenhuma delas, sozinha, é "proibitiva" — são sinais que a equipe soma para decidir se faz sentido agendar para alta no mesmo dia ou se o mais prudente é planejar já uma internação curta [1,2,3]. Entre os principais:

  • Escore ASA mais alto. O ASA é uma escala da Sociedade Americana de Anestesiologia que classifica o paciente em grupos de risco anestésico. Pacientes ASA 3 ou 4 — que têm doença sistêmica importante, como diabetes mal controlado, insuficiência cardíaca moderada, DPOC avançada — têm mais FTL. No estudo de Treu e colaboradores (2024), ASA mais alto foi associado a mais retorno ao PS e mais readmissão em 90 dias [3].
  • Índice de Charlson mais alto (CCI). É um escore que soma o peso das comorbidades que o paciente carrega. Quanto mais doenças somadas, maior o risco. No mesmo estudo, CCI mais alto foi preditor de retorno ao PS em 90 dias [3].
  • Idade. É mais complicado do que parece. Em alguns estudos, idade mais jovem foi associada a FTL (Radtke 2024, [2]) — possivelmente porque o cirurgião tende a agendar o jovem para SDD mesmo com pouca "reserva clínica" e às vezes com dor mais difícil de controlar. Em outros estudos, idade mais avançada foi fator de risco para estadia prolongada [7]. Na prática, o que importa não é a idade no documento — é a idade fisiológica, ou seja, como o corpo responde à cirurgia. Um paciente de 80 anos em boa forma e ativo pode ter alta no mesmo dia com segurança; um paciente de 60 anos muito sedentário e com várias comorbidades, não necessariamente.
  • Obesidade elevada (IMC acima de 35 ou 40). Está associada a estadia prolongada em alguns estudos [7]. Entre os motivos: cirurgia técnicamente mais trabalhosa, maior risco de apneia do sono pós-operatória, dificuldade maior com deambulação precoce, e ajustes na anestesia.
  • Tabagismo ativo. Associado a mais complicações cicatriciais e respiratórias [1,7]. Muitos serviços pedem pausa tabágica de 4 a 8 semanas antes da cirurgia, justamente para reduzir esse peso.
  • Diabetes mal controlada. HbA1c muito elevada (geralmente acima de 8%) correlaciona-se com mais infecção e complicação em geral [1,7]. A recomendação da AAOS é otimizar o controle antes da cirurgia eletiva — não em caráter punitivo, mas porque a cicatrização e a recuperação melhoram de forma mensurável [1].
  • Hipertensão e cardiopatia não compensadas. Aumentam o risco de hipotensão no pós-operatório e de arritmia — duas causas relacionadas a FTL [1,5].
  • DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) e apneia do sono não tratada. Aumentam o risco respiratório no despertar anestésico e no pós-operatório imediato [1].

Um ponto que vale destacar porque aparece pouco nas conversas de consultório: não é o "número" de comorbidades que define se você pode ter alta no mesmo dia — é o controle delas. Um paciente com hipertensão, diabetes e dislipidemia, todos bem controlados, com boa aderência ao tratamento e exames recentes em dia, pode ser candidato tranquilo a alta no mesmo dia. Outro paciente com "só" diabetes, mas com HbA1c de 9,5% e sem seguimento, talvez não seja [1]. A equipe olha o quadro como um todo — e parte do motivo pelo qual a consulta pré-operatória com o anestesista existe é exatamente para pintar esse quadro.

5. Saúde mental e depressão: um fator que ainda é pouco falado

Um dos achados mais consistentes — e também menos discutidos em público — da literatura recente é o peso da saúde mental pré-operatória no curso da prótese. No estudo de Treu e colaboradores (2024), ter diagnóstico psicológico (especialmente depressão) foi um preditor independente de retorno ao pronto-socorro e de readmissão em 90 dias, independentemente de o paciente ter tido alta no mesmo dia ou não [3]. No trabalho de Radtke e colaboradores (2024), escores mais baixos de saúde mental em questionários pré-operatórios (como o PROMIS Mental Health) foram associados a mais FTL [2].

Esse achado faz sentido fisiologicamente e merece ser discutido em linguagem clara, sem estigma. A depressão — e, por associação, os quadros de ansiedade crônica e dor crônica — amplifica a percepção da dor, reduz a tolerância a sensações desconfortáveis no pós-operatório, interfere no sono (que é parte central da recuperação) e, em alguns casos, interfere na adesão aos protocolos de fisioterapia e medicação [1,3]. Não é "fraqueza de caráter". É biologia e neurociência bem descritas.

O que fazer com essa informação? Algumas posturas que a literatura e a prática clínica sugerem como razoáveis, sempre em discussão com o paciente [1,3]:

  • Avaliar antes da cirurgia. Perguntar sobre humor, sono, ansiedade, histórico de tratamento psicológico ou psiquiátrico. Não com cara de julgamento — com cara de planejamento. Se o paciente já tem tratamento, manter; se está descompensado, vale tratar antes da cirurgia eletiva.
  • Não suspender medicação antidepressiva de rotina no dia da cirurgia. Pelo contrário — suspender abruptamente pode piorar as coisas. A decisão de ajustar dose fica a cargo do psiquiatra, em conjunto com o anestesista [1].
  • Planejar suporte emocional no pós-operatório. Alguém da família conhecendo o plano, ciente do que é normal, do que não é, e de como acionar a equipe. Isso reduz ansiedade do paciente e — a literatura mostra — reduz também sintomas de dor.
  • Se o paciente tem dor crônica importante, ajustar o protocolo de analgesia. Esses pacientes frequentemente precisam de um protocolo multimodal mais robusto e de acompanhamento mais próximo nas primeiras semanas. Isso não é "cerimônia" — é ciência.

Um ponto que vale dizer em alto e bom som: ter depressão ou ansiedade tratadas não é contraindicação para fazer uma prótese, nem para buscar alta no mesmo dia. Apenas significa que o plano precisa contemplar essa variável com o mesmo cuidado que contempla o diabetes ou a hipertensão — como parte do paciente real, não como um "extra".

6. Fatores do dia da cirurgia: escolhas técnicas que fazem diferença

Algumas das variáveis mais fortemente associadas a FTL não estão no paciente — estão nas escolhas técnicas do dia da cirurgia. No estudo de Radtke e colaboradores (2024), vários fatores do próprio dia foram estatisticamente associados a mais FTL [2]:

  • Anestesia geral em vez de raquianestesia. Foi o fator com associação mais forte (p < 0,0001). Isso é consistente com outros estudos e com as recomendações da AAOS: para alta no mesmo dia, a raquianestesia com anestésico de curta duração (como mepivacaína ou lidocaína) é preferível, porque tem despertar mais previsível, menos náusea e vômito, e menor chance de retenção urinária prolongada [1]. Pacientes submetidos a anestesia geral — por indicação técnica, por contraindicação à raquianestesia ou por preferência da equipe — têm mais chance de FTL.
  • Horário da cirurgia mais tarde no dia. Começar a cirurgia às 14h significa terminar no final da tarde, com menos tempo para o paciente se recuperar, alimentar-se, urinar, deambular e atingir os critérios de alta antes do "fim do expediente" da equipe ambulatorial. Por isso, muitos serviços priorizam os pacientes de alta no mesmo dia na primeira janela da manhã [1,2].
  • Tempo cirúrgico mais longo. Cirurgia acima de uma certa duração (varia conforme o serviço) associa-se a mais sangramento, mais edema pós-operatório, mais dor, e mais dificuldade de atingir os marcos de alta no mesmo dia [2].
  • Sangramento (EBL) mais alto. Foi associado a FTL com significância estatística no estudo de Radtke (p < 0,0001). Sangramento maior pede mais observação — pode levar à queda de pressão, tontura e necessidade de reposição volêmica adicional [2].

Existe uma consequência prática importante dessas observações. Quando uma equipe está desenhando um programa de prótese ambulatorial de qualidade, essas variáveis são planejadas intencionalmente: raquianestesia com agente curto como padrão, cirurgia agendada cedo, técnica cirúrgica consolidada, hemostasia cuidadosa. Nada disso é acaso — é protocolo. Quando o paciente pergunta ao cirurgião "por que a minha cirurgia é tão cedo?", a resposta técnica é essa: porque é assim que, na média, o dia tende a dar certo [1,2].

Outra consequência prática: se o dia da cirurgia decide que vai usar anestesia geral em vez de raquianestesia — por alguma dificuldade técnica, por alergia, por condição clínica do paciente — isso muda a probabilidade de alta no mesmo dia. Não impede, mas muda. Em vez de ser visto como fracasso do plano, deve ser visto como um ajuste de rota normal. A equipe escolheu a anestesia mais adequada ao paciente naquele dia, e isso tem preço em tempo de observação [1,2].

7. E se eu for o paciente que "não decolou"? Por que isso não piora o resultado

Essa é a pergunta que — na nossa experiência de consultório — mais angustia o paciente que leu sobre alta no mesmo dia antes da cirurgia. "Se eu ficar internado, significa que eu sou um caso ruim? Vou ter mais complicação? Vou recuperar pior?"

A resposta curta, com base em dois estudos relevantes, é: não. Detalhando:

  • No estudo de Radtke e colaboradores (2024), com 2.411 pacientes agendados para alta no mesmo dia, quem teve FTL não teve taxa maior de readmissão em 90 dias nem de idas ao pronto-socorro em 90 dias, quando comparado aos controles históricos [2]. Ou seja: ficar uma noite a mais não virou problema mais tarde.
  • No estudo de Treu e colaboradores (2024), comparando pacientes de alta no mesmo dia com pacientes de internação planejada após artroplastia, as taxas de retorno ao PS e de readmissão foram semelhantes entre os dois grupos [3]. O que realmente diferenciava quem voltava ao PS era o perfil de base do paciente (ASA, CCI, saúde mental) — não o formato da alta.
  • Em uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2021 (Li e colaboradores, Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery), com 222.766 casos, não houve diferença significativa em mortalidade nem em readmissão entre SDD e internação tradicional [8]. O dado é relevante e deve ser interpretado com nuance: esse mesmo estudo sugeriu que SDD pode ter mais complicações do que "fast-track" (LOS ≤ 2 dias) em alguns contextos, reforçando que a escolha entre ficar uma noite ou duas e ir pra casa no mesmo dia deve ser individualizada [8].

Juntando os três dados: a decisão de ficar uma noite, quando tomada pela equipe no dia da cirurgia, não piora o desfecho a médio prazo. O paciente de FTL tem o mesmo resultado funcional, a mesma probabilidade de voltar ao seu dia a dia. A única diferença é onde ele dormiu na primeira noite.

Existe uma parte psicológica que vale reconhecer. Alguns pacientes chegam para a cirurgia com a expectativa tão firme de "ir pra casa no mesmo dia" que, quando isso não acontece, interpretam como sinal de que algo deu errado. A conversa pré-operatória honesta — "o plano é alta no mesmo dia, mas se no dia a equipe entender que mais algumas horas ou uma noite são mais seguras, a gente fica, e isso está dentro do normal" — reduz essa decepção e ajuda o paciente a viver o pós-operatório como ele realmente é [1].

8. Como a equipe previne: seleção, otimização e protocolos

Os serviços de prótese ambulatorial com taxas mais baixas de FTL compartilham um conjunto de práticas — não é "segredo", é trabalho sistemático [1,5,6]. A AAOS, no livro Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction 7, descreve três pilares centrais:

  • Seleção cuidadosa e individualizada. Antes de agendar a alta no mesmo dia, a equipe avalia se o paciente reúne um conjunto de características (que discutimos nas seções anteriores): boa saúde geral, comorbidades sob controle, suporte em casa, capacidade funcional, moradia adequada, saúde mental estável e acompanhamento próximo possível nas primeiras 48–72 horas. Um dado interessante do estudo recente de Wong e colaboradores (2025): quando há protocolos robustos de pré-operatório, mesmo pacientes que tradicionalmente seriam excluídos por "critérios de parada" podem ter alta no mesmo dia com segurança — mas isso não elimina a necessidade de seleção; só mostra que ela pode ser mais nuançada do que "lista fixa" [9].
  • Otimização clínica pré-operatória. A famosa "prehabilitação" — que discutimos em detalhe no artigo sobre Preparação e Prehab — inclui exercícios específicos, controle do diabetes e da anemia, pausa tabágica, nutrição adequada, educação do paciente e da família. Cada uma dessas peças reduz um fator de risco isolado de FTL. Juntas, elas mudam a taxa do serviço.
  • Protocolos do dia da cirurgia bem executados. Raquianestesia com anestésico curto (mepivacaína/lidocaína, discutida no artigo sobre a escolha do anestésico), analgesia multimodal preemptiva e bloqueios regionais (tema do artigo sobre controle da dor), cirurgia agendada cedo, hemostasia cuidadosa, controle ativo da bexiga com "bladder scan" em pacientes de risco, deambulação precoce com fisioterapeuta na sala de recuperação, critérios de alta objetivos e escritos, e um canal de contato pós-alta claro [1].

Segundo a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS), sobre o que diferencia programas bem-sucedidos:

"With a comprehensive multidisciplinary approach dedicated to improving SDDs at an academic medical center, we have seen successful SDD in nearly 80% of primary TJA, with an FTL rate of 5.8%, and no increased risk of readmission or ED visits. Without adding many personnel, hospital recovery units, or other resources, simple interventions to help decrease FTL have included enhanced preoperative education and expectation settings, improved perioperative communications, reallocating personnel from the inpatient to the outpatient setting, the use of short-acting spinal anesthetics, and earlier scheduled surgery times."

Traduzindo em linguagem simples: o que faz a taxa de FTL cair não são aparelhos milagrosos nem robôs — são escolhas organizacionais banais e bem executadas. Educação do paciente antes da cirurgia, comunicação clara entre cirurgião-anestesista-fisioterapeuta-enfermagem, anestésico curto, horário cedo. Ciência aplicada com método [1,2].

9. A ciência por trás: o que a literatura mostra (e o que ainda falta)

Essa seção é mais técnica e serve a quem quiser aprofundar. Os dados discutidos neste artigo vêm de estudos recentes de boa qualidade:

  • Radtke e colaboradores (2024), Journal of Arthroplasty, PMID 38246314: estudo retrospectivo com 2.411 pacientes agendados para SDD em centro acadêmico de alto volume. FTL de 5,8%. Preditores significativos: anestesia geral vs. raquianestesia, início da cirurgia mais tarde, tempo cirúrgico mais longo, sangramento mais alto, sexo feminino, idade mais jovem, escores mais baixos de saúde mental no PROMIS. Readmissão e visitas ao PS sem aumento vs. controles históricos [2].
  • Treu e colaboradores (2024), Journal of Arthroplasty, PMID 38458335: estudo retrospectivo com 1.708 pacientes (SDD e internação planejada). Taxas de retorno ao PS e readmissão semelhantes entre SDD e internação. Preditores de readmissão: ASA mais alto, idade avançada (no SDD), diagnóstico psicológico (depressão, em ambos os grupos) [3].
  • Chandrashekar e colaboradores (2025), Journal of Arthroplasty, PMID 39586405: primeiro estudo focado em FTL em centro ambulatorial (ASC) dedicado, com 1.974 pacientes. FTL apenas 0,45%, predominantemente por síncope/hipotensão. Apenas 2 dos 9 FTL foram julgados como potencialmente preveníveis [5].
  • Delfosse e colaboradores (2024), International Orthopaedics, PMID 39325179: centro de alto volume francês, 498 pacientes, sucesso SDD de 97,2%. Causas de falha: retenção urinária (28,6%), hipotensão ortostática (28,6%), dor mal controlada (14,3%). Readmissão em 30 dias de 0,8% [6].
  • Li e colaboradores (2021), Archives of Orthopaedic and Trauma Surgery, PMID 34129118: revisão sistemática com meta-análise, 14 estudos, 222.766 casos. Sem diferença em mortalidade ou readmissão entre SDD e internação tradicional; mais complicações quando SDD comparado com fast-track (LOS ≤ 2 dias). Os autores sugerem cautela e recomendam estudos prospectivos adicionais [8].
  • Wong e colaboradores (2025), Journal of Arthroplasty, PMID 40398572: estudo retrospectivo com 2.368 pacientes em ASC acadêmico, avaliando se critérios "hard stop" tradicionais eram necessários. Conclusão: pacientes com ≥1 critério "hard stop" não tiveram mais complicações em 24 horas, mas tiveram mais complicações em 90 dias (OR 1,7). Os "hard stops" predizem complicação tardia, não falha da alta no mesmo dia [9].

Sobre os níveis de evidência: os dados sobre FTL vêm predominantemente de estudos de coorte retrospectivos (nível III), alguns com número grande de pacientes (nível II por associação), e de uma meta-análise de qualidade metodológica razoável (nível I com ressalvas) [8]. Não há ensaios clínicos randomizados comparando diretamente SDD com FTL (até porque a randomização seria eticamente complicada — ninguém randomiza o dia da alta). A consistência entre os achados é boa em vários pontos: saúde mental importa, comorbidades importam, tipo de anestesia importa, horário da cirurgia importa. Em outros pontos há variabilidade grande entre serviços — o que significa que o efeito "centro" é real e relevante [1,2,5,6,9].

O que ainda falta na literatura: (a) escores preditivos bem validados que ajudem o cirurgião a conversar com o paciente sobre probabilidade individual de FTL antes da cirurgia; (b) estudos prospectivos multicêntricos com padronização de critérios; (c) análise de custo-benefício considerando não só o custo da noite no hospital, mas também o custo emocional para o paciente e a família; (d) mais dados brasileiros — a maioria dos estudos vem dos EUA e de centros europeus de alto volume, e a realidade da nossa saúde suplementar e pública pode ter peculiaridades. Isso não invalida os achados — apenas marca que a aplicação local precisa ser adaptada à realidade do serviço [1].

10. Como conversar com a equipe — perguntas úteis antes da cirurgia

Uma conversa pré-operatória clara reduz angústia e melhora resultado. Algumas perguntas que costumam ser úteis na consulta com o cirurgião e/ou com o anestesista [1]:

  • "Qual é a minha probabilidade, no meu perfil, de conseguir alta no mesmo dia? O que pode fazer esse plano mudar no dia da cirurgia?"
  • "Vocês usam raquianestesia com anestésico de curta duração ou anestesia geral? Por quê?"
  • "A minha cirurgia vai ser agendada para o começo do dia ou para a tarde?"
  • "Que cuidados o senhor recomenda nas semanas anteriores para reduzir risco de ficar uma noite a mais — prehabilitação, pausa tabágica, ajuste do diabetes, tratamento da anemia?"
  • "Eu faço tratamento para depressão/ansiedade — isso muda o plano da minha cirurgia?"
  • "Se eu precisar ficar uma noite, o que esperar? Quem vai me acompanhar nas primeiras horas?"
  • "Como é o contato com a equipe depois da alta? Há um canal direto para dúvidas nas primeiras 48–72 horas?"

Essas perguntas não cobram a equipe — elas ajudam você a entender o plano, a se preparar e a reduzir a ansiedade no dia. Paciente informado toma remédio no horário certo, faz fisioterapia como combinado, telefona cedo quando precisa — e, portanto, tem melhor resultado clínico, não só melhor experiência [1,5].

Um último ponto, que costuma aliviar muito quem está prestes a operar: o plano da alta no mesmo dia é um instrumento — não uma meta moral. Ele serve ao seu conforto e à sua recuperação; não o contrário. Se no dia a equipe decide que umas horas a mais (ou uma noite) são mais seguras, isso é a medicina trabalhando exatamente como deve trabalhar: ajustando o plano ao paciente real, no dia real. Sair de casa na manhã da cirurgia sabendo disso torna o pós-operatório mais leve, independentemente de onde você vai dormir nessa primeira noite. E na manhã seguinte, quando a fisioterapia chega ao seu quarto (em casa ou no hospital), o caminho é o mesmo: levantar, andar um pouco, sentar, comer, descansar. A prótese começou a dar o seu melhor resultado — e isso é o que importa [1].

Referencias

  1. Fricka KB, Murphy MP. Outpatient Total Joint Arthroplasty. In: Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction 7. Rosemont, IL: American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS); 2026. link
  2. Radtke LE, Blackburn BE, Kapron CR, et al. Outpatient Total Joint Arthroplasty at a High-Volume Academic Center: An Analysis of Failure to Launch. J Arthroplasty. 2024;39(9S2):S134-S142. doi:10.1016/j.arth.2024.01.027. PMID: 38246314. link
  3. Treu EA, Blackburn BE, Archibeck MJ, et al. Risk Factors for Return to the Emergency Department and Readmission After Same-Day Discharge Total Joint Arthroplasty. J Arthroplasty. 2024;39(8):1967-1973. doi:10.1016/j.arth.2024.02.074. PMID: 38458335. link
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Perguntas Frequentes

Se eu não tiver alta no mesmo dia, significa que a minha cirurgia deu errado?

Não. "Failure to launch" é um termo operacional — descreve apenas que o paciente ficou uma noite a mais do que o planejado para dar alta no mesmo dia. Os estudos mostram que esses pacientes não têm mais readmissões nem mais idas ao pronto-socorro do que quem foi pra casa no mesmo dia. Ficar uma noite costuma ser o sistema de segurança funcionando, não falha da cirurgia.

Quais são as causas mais comuns de ficar internado uma noite a mais?

As mais descritas na literatura são: retenção urinária (a bexiga "não solta"), hipotensão/síncope ao levantar da cama, dor insuficientemente controlada pelo protocolo multimodal planejado, náusea e vômito persistentes, e dificuldade em atingir os marcos de fisioterapia no mesmo dia. A maioria dessas causas se resolve em 12 a 24 horas com observação e ajustes da equipe.

Quem tem mais risco de precisar ficar internado?

Os estudos apontam alguns fatores: escore ASA mais alto (doenças sistêmicas importantes), índice de Charlson mais alto (mais comorbidades somadas), obesidade elevada, tabagismo ativo, diabetes mal controlada, cardiopatia não compensada, apneia do sono não tratada, depressão ou ansiedade pré-operatórias, e escolhas técnicas do dia da cirurgia (como anestesia geral em vez de raquianestesia). Nenhum desses fatores, sozinho, é proibitivo — a equipe soma o quadro todo para decidir.

Eu faço tratamento para depressão ou ansiedade. Isso atrapalha a minha prótese?

Não é contraindicação. Mas a literatura mostra que essa é uma variável importante: pacientes com depressão ou ansiedade tendem a ter mais dor percebida no pós-operatório, mais retorno ao PS e mais readmissão. Por isso, a equipe ajusta o plano — analgesia multimodal mais robusta, acompanhamento mais próximo, suporte emocional planejado, não suspender medicação antidepressiva sem indicação clara. Estar em tratamento e comunicá-lo à equipe antes da cirurgia é o melhor caminho.

Por que alguns centros têm FTL de menos de 1% e outros de quase 6%?

Porque eles operam pacientes diferentes. Centros ambulatoriais dedicados (ASC) tendem a selecionar previamente pacientes com perfil mais favorável — pacientes mais complexos já são agendados de entrada para internação curta no hospital e nem entram nessa conta. Hospitais acadêmicos operam também pacientes mais complexos, o que puxa a taxa de FTL um pouco para cima. Comparar os dois números sem olhar o perfil dos pacientes leva a conclusões erradas. O que importa é: dentro de cada serviço, os desfechos (readmissão, complicações) são semelhantes entre quem teve alta no mesmo dia e quem ficou uma noite.

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