Quantas Aplicações de PRP no Joelho? O Que os Estudos Testaram

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

Uma, duas ou três? A resposta existe, mas é mais estreita do que parece: os ensaios reunidos nessas revisões compararam até três aplicações, e repetição indefinida ou manutenção anual não aparece entre o que elas avaliaram. Entender essa fronteira é o que permite decidir com informação, junto do seu médico.

Este artigo é informativo. As decisões sobre qualquer tratamento envolvem a avaliação da sua equipe médica — que considera seus exames, suas outras doenças, suas expectativas e o seu caso individual. Nenhum texto substitui essa conversa.

Quem cogita fazer PRP — sigla de plasma rico em plaquetas, um concentrado preparado a partir do sangue do próprio paciente — quase sempre esbarra na mesma pergunta antes de decidir: quantas aplicações são necessárias? A pergunta costuma vir junto de uma proposta que já traz um número de sessões e um intervalo definidos.

A boa notícia é que essa pergunta específica foi estudada. Existem revisões que juntaram ensaios clínicos comparando diretamente uma aplicação com duas e com três. A notícia menos confortável é que a resposta que elas dão é mais estreita do que costuma parecer: as comparações analisadas param em três aplicações, e o que vem depois disso não aparece nesses trabalhos.

Este artigo mostra onde termina o que foi medido nos estudos e onde começa o que ainda não foi comparado por nenhum ensaio.

Joelho preparado com antissepsia e campos estéreis durante uma infiltração intra-articular, com o médico de luvas posicionando a seringa
Infiltração intra-articular do joelho, com antissepsia e campo estéril. No joelho, guiar a punção por ultrassom é decisão do médico, quando é preciso mais informação; no quadril, a infiltração é sempre guiada por ultrassom. Foto: PainDoctorUSA via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

1. O que foi realmente comparado: uma, duas ou três aplicações

Duas revisões sistemáticas reuniram os ensaios clínicos que compararam número de aplicações de PRP no joelho. Elas não são estudos novos: são trabalhos que juntam vários ensaios já feitos e analisam o conjunto.

A primeira, publicada em 2019 no Orthopaedic Journal of Sports Medicine, reuniu 5 ensaios clínicos randomizados — em que o tratamento de cada paciente é definido por sorteio — com 301 pacientes.[1] A segunda, publicada em 2023 na revista Arthroscopy, reuniu 7 ensaios randomizados com 575 pacientes.[2]

Nas duas, a comparação foi a mesma: pacientes com artrose de joelho que receberam uma única aplicação contra pacientes que receberam duas ou três. É a pergunta certa, feita da forma certa — com sorteio de qual paciente recebe o quê, que é o desenho que evita que a preferência do médico ou do paciente contamine o resultado.

2. O que as revisões encontraram

Os dois trabalhos apontam na mesma direção, com nuances importantes.

A revisão de 2019 encontrou que, seis meses depois, uma aplicação e múltiplas aplicações tiveram melhora de dor semelhante, sem diferença que os cálculos considerem confiável. Na função do joelho, porém, houve vantagem para as múltiplas aplicações — e, ao detalhar, essa vantagem só apareceu na comparação entre uma e três aplicações. Entre uma e duas, nada.[1]

A revisão de 2023 mediu mais adiante, doze meses depois. Encontrou que três aplicações resultaram em melhora de dor maior do que uma, com diferença consistente nos cálculos — o que não informa, por si, o tamanho do alívio sentido. E, de novo, duas aplicações não se diferenciaram de uma.[2]

Resumindo o que os números dizem: se existe alguma vantagem em repetir, ela aparece no salto de uma para três. O passo intermediário, de uma para duas, não mostrou ganho em nenhuma das duas revisões.

3. Por que essa resposta precisa ser lida com cautela

A vantagem descrita acima vem com uma ressalva que precisa ser dita junto: a certeza dessa comparação é limitada.

A revisão de 2019 relatou heterogeneidade extrema entre os estudos que juntou — uma medida técnica que ficou em 97%.[1] Em linguagem simples: os ensaios reunidos discordavam profundamente entre si. Alguns encontravam muito benefício, outros quase nenhum. Quando isso acontece, a média do conjunto é um número frágil, porque ela não representa bem nenhum dos estudos que a compõem.

Os próprios autores foram explícitos quanto a isso. A revisão de 2019 conclui que a evidência disponível ainda é insuficiente e que novas pesquisas sobre este tema específico são necessárias para confirmar os resultados.[1] A de 2023 registra que há escassez de estudos grandes e de alta qualidade, e ela própria foi classificada como nível II de evidência — uma escala em que o nível I corresponde aos estudos de maior confiabilidade, com sorteio rigoroso e baixo risco de viés — isto é, de fatores que distorcem o resultado —, e o nível II fica um degrau abaixo.[2]

Então a leitura honesta não é "está provado que são necessárias três aplicações". É: existe um sinal favorável a três aplicações, de certeza limitada, apoiado em estudos que discordam bastante entre si.

4. O que essas revisões não compararam

Nessas duas revisões, as comparações analisadas vão até três aplicações. Nenhuma delas relata comparação com a quarta aplicação em diante, nem avaliação de repetir o ciclo todo ano como manutenção.

Isso não significa que repetir seja necessariamente prejudicial. Significa algo diferente e importante: quando um ciclo anual é apresentado como o que funciona, essa afirmação não se apoia nas revisões que compararam número de aplicações, porque elas não relatam ter avaliado isso. É uma prática, não um achado dessas revisões.

Uma observação importante para quem já fez várias aplicações: ausência de comparação não é sinal de que houve erro ou dano. Significa apenas que essa faixa não foi medida nos estudos que compararam número de doses, e que a decisão foi tomada com base na avaliação clínica do médico que acompanhou o caso — que é o que continua valendo daqui em diante.

Daí sai uma pergunta útil para a consulta: quantas aplicações estão sendo propostas no meu caso, e em que essa escolha se apoia? É uma pergunta comum na avaliação de qualquer tratamento, e ela ajuda o médico a explicar o raciocínio dele para o seu quadro. A decisão sobre qual conduta tomar no seu caso é exclusiva do seu médico, que avalia o conjunto — seu quadro clínico, exames, comorbidades e objetivos.

5. E o intervalo entre uma aplicação e outra?

Aqui é preciso separar o que é evidência do que é convenção.

As revisões que compararam número de aplicações analisaram justamente o número, não o intervalo ideal entre elas. Não há, nesses trabalhos, uma comparação direta entre aplicar com uma semana, com duas ou com um mês de distância que permita dizer qual intervalo é superior.

Ou seja: quando um protocolo especifica um intervalo exato, ele está seguindo a rotina adotada nos estudos e na prática, e não um resultado que tenha demonstrado aquele intervalo ser melhor que outro. Isso é normal em medicina: boa parte dos protocolos nasce da rotina que funcionou na prática, e não de uma comparação direta. O que muda para você é saber distinguir as duas coisas quando o intervalo for explicado na consulta.

6. Mais aplicações trazem mais risco?

Quanto à segurança, o dado é tranquilizador dentro do que foi estudado.

A revisão de 2023 comparou os eventos adversos — ou seja, os efeitos indesejados e complicações registrados nos estudos — e não encontrou diferença de segurança em relação à aplicação única, nem para duas nem para três aplicações.[2] Repetir dentro dessa faixa, portanto, não apareceu como algo que aumente o risco de complicação nos ensaios analisados.

Vale lembrar que o PRP é preparado com o sangue do próprio paciente, o que afasta as reações típicas de substâncias estranhas ao organismo. Mas continua sendo uma punção dentro da articulação, ou seja, uma agulha entrando na articulação, e todo procedimento que entra numa articulação carrega um risco pequeno de infecção articular. Esse risco é baixo, e é um dos motivos pelos quais a técnica, o ambiente e quem aplica importam.

7. O que a nova regra do CFM mudou nessa conversa

Desde julho de 2026 está em vigor a Resolução CFM nº 2.464/2026, que regulamenta o uso do PRP como procedimento médico auxiliar em condições osteomusculares específicas.[3]

Ela muda o terreno da conversa sobre número de sessões de um jeito concreto. O tratamento passa a ter regras claras sobre onde é permitido usar, quem pode aplicar e o que pode ser prometido. Isso significa que a discussão sobre quantas aplicações fazer passa a acontecer dentro de um enquadramento profissional definido, com critérios explícitos de indicação, de quem aplica e do que pode ser informado ao paciente.

Se você está avaliando uma proposta de PRP agora, vale conhecer o que mudou: reunimos isso em a nova regra do CFM para o PRP: o que muda para você.

8. Como usar tudo isso na sua decisão

Juntando o que foi medido, sobra uma orientação bem mais simples do que a quantidade de números sugere.

Primeiro: a pergunta sobre número de aplicações vem depois de outra. Antes de decidir quantas, faz sentido entender o quanto o PRP alivia sintomas no seu caso e o que ele não faz. Isso está em PRP no joelho funciona? o que a ciência recente diz e, sobre a promessa de regeneração, em PRP regenera cartilagem? o que a ressonância mostrou.

Segundo: se a decisão for por fazer, o número que tem algum respaldo comparativo é três, com a ressalva honesta de que a certeza é limitada. Duas aplicações não mostraram vantagem sobre uma em nenhuma das duas revisões. Isso descreve o que os estudos compararam, não uma indicação para o seu caso — quem define é o seu médico.

Terceiro: a partir da quarta aplicação, e para propostas de manutenção anual, essas revisões não oferecem base comparativa. Vale levar a pergunta para a consulta.

Quarto, e igualmente relevante: nenhuma quantidade de aplicações substitui o que tem evidência consistente na artrose do joelho — fortalecimento muscular orientado, atividade física regular e controle de peso quando ele pesa na articulação. O PRP, quando entra, entra ao lado disso, e não no lugar disso.

E, se a artrose já está avançada, com dor que limita o dia a dia mesmo com tratamento bem-feito, a conversa muda de assunto — não de dose. Nesse ponto, o caminho a discutir é outro, e ele está descrito em quando o tratamento conservador já não resolve.

Referencias

  1. Vilchez-Cavazos F, Millán-Alanís JM, Blázquez-Saldaña J, et al. Comparison of the Clinical Effectiveness of Single Versus Multiple Injections of Platelet-Rich Plasma in the Treatment of Knee Osteoarthritis: A Systematic Review and Meta-analysis. Orthop J Sports Med. 2019;7(12):2325967119887116. link
  2. Tao X, Aw AAL, Leeu JJ, Bin Abd Razak HR. Three Doses of Platelet-Rich Plasma Therapy Are More Effective Than One Dose of Platelet-Rich Plasma in the Treatment of Knee Osteoarthritis: A Systematic Review and Meta-analysis. Arthroscopy. 2023;39(12):2568-2576.e2. link
  3. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.464/2026: regulamenta o uso do plasma rico em plaquetas (PRP) como procedimento médico auxiliar no tratamento de condições osteomusculares específicas. Em vigor desde 15 de julho de 2026 (revoga a Resolução CFM nº 2.128/2015). Notícia oficial do CFM. link

Perguntas Frequentes

Quantas aplicações de PRP são necessárias no joelho?

Os ensaios clínicos compararam uma, duas e três aplicações. Duas revisões sistemáticas encontraram vantagem das três aplicações sobre uma — em função aos seis meses numa delas e em dor aos doze meses na outra. Duas aplicações não mostraram vantagem sobre uma em nenhuma das duas. A certeza, porém, é limitada: os estudos reunidos discordam muito entre si e ainda são escassos os estudos grandes do grau de confiabilidade mais alto (chamado nível I) sobre esta pergunta específica.

Duas aplicações de PRP são melhores do que uma?

Nas duas revisões sistemáticas que compararam diretamente, não. Tanto no trabalho de 2019 quanto no de 2023, duas aplicações não se diferenciaram de uma única. A diferença, quando apareceu, foi entre uma e três aplicações.

Preciso repetir o PRP todo ano?

Os estudos que compararam número de aplicações pararam em três e não testaram repetição anual como manutenção. Ou seja, um ciclo anual não é um achado desses estudos: é uma prática. Vale levar a pergunta para a consulta: em que essa escolha se apoia no meu caso?

Qual o intervalo entre uma aplicação de PRP e outra?

As revisões analisaram o número de aplicações, não qual intervalo é superior. Quando um protocolo especifica um intervalo exato, ele segue a rotina adotada nos estudos e na prática clínica, e não uma comparação que tenha demonstrado aquele intervalo ser melhor que outro.

Fazer mais aplicações de PRP aumenta o risco?

Dentro da faixa estudada, não. A revisão de 2023 não encontrou diferença de efeitos indesejados (eventos adversos) em relação à aplicação única, nem para duas nem para três aplicações. Como em qualquer procedimento que entra na articulação, permanece um risco pequeno de infecção articular.

Se três aplicações são melhores, por que não fazer cinco?

Porque essa comparação não foi feita. Os ensaios pararam em três aplicações, então não há dado que sustente que cinco seriam melhores que três. Mais não é automaticamente melhor quando ninguém mediu.

O PRP substitui a fisioterapia e o exercício?

Não. Fortalecimento muscular orientado, atividade física regular e controle de peso, quando ele pesa na articulação, são o que tem evidência mais consistente na artrose do joelho. O PRP, quando entra, entra ao lado disso.

Já fiz várias aplicações de PRP. O que isso significa?

Não significa que algo tenha sido feito de forma equivocada. Repetir aplicações não é conduta proibida nem se mostrou prejudicial dentro do que foi estudado. Este artigo apenas separa o que foi medido nos ensaios do que não foi, para que a próxima conversa com o seu médico aconteça com essa informação à mão.

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