A fratura do fêmur perto do quadril é uma das situações mais sérias da ortopedia do idoso. Ela costuma acontecer numa queda simples — da própria altura, dentro de casa, tropeçando no tapete ou no caminho do banheiro — porque o osso já estava enfraquecido pela osteoporose. Não é a queda que é excepcional: é o osso que deixou de suportar o que antes suportava.
É também uma das poucas situações em ortopedia em que o tempo e a decisão certa mudam o rumo. Neste texto você vai entender os tipos de fratura (e por que os nomes confundem tanto), onde entra o CID, por que na grande maioria dos casos se opera, qual cirurgia corresponde a cada tipo e como é a recuperação de verdade — sempre com o que a evidência mostra, inclusive quando ela contraria o senso comum. Este texto é informação geral e não substitui a avaliação médica individual.

1. Os nomes que confundem: colo, transtrocantérica, pertrocantérica
Quase toda a confusão vem de um detalhe simples: "fratura de fêmur" perto do quadril não é uma coisa só. O que muda é a altura em que o osso quebrou — e essa altura determina a cirurgia. A parte alta do fêmur tem, de cima para baixo: a cabeça (a bola que encaixa na bacia), o colo (o "pescoço" abaixo dela), a região dos trocânteres (as saliências onde os músculos se prendem) e, logo abaixo, a região subtrocantérica.
- Fratura do colo do fêmur — quebra no "pescoço", dentro da cápsula da articulação. É a que mais ameaça a circulação da cabeça do fêmur, e por isso frequentemente exige substituir a cabeça por uma prótese em vez de apenas fixá-la.
- Fratura transtrocantérica — quebra na região dos trocânteres, fora da cápsula. Como a circulação local é rica, o osso costuma ter boa capacidade de consolidar, e o tratamento em geral é fixar, não substituir.
- Fratura subtrocantérica — logo abaixo dos trocânteres. Sofre forças mecânicas altas e costuma exigir fixação com haste dentro do osso.
E o detalhe que resolve a dúvida mais comum: "transtrocantérica" e "pertrocantérica" são o mesmo tipo de fratura. São dois nomes para a quebra na mesma região — "trans" (através dos trocânteres) e "per" (ao longo dos trocânteres). Você pode ver os dois termos no mesmo hospital, em laudos diferentes, para a mesma pessoa. Também pode aparecer "intertrocantérica", com o mesmo sentido. Não é erro nem divergência de diagnóstico: é vocabulário.
2. Onde entra o CID
O CID (Classificação Internacional de Doenças) é o código que identifica o diagnóstico em documentos, guias de internação, laudos e afastamentos. As fraturas do fêmur ficam no grupo S72, subdividido justamente pela altura da quebra — a mesma lógica da seção anterior:
- S72.0 — fratura do colo do fêmur
- S72.1 — fratura transtrocantérica (o mesmo que pertrocantérica)
- S72.2 — fratura subtrocantérica
Vale um esclarecimento prático: o código definitivo é atribuído pela equipe que assiste o paciente, a partir do exame e da radiografia, e pode ter detalhamentos adicionais conforme o caso e o sistema usado pelo hospital. Se você está conferindo um documento e o código não bate exatamente com o que leu aqui, isso não significa erro — significa que a classificação foi ajustada ao achado real. A pergunta que importa clinicamente nunca é o número do código, e sim onde o osso quebrou e o que isso pede como tratamento.
3. Por que quase sempre se opera
Diante de uma pessoa idosa e frágil, a família costuma perguntar — com toda razão — se não seria mais seguro evitar a cirurgia. A resposta da evidência aponta na direção contrária, e o motivo é que a alternativa não é "ficar em repouso e sarar": é permanecer acamado com um osso instável e doloroso, o que traz consigo pneumonia, trombose, lesões de pele, perda muscular acelerada e confusão mental.
Uma revisão sistemática com meta-análise de Loggers e colaboradores (2020), na Injury, avaliou justamente o tratamento não cirúrgico em idosos frágeis com fratura de quadril e concluiu que ele se associa a um prognóstico ruim — ressalvando, com honestidade, que os estudos disponíveis são heterogêneos e que ainda faltam dados de qualidade sobre esse cenário específico [1]. Ou seja: não operar não é uma via segura; é uma via de risco alto que se escolhe apenas em situações particulares.
Por isso a diretriz de prática clínica da AAOS (Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos), resumida por O'Connor e Switzer (2022), organiza o cuidado da fratura de quadril no idoso em torno do tratamento cirúrgico e da recuperação precoce da capacidade de andar [2]. Existem exceções reais — pacientes em fim de vida, ou fraturas incompletas muito específicas —, e essas decisões são individuais, tomadas com a família e com objetivo de conforto. Mas são exceções, não a regra.
4. Qual cirurgia para cada fratura
Aqui é onde o tipo de fratura da seção 1 vira conduta. Em linhas gerais:
- Transtrocantérica / pertrocantérica e subtrocantérica → em geral fixação, mais frequentemente com uma haste intramedular (uma haste metálica dentro do canal do osso, com parafusos). O osso é preservado e consolida.
- Colo do fêmur com desvio → em geral substituição por prótese, porque a circulação da cabeça do fêmur foi comprometida e a chance de o osso não consolidar é significativa.
Quando a escolha é substituir, surge a segunda pergunta: prótese parcial (hemiartroplastia) ou total? O ensaio clínico randomizado HEALTH, publicado no New England Journal of Medicine (2019), comparou as duas em pacientes que andavam de forma independente antes da fratura: a taxa de reoperação não diferiu de forma significativa, e a prótese total ofereceu uma melhora de função e qualidade de vida que os próprios autores classificaram como clinicamente pouco relevante em 24 meses [3]. A revisão Cochrane de Lewis e colaboradores (2022) chega a leitura convergente: qualquer vantagem da prótese total sobre a parcial tende a ser pequena e não perceptível clinicamente [4].
Há, porém, um ponto em que a evidência é bem mais firme: cimentada ou não cimentada. O ensaio WHiTE 5, também no New England Journal of Medicine (2022), com pacientes de 60 anos ou mais e fratura intracapsular, mostrou que a hemiartroplastia cimentada resultou em qualidade de vida modestamente melhor e menor risco de fratura ao redor da prótese em comparação à não cimentada [5]. A Cochrane converge: no contexto da fratura, a prótese cimentada tende a oferecer melhor resultado global, inclusive em mortalidade [4]. Vale registrar que isso é específico da fratura no idoso — é diferente da discussão sobre fixação na artrose eletiva.
Um esclarecimento que costuma tranquilizar: o cimento ortopédico (PMMA) não é uma "cola" que gruda o metal no osso. Ele preenche os espaços do osso esponjoso e endurece, criando um encaixe mecânico entre a prótese e o osso — o que dá estabilidade imediata e permite apoiar o peso logo.
5. Em quanto tempo operar — e o que a evidência realmente diz
É comum ouvir que "tem que operar em 24 horas ou o risco de morte dispara". Essa afirmação merece precisão, porque o melhor estudo disponível não a confirma como costuma ser dita.
O ensaio HIP ATTACK, publicado na The Lancet (2020) com 2.970 pacientes, comparou cirurgia acelerada (mediana de 6 horas) com o cuidado padrão (mediana de 24 horas). O resultado: a mortalidade não diferiu de forma significativa (9% contra 10%; HR 0,91; p=0,40), assim como as complicações maiores (22% em ambos os grupos) [6]. Ou seja: antecipar de 24 para 6 horas não demonstrou reduzir mortalidade.
É preciso ler isso com cuidado, porque a conclusão correta não é "então pode esperar". O estudo comparou rápido contra rápido — 6 horas contra 24 horas. Ele não testou, e portanto não autoriza, a espera de vários dias. Na prática, a orientação continua sendo operar assim que a condição clínica permitir, sem atrasos evitáveis, porque cada dia acamado acumula os riscos descritos na seção 3. O que a evidência acrescenta é uma tranquilidade legítima para a família: quando há um motivo clínico real para estabilizar o paciente antes — corrigir uma anemia, compensar uma insuficiência cardíaca, ajustar um anticoagulante —, essas poucas horas usadas com propósito não são tempo perdido nem condenam o resultado.
6. Anestesia: raquidiana ou geral?
Outra crença muito difundida é a de que a anestesia raquidiana seria claramente mais segura para o idoso, principalmente para evitar a confusão mental do pós-operatório (o delirium). A pesquisa recente não sustenta essa diferença.
Um ensaio clínico randomizado publicado no JAMA (2022), com pacientes de 65 anos ou mais operados de fratura de quadril, mostrou que a anestesia regional não reduziu de forma significativa a incidência de delirium pós-operatório em comparação com a anestesia geral [7]. Isso não torna a raquidiana pior — significa que as duas são opções aceitáveis, e que a escolha deve ser individual, conduzida pelo anestesiologista conforme as condições clínicas, a medicação em uso (anticoagulantes, por exemplo) e a preferência informada do paciente.
Na conversa com a família, esse é um ponto que costuma aliviar: não existe uma escolha "certa" que foi perdida se a equipe optou pela outra. O que reduz risco de verdade é o conjunto do cuidado — a avaliação clínica antes, o controle da dor, a hidratação, a atenção ao sono e à orientação no ambiente, e a mobilização precoce.
7. A recuperação: levantar cedo é o que mais muda
Se há um fator que se destaca na recuperação, é a mobilização precoce — sair da cama e começar a andar, com apoio e supervisão, o mais cedo possível depois da cirurgia (frequentemente já no primeiro dia).
Uma revisão sistemática com meta-análise de Agarwal e colaboradores (2024), na Musculoskeletal Care, reuniu 13 estudos com 297.435 pacientes e encontrou, entre os que foram mobilizados precocemente, mortalidade em 30 dias substancialmente menor (OR 0,35; IC95% 0,31–0,41) e menos complicações (OR 0,43; IC95% 0,36–0,51) [8]. É importante a honestidade metodológica aqui: trata-se de estudos observacionais, e parte dessa diferença reflete que pacientes em melhor estado conseguem levantar antes — a associação é robusta, mas não prova sozinha a relação de causa. Ainda assim, a direção é consistente e sustenta a prática.
O outro elemento que a evidência apoia é o cuidado compartilhado com a geriatria (modelo ortogeriátrico). A meta-análise de Van Heghe e colaboradores (2022), no Calcified Tissue International, reuniu 37 estudos e 37.294 pacientes e encontrou, com o cuidado ortogeriátrico, 28% menos mortalidade hospitalar, 14% menos mortalidade em 1 ano e 19% menos delirium, com evidência de qualidade moderada [9]. Faz sentido: a fratura é do osso, mas quem se recupera é a pessoa inteira — coração, rim, cabeça, nutrição e medicações.
Sobre prazos, a expectativa realista: o apoio do peso costuma ser liberado logo (especialmente com haste intramedular ou prótese cimentada), a marcha com andador começa nos primeiros dias, e a recuperação funcional se estende por meses, com ganhos que continuam ao longo do primeiro ano. Recuperar o nível de independência anterior é um objetivo real para muitos pacientes, mas depende bastante de como a pessoa estava antes da fratura.
8. A fratura seguinte: a parte que costuma ser esquecida
Uma fratura de fêmur por queda da própria altura é, quase sempre, o anúncio de uma osteoporose que ninguém tratou. E aqui está a falha mais comum de todo esse percurso: o paciente é operado com excelência, reabilita, volta para casa — e sai do hospital sem investigar e sem tratar o osso. O risco de uma segunda fratura permanece de pé.
Vale saber que o tratamento medicamentoso da osteoporose tem eficácia bem estabelecida. Uma revisão sistemática com meta-análise em rede de Händel e colaboradores (2023), no BMJ, reuniu 69 ensaios clínicos e mais de 80 mil pacientes e demonstrou efeito protetor contra fraturas clínicas para bisfosfonatos, agonistas do receptor do paratormônio e romosozumabe em comparação ao placebo — com diferenças entre as classes [10]. Existe tratamento com evidência sólida; o problema é que ele frequentemente não é iniciado.
O que costuma compor essa etapa: investigação da densidade óssea, dosagem de vitamina D e cálcio, revisão dos medicamentos que aumentam o risco de queda, avaliação da visão, fortalecimento e equilíbrio, e adequação da casa (tapetes soltos, iluminação do trajeto do banheiro, barras de apoio). A decisão sobre qual medicamento usar é individual e pertence ao médico que acompanha o caso.
9. Quando procurar atendimento imediatamente
Depois de uma queda em pessoa idosa, procure atendimento de urgência quando houver:
- Dor na virilha, no quadril ou na coxa com incapacidade de apoiar o peso ou de andar.
- A perna que parece mais curta ou rodada para fora.
- Dor intensa ao menor movimento do quadril, mesmo deitado.
- Impossibilidade de levantar sozinho da cama ou da cadeira depois da queda.
Uma observação que faz diferença: algumas fraturas permitem andar. Fraturas sem desvio, especialmente do colo, podem deixar a pessoa mancando com dor "suportável" por dias — e a família conclui que "foi só uma pancada". Se a dor na virilha persiste depois de uma queda, mesmo andando, vale a radiografia. Quando a radiografia é normal e a suspeita permanece, exames como a tomografia ou a ressonância conseguem mostrar fraturas que a radiografia não revela.
Se o que você procura é entender a artrose do quadril — que é uma condição diferente, de desgaste progressivo e não de trauma —, veja artrose no quadril. Para entender a prótese de quadril fora do contexto de fratura, veja prótese de quadril. E para a prevenção de quedas no dia a dia, veja como se proteger das quedas depois dos 60.
Referencias
- Loggers SAI, Van Lieshout EMM, Verhofstad MHJ, et al. Prognosis of nonoperative treatment in elderly patients with a hip fracture: A systematic review and meta-analysis. Injury. 2020;51(11):2407-2413. link
- O'Connor MI, Switzer JA. AAOS Clinical Practice Guideline Summary: Management of Hip Fractures in Older Adults. J Am Acad Orthop Surg. 2022;30(20):e1291-e1296. link
- HEALTH Investigators. Total Hip Arthroplasty or Hemiarthroplasty for Hip Fracture. N Engl J Med. 2019;381(23):2199-2208. link
- Lewis SR, Macey R, Parker MJ, et al. Arthroplasties for hip fracture in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2022;2(2):CD013410. link
- Fernandez MA, Achten J, Parsons N, et al. Cemented or Uncemented Hemiarthroplasty for Intracapsular Hip Fracture. N Engl J Med. 2022;386(6):521-530. link
- HIP ATTACK Investigators. Accelerated surgery versus standard care in hip fracture (HIP ATTACK): an international, randomised, controlled trial. Lancet. 2020;395(10225):698-708. link
- Li T, Li J, Yuan L, et al. Effect of Regional vs General Anesthesia on Incidence of Postoperative Delirium in Older Patients Undergoing Hip Fracture Surgery. JAMA. 2022;327(1):50-58. link
- Agarwal N, Ahmed AR, Kurian BT, et al. Early mobilisation after hip fracture surgery is associated with improved patient outcomes: A systematic review and meta-analysis. Musculoskeletal Care. 2024;22(1):e1863. link
- Van Heghe A, Mordant G, Dupont J, et al. Effects of Orthogeriatric Care Models on Outcomes of Hip Fracture Patients: A Systematic Review and Meta-Analysis. Calcif Tissue Int. 2022;110(2):162-184. link
- Händel MN, Cardoso I, von Bülow C, et al. Fracture risk reduction and safety by osteoporosis treatment compared with placebo or active comparator in postmenopausal women: systematic review, network meta-analysis, and meta-regression analysis. BMJ. 2023;381:e068033. link
Perguntas Frequentes
Qual o CID da fratura de fêmur?
As fraturas do fêmur ficam no grupo S72 da CID, subdividido pela altura da quebra: S72.0 para a fratura do colo do fêmur, S72.1 para a transtrocantérica (o mesmo que pertrocantérica) e S72.2 para a subtrocantérica. O código definitivo é atribuído pela equipe que assiste o paciente, a partir do exame e da radiografia, e pode ter detalhamentos conforme o caso.
Fratura transtrocantérica e pertrocantérica são a mesma coisa?
Sim. São dois nomes para a fratura na mesma região do fêmur, ao nível dos trocânteres — "trans" (através) e "per" (ao longo). Também pode aparecer como intertrocantérica. Ver termos diferentes em laudos distintos do mesmo paciente é comum e não indica divergência de diagnóstico.
Toda fratura de fêmur no idoso precisa de cirurgia?
Na grande maioria dos casos, sim. A alternativa não é repouso até sarar: é permanecer acamado com um osso instável, o que traz pneumonia, trombose, lesões de pele e perda muscular. Uma meta-análise de 2020 mostrou que o tratamento não cirúrgico em idosos frágeis se associa a prognóstico ruim. Há exceções individuais, decididas com a família [1,2].
Prótese parcial ou total depois da fratura do colo do fêmur?
O ensaio HEALTH (NEJM, 2019) não encontrou diferença significativa na taxa de reoperação entre prótese total e parcial, e a vantagem funcional da total foi classificada pelos autores como clinicamente pouco relevante em 24 meses. A Cochrane converge. Já sobre a fixação, a evidência é mais firme: a prótese cimentada teve melhor qualidade de vida e menor risco de fratura ao redor do implante [3,4,5].
É verdade que precisa operar em até 24 horas?
A afirmação merece precisão. O ensaio HIP ATTACK (Lancet, 2020; 2.970 pacientes) comparou cirurgia em 6 horas com o padrão de 24 horas e não encontrou diferença significativa em mortalidade nem em complicações maiores. Isso não autoriza esperar dias — o estudo comparou rápido com rápido. A conduta segue sendo operar assim que a condição clínica permitir, sem atrasos evitáveis [6].
Quanto tempo até voltar a andar?
O apoio do peso costuma ser liberado logo, especialmente com haste intramedular ou prótese cimentada, e a marcha com andador começa nos primeiros dias. A recuperação funcional se estende por meses, com ganhos ao longo do primeiro ano. A mobilização precoce se associa a menos complicações e menor mortalidade em 30 dias [8].
Depois da cirurgia, o que fazer para não fraturar de novo?
Investigar e tratar a osteoporose — a etapa mais esquecida. Uma meta-análise em rede publicada no BMJ (2023), com 69 ensaios e mais de 80 mil pacientes, demonstrou efeito protetor contra fraturas clínicas dos bisfosfonatos, agonistas do receptor do paratormônio e romosozumabe. Somam-se a revisão dos medicamentos que aumentam o risco de queda, o equilíbrio e a adequação da casa [10].
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