Prótese de quadril ou joelho: antibiótico antes do dentista?

Por Prof. Dr. Daniel Araujo Fernandes, PhD —

Preciso tomar antibiótico antes do dentista depois de prótese de quadril ou joelho?

Ilustração anatômica da prótese total de quadril instalada: a cúpula ocupa o encaixe na bacia e a haste metálica desce dentro do fêmur
A prótese total de quadril no lugar: a cúpula substitui o encaixe na bacia e a haste é fixada dentro do fêmur. Ilustração: Servier Medical Art (CC BY-SA 3.0), recortada

Qual é a resposta curta?

Em geral, não. Para a maioria das pessoas com prótese de quadril ou de joelho, tomar antibiótico antes do dentista não é recomendado como rotina para prevenir infecção da prótese.[1, 6]

A exceção discutida pelos ortopedistas americanos é um procedimento dentário invasivo, como uma extração, em quem tem a imunidade muito comprometida. Nesse caso, a decisão é individual e pode incluir o seu ortopedista.[6]

Por que existe essa preocupação?

A dúvida é se bactérias da boca poderiam chegar à prótese e causar a chamada infecção periprotética, que é a infecção em volta da articulação artificial. Por isso, durante anos, o antibiótico antes do dentista foi usado como precaução, a chamada profilaxia antibiótica.[2]

O que os dentistas americanos concluíram sobre o antibiótico?

Em 2015, um painel da Associação Dental Americana (ADA) revisou a evidência disponível e publicou uma diretriz no periódico científico da associação (Sollecito e colaboradores, 2015).[1]

O painel encontrou quatro estudos do tipo caso-controle, que comparam pessoas que tiveram infecção com pessoas que não tiveram. Segundo os autores, a melhor evidência disponível não mostrou associação entre procedimentos dentários e infecção da prótese.[1]

A conclusão foi que, em geral, o antibiótico antes do dentista não é recomendado para quem tem prótese articular. A própria diretriz, contudo, pede que o profissional e o paciente considerem as situações clínicas que possam indicar um risco médico significativo.[1]

Vale registrar o limite: a base foi de quatro estudos caso-controle.[1] É uma conclusão prudente, e não uma questão encerrada.

O tratamento dentário aumenta o risco de infecção na prótese?

Em 2022 e 2023, um mesmo grupo de pesquisadores do Reino Unido e dos Estados Unidos publicou duas análises grandes sobre o tema (Thornhill e colaboradores). Por serem do mesmo grupo, elas devem ser lidas como uma única linha de evidência, e não como confirmações independentes.[2, 3]

O primeiro estudo usou dados da Inglaterra, país onde o antibiótico antes do dentista nunca foi recomendado para quem tem prótese. Foram analisadas 9.427 internações por infecção tardia da prótese. Os autores não encontraram associação entre procedimentos dentários invasivos e infecção posterior da prótese; esses procedimentos foram até menos frequentes nos 3 meses que antecederam a internação.[2]

O segundo estudo usou uma base de planos de saúde privados (incluindo planos complementares ao Medicare) e do Medicaid, o programa público, dos Estados Unidos, com 2.344 internações por infecção tardia da prótese. Novamente, não houve associação entre os procedimentos dentários invasivos e a infecção, e o antibiótico não teve efeito significativo na redução da infecção. Dos 1.821 procedimentos dentários invasivos analisados, 18,3% foram feitos com antibiótico.[3]

Os autores concluíram que não há razão para usar o antibiótico antes desses procedimentos e que esse uso deveria ser interrompido. Essa é a leitura deles, baseada em estudos observacionais.[2, 3] Os critérios dos ortopedistas americanos, por sua vez, valem para pessoas de risco médio ou baixo e informam que não há dados para orientar a decisão nos casos de risco aumentado.[6]

O que os estudos ainda não conseguem responder?

Ainda não há resposta definitiva sobre se o antibiótico protege ou não. Um artigo dos mesmos pesquisadores aponta que falta evidência de que o antibiótico funcione para esse fim,[4] e os estudos citados aqui são observacionais (do tipo caso-controle e caso-cruzado, que compara a mesma pessoa em períodos diferentes).[1, 2, 3]

Os estudos não encontraram associação,[1, 2, 3] mas isso não prova causa e efeito. Por isso, o que se sustenta é: em geral não é recomendado, e os casos de risco aumentado são avaliados individualmente.[1, 6]

Em quais casos o antibiótico ainda pode ser considerado?

A Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS) publicou critérios de uso apropriado sobre o tema. O documento completo saiu em junho de 2025, e um artigo-resumo foi publicado em 2026 na revista da academia (Grosso e colaboradores). Um painel de médicos e dentistas de várias especialidades avaliou quatro situações, dando a cada conduta uma nota de 1 a 9.[5, 6]

As quatro situações combinam duas perguntas. A primeira é se o procedimento é invasivo, isto é, se mexe na gengiva ou na região da raiz do dente ou perfura a mucosa (o revestimento interno) da boca: raspagem e alisamento da raiz (limpeza profunda abaixo da gengiva), extração, cirurgia na boca (incluindo implante dentário) e tratamento de infecção ativa. Exame, radiografia, limpeza sem raspagem, anestesia, restauração, coroa, ajuste de aparelho e tratamento de canal foram classificados como não invasivos.[6]

A segunda pergunta é se a pessoa tem a imunidade muito comprometida. A lista do documento, baseada no CDC (o centro de controle de doenças dos Estados Unidos), inclui: AIDS em fase avançada; quimioterapia com queda importante das células de defesa; artrite reumatoide em uso de medicamento biológico (remédio injetável que age sobre o sistema de defesa) ou de mais de 10 mg de prednisona por dia (metotrexato e hidroxicloroquina não entram nessa lista); transplante de órgão com uso de imunossupressor (remédio que reduz as defesas do corpo); certas fases do transplante de medula; e imunodeficiências de nascença.[6] Esta lista serve apenas para orientar a conversa com o seu médico. Não suspenda, não reduza e não altere nenhum remédio por causa do tratamento dentário sem falar antes com o médico que o prescreveu.

O resultado foi este. Nos procedimentos não invasivos, com ou sem imunidade comprometida, e nos procedimentos invasivos em quem tem imunidade normal, não usar antibiótico foi considerado apropriado (nota 9) e usar foi considerado raramente apropriado (notas 2 a 3). Só no procedimento invasivo em quem tem imunidade muito comprometida as duas condutas ficaram como "pode ser apropriada" (nota 6), ou seja, a decisão é feita caso a caso.[6]

O próprio documento delimita o alcance: ele vale para pessoas de risco médio ou baixo. Para quem tem prótese de revisão (uma prótese que já foi trocada), prótese muito extensa, pele e tecidos frágeis em volta da articulação ou infecção anterior da prótese, os autores dizem que não há dados para orientar a decisão. Nesses casos, a conversa com o ortopedista é ainda mais importante.[6]

O que eu faço antes da minha próxima consulta no dentista?

Avise o seu dentista de que você tem uma prótese de quadril ou de joelho. Se você usa algum dos medicamentos ou tem alguma das condições que comprometem a imunidade, ou se a sua prótese já foi trocada ou já teve infecção, converse antes com o seu ortopedista.[6]

Um artigo de 2022 dos mesmos pesquisadores (Springer e colaboradores) recomenda manter o foco na boa higiene da boca, e o documento da AAOS considera o cuidado dentário e a higiene uma medida de prevenção tão ou mais importante que o antibiótico.[4, 6] Cuidar da saúde da boca é parte do cuidado com a prótese.

Não tome antibiótico por conta própria. A decisão sobre o tratamento é tomada em conjunto, por você e pelo seu médico, considerando o seu quadro clínico, exames, comorbidades e objetivos. No caso do antibiótico antes do dentista, essa conversa inclui também o seu dentista.

Referencias

  1. Sollecito TP, Abt E, Lockhart PB, Truelove E, Paumier TM, Tracy SL, Tampi M, Beltrán-Aguilar ED, Frantsve-Hawley J. The use of prophylactic antibiotics prior to dental procedures in patients with prosthetic joints: evidence-based clinical practice guideline for dental practitioners--a report of the American Dental Association Council on Scientific Affairs. J Am Dent Assoc. 2015. PMID 25569493. link
  2. Thornhill MH, Crum A, Rex S, Stone T, Campbell R, Bradburn M, Fibisan V, Lockhart PB, Springer B, Baddour LM, Nicholl J. Analysis of Prosthetic Joint Infections Following Invasive Dental Procedures in England. JAMA Netw Open. 2022. PMID 35044470. link
  3. Thornhill MH, Gibson TB, Pack C, Rosario BL, Bloemers S, Lockhart PB, Springer B, Baddour LM. Quantifying the risk of prosthetic joint infections after invasive dental procedures and the effect of antibiotic prophylaxis. J Am Dent Assoc. 2023. PMID 36470690. link
  4. Springer BD, Baddour LM, Lockhart PB, Thornhill MH. Antibiotic Prophylaxis for Prosthetic Joint Patients Undergoing Invasive Dental Procedures: Time for a Rethink? J Arthroplasty. 2022. PMID 35158002. link
  5. Grosso MJ, Patton LL, Nelson SB, Urish KL, Kagan R, Manner P, Higuera Rueda CA. American Academy of Orthopaedic Surgeons Appropriate Use Criteria: Prevention of Orthopaedic Implant Infection in Patients Undergoing Dental Procedures. J Am Acad Orthop Surg. 2026. PMID 42228903. link
  6. American Academy of Orthopaedic Surgeons. Prevention of Orthopaedic Implant Infection in Patients Undergoing Dental Procedures: Appropriate Use Criteria. Publicado em 06/06/2025. link

Perguntas Frequentes

Quem tem prótese de joelho precisa de antibiótico antes da limpeza nos dentes?

Em geral, não. A limpeza sem raspagem foi classificada pela AAOS como procedimento não invasivo, e nessa situação não usar antibiótico foi considerado apropriado, com ou sem imunidade comprometida. A diretriz da ADA de 2015 e os estudos de 2022 e 2023 também não mostraram associação entre procedimentos dentários e infecção da prótese.[1, 2, 3, 6]

E quem tem prótese de quadril?

A orientação é a mesma da prótese de joelho: em geral o antibiótico não é recomendado como rotina. A situação discutida como exceção é o procedimento invasivo, como uma extração, em quem tem a imunidade muito comprometida, e ali a decisão é individual.[6]

Tratamento de canal e extração contam como procedimento invasivo?

No documento da AAOS, o tratamento de canal foi classificado como não invasivo. A extração, a raspagem e alisamento da raiz, a cirurgia na boca (incluindo implante dentário) e o tratamento de infecção ativa foram classificados como invasivos.[6]

Posso tomar o antibiótico por conta própria, por precaução?

Não. O antibiótico tem efeitos adversos e deve ser usado somente quando indicado pelo médico ou dentista que acompanha você. Tomar antibiótico sem necessidade também favorece a resistência bacteriana.[1, 3]

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