Como escolher um cirurgião de prótese de quadril e joelho

Escolher o cirurgião de uma prótese de quadril ou de joelho é uma decisão importante. Esta página reúne pontos que costumam ajudar na consulta — registro de especialista, formação, experiência, hospital, reabilitação e expectativas — para você conversar com o seu médico.

O que significa o registro de especialista em ortopedia e traumatologia?

O RQE — Registro de Qualificação de Especialista — é o registro, no Conselho Regional de Medicina, da especialidade do médico. Ele aparece ao lado do número do CRM (o registro do médico no Conselho Regional de Medicina). Ortopedia e traumatologia é a área que cuida do aparelho locomotor: ossos, articulações, músculos e ligamentos. O título de especialista em Ortopedia e Traumatologia é concedido pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e se refere à ortopedia como um todo.

Como consultar: no site do Conselho Federal de Medicina (portal.cfm.org.br), na busca de médicos, você digita o nome ou o número de registro e vê a especialidade registrada. A consulta é pública e gratuita, e é um bom ponto de partida para a conversa na consulta.

Como é a formação em cirurgia de quadril e de joelho?

Dentro da ortopedia, a cirurgia do quadril e a cirurgia do joelho são áreas com técnica própria. Depois da residência, muitos cirurgiões fazem uma especialização ou um fellowship — período de treinamento supervisionado em um serviço específico — dedicado a essas articulações.

Na consulta, é natural conversar sobre essa formação e sobre há quanto tempo o cirurgião se dedica a esse tipo de cirurgia. São assuntos comuns, e o cirurgião está acostumado a falar deles.

O que os estudos mostram sobre a experiência do cirurgião?

Em quadril, uma revisão que reuniu 28 estudos mostrou que cirurgiões com maior volume de cirurgias apresentaram tempo de internação mais curto, custos menores e menos luxação (quando a prótese sai do lugar), além de a prótese durar mais sem precisar ser trocada no curto e no médio prazo — mas não no longo prazo [1]. Um estudo com dados do registro americano de próteses mostrou que a combinação de cirurgião e hospital de baixo volume esteve associada a mais cirurgias de revisão (nova operação para trocar a prótese), e mais luxação precoce [2]. Um estudo populacional de 2024, sobre a via de acesso anterior do quadril, mostrou que, entre cirurgiões que faziam de 0 a cerca de 30 casos por ano, a chance de complicações caía de forma acentuada conforme o volume aumentava [3].

Em joelho, uma revisão de 2012 mostrou que o baixo volume de cirurgias esteve associado a mais infecção, internação mais longa, mais transfusão de sangue e piores resultados relatados pelos pacientes [4]. Nesse mesmo trabalho não houve associação com o tempo de duração do implante nem com tromboembolismo (formação de coágulo), e os próprios autores pedem cautela na leitura dos resultados [4].

Nenhuma dessas revisões define um número mínimo de cirurgias que um médico precisa ter feito — o que elas mostram é uma tendência de melhores resultados com maior volume. O volume é um fator entre vários: o resultado depende também do seu quadro, das suas outras doenças, da reabilitação e do seguimento das orientações. Na consulta, você pode conversar sobre a experiência do cirurgião com casos parecidos com o seu e sobre o que ele costuma observar na recuperação desses pacientes.

O que os estudos mostram sobre a experiência do hospital?

O volume do hospital — quantas próteses de quadril e de joelho ele realiza por ano — também aparece associado aos resultados. Em joelho, uma revisão de 2022 concluiu que hospitais com maior volume provavelmente têm menos readmissão (nova internação) em até 3 meses; para infecção profunda e cirurgia de revisão tardia, talvez não haja associação, com evidência de confiança muito baixa [5]. Em quadril, uma revisão de 2019 encontrou, em hospitais de baixo volume, mais infecção no local da cirurgia e mais complicações; a maioria dos estudos era retrospectiva, ou seja, olhava para dados já registrados [6]. Nenhuma das duas revisões define um número mínimo de cirurgias para um hospital [5][6].

Também vale saber como funciona a estrutura: quem faz a anestesia, se há leito de terapia intensiva disponível quando necessário, se há banco de sangue e como é feita a fisioterapia nos primeiros dias. São informações simples de pedir e que ajudam a entender o ambiente onde a cirurgia será feita.

A via de acesso no quadril muda o resultado?

A via de acesso é o caminho que o cirurgião usa para chegar à articulação do quadril: pela frente (anterior), pela lateral ou por trás (posterior), entre outras. Uma revisão de 63 ensaios clínicos randomizados — estudos em que os pacientes são sorteados entre as opções, um dos formatos mais confiáveis de comparação — encontrou melhora semelhante da função com a maioria das vias e nenhuma diferença significativa de segurança entre elas [7].

Outra revisão mostrou que a via anterior teve melhor função nas primeiras semanas e, em comparação com a via posterior, internação um pouco mais curta e cirurgia um pouco mais longa, sem diferença em luxação, lesão de nervo, fratura ou trombose [8]. Um estudo grande de 2020 encontrou um pequeno aumento de complicações maiores com a via anterior, em torno de 2% contra 1% [9]. Ou seja: até hoje, não há evidência de que uma via seja superior às outras para todos os pacientes [7]. O mais útil é conversar sobre qual via o seu cirurgião pretende usar no seu caso e por quê.

Existe um protocolo de recuperação acelerada?

Recuperação acelerada, também chamada de ERAS (do inglês Enhanced Recovery After Surgery), é um conjunto de medidas antes, durante e depois da cirurgia para acelerar a recuperação.

Uma revisão de 2021 concluiu que esse tipo de protocolo provavelmente reduz o tempo de internação, com pouco ou nenhum impacto nas complicações do período perioperatório (o período em volta da cirurgia) ou na readmissão [10]. Os autores observam que a qualidade das evidências disponíveis era limitada [10]. Vale perguntar ao seu cirurgião se ele trabalha com esse tipo de protocolo e como costuma ser o pós-operatório, o tempo de internação e a volta às atividades.

Dá para conversar sobre o que esperar da cirurgia?

Conversar sobre o que a cirurgia pode e o que não pode resolver faz parte da preparação. Em joelho, uma revisão de 2023 que reuniu 21 estudos encontrou taxa média de insatisfação de 10% — aproximadamente 1 em cada 10 pacientes — e de 7,3% quando as complicações são excluídas; os motivos mais citados foram complicações, expectativas não atendidas, dor persistente e rigidez [11]. Um estudo mais antigo, de 2010, descreveu taxa em torno de 19% e apontou a expectativa não atendida como o fator de maior peso [12].

Uma revisão de 2021 sobre decisão compartilhada — quando paciente e médico decidem juntos —, feita em pacientes candidatos a prótese de joelho, mostrou que um material de apoio específico aumentou o conhecimento sobre as opções de tratamento; esse mesmo trabalho não demonstrou efeito sobre a satisfação nem sobre a decisão tomada [13].

Na prática, vale levar suas dúvidas por escrito, contar o que você espera da cirurgia e ouvir do seu médico quais resultados são realistas no seu caso, inclusive o que pode não melhorar.

Posso ouvir uma segunda opinião?

Sim. Ouvir a avaliação de outro médico é uma prática comum e aceita na medicina — não é sinal de desconfiança nem de conflito. É comum que o próprio médico receba o pedido com naturalidade. Se você quiser, pode pedir ao seu médico que encaminhe seus exames e laudos para a segunda avaliação; isso costuma deixar a conversa mais produtiva.

A decisão sobre o tratamento é tomada em conjunto, por você e pelo seu médico, considerando o seu quadro clínico, exames, comorbidades e objetivos.

Quais perguntas costumam ajudar na consulta?

  • O que se espera que melhore com a cirurgia e o que pode não melhorar? Quais são os riscos e as complicações possíveis no meu caso?
  • Qual via de acesso será usada no meu caso e por quê?
  • Como costuma ser o pós-operatório, o tempo de internação e a volta às minhas atividades?
  • Em qual hospital a cirurgia será feita e como é a estrutura de lá — anestesia, terapia intensiva e fisioterapia?
  • Pode me contar um pouco da sua experiência com cirurgias como a minha?
  • Como foi a sua formação em cirurgia de quadril (ou de joelho)?
  • Se eu quiser ouvir uma segunda opinião, é possível encaminhar os meus exames?

Para saber mais sobre a cirurgia, veja prótese de quadril e prótese de joelho.

Perguntas frequentes

Preciso escolher o médico que faz o maior número de cirurgias?

As revisões não definem um número mínimo universal. O que elas mostram é uma tendência de melhores resultados entre cirurgiões e hospitais com maior volume, tanto em quadril [1][2] quanto em joelho [4]. O volume é um fator entre vários, e vale conversar sobre a experiência do seu cirurgião com o seu tipo de cirurgia.

A via anterior do quadril é melhor que as outras?

As evidências atuais não mostram que uma via seja melhor que as outras para todos os pacientes [7]. A via anterior teve melhor função nas primeiras semanas e, em comparação com a via posterior, internação um pouco mais curta e cirurgia um pouco mais longa [8]; um estudo grande encontrou um pequeno aumento de complicações maiores com ela, em torno de 2% contra 1% [9]. A escolha da via é feita pelo cirurgião, considerando o seu caso.

A recuperação acelerada é segura?

Uma revisão de 2021 concluiu que os protocolos de recuperação acelerada provavelmente reduzem o tempo de internação, com pouco ou nenhum impacto nas complicações do período em volta da cirurgia ou na readmissão; a qualidade das evidências disponíveis era limitada [10].

É normal querer uma segunda opinião?

Sim, é uma prática comum e aceita na medicina. Você pode conversar abertamente com o seu médico sobre isso e pedir que ele encaminhe seus exames e laudos.

Referências

  1. Malik AT, Jain N, Scharschmidt TJ, et al. Does Surgeon Volume Affect Outcomes Following Primary Total Hip Arthroplasty? A Systematic Review. J Arthroplasty. 2018. PMID 29921502. PubMed
  2. Siddiqi A, Alamanda VK, Barrington JW, et al. Effects of Hospital and Surgeon Volume on Patient Outcomes After Total Joint Arthroplasty: Reported From the American Joint Replacement Registry. J Am Acad Orthop Surg. 2022. PMID 35191864. PubMed
  3. Ruangsomboon P, Bagouri E, Pincus D, et al. Association of surgeon volume with complications following direct anterior approach (DAA) total hip arthroplasty: a population-based study. Acta Orthop. 2024. PMID 39254644. PubMed
  4. Lau RL, Perruccio AV, Gandhi R, et al. The role of surgeon volume on patient outcome in total knee arthroplasty: a systematic review of the literature. BMC Musculoskelet Disord. 2012. PMID 23241362. PubMed
  5. Kugler CM, Goossen K, Rombey T, et al. Hospital volume-outcome relationship in total knee arthroplasty: a systematic review and dose-response meta-analysis. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2022. PMID 34494124. PubMed
  6. Mufarrih SH, Ghani MOA, Martins RS, et al. Effect of hospital volume on outcomes of total hip arthroplasty: a systematic review and meta-analysis. J Orthop Surg Res. 2019. PMID 31881918. PubMed
  7. Yan L, Ge L, Dong S, et al. Evaluation of Comparative Efficacy and Safety of Surgical Approaches for Total Hip Arthroplasty: A Systematic Review and Network Meta-analysis. JAMA Netw Open. 2023. PMID 36719679. PubMed
  8. Ang JJM, Onggo JR, Stokes CM, et al. Comparing direct anterior approach versus posterior approach or lateral approach in total hip arthroplasty: a systematic review and meta-analysis. Eur J Orthop Surg Traumatol. 2023. PMID 37010580. PubMed
  9. Pincus D, Jenkinson R, Paterson M, et al. Association Between Surgical Approach and Major Surgical Complications in Patients Undergoing Total Hip Arthroplasty. JAMA. 2020. PMID 32181847. PubMed
  10. Morrell AT, Layon DR, Scott MJ, et al. Enhanced Recovery After Primary Total Hip and Knee Arthroplasty: A Systematic Review. J Bone Joint Surg Am. 2021. PMID 34166275. PubMed
  11. DeFrance MJ, Scuderi GR. Are 20% of Patients Actually Dissatisfied Following Total Knee Arthroplasty? A Systematic Review of the Literature. J Arthroplasty. 2023. PMID 36252743. PubMed
  12. Bourne RB, Chesworth BM, Davis AM, et al. Patient satisfaction after total knee arthroplasty: who is satisfied and who is not?. Clin Orthop Relat Res. 2010. PMID 19844772. PubMed
  13. Riddle DL, Sando T, Tarver T, et al. Shared Decision-Making Applied to Knee Arthroplasty: A Systematic Review of Randomized Trials. Arthritis Care Res (Hoboken). 2021. PMID 32339448. PubMed

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