Este artigo é informativo. Os riscos de qualquer cirurgia dependem do seu caso: idade, peso, outras doenças, medicações e a articulação em si. Os números abaixo vêm de grandes populações e servem para entender a ordem de grandeza, não para prever o que vai acontecer com você. Essa conversa é feita na consulta.
"Quais são os riscos da cirurgia de prótese de quadril?" é uma das perguntas que mais aparecem quando alguém pesquisa o assunto, e costuma receber duas respostas ruins: a que minimiza ("é uma cirurgia muito segura") e a que assusta sem número. Este texto faz diferente. Para os riscos que os registros medem, mostra quanto cada um vale em registros nacionais de próteses e em revisões sistemáticas, o que o aumenta e o que está ao seu alcance antes da cirurgia.

1. A resposta curta: os riscos existem, estão medidos em números, e a maioria caiu nas últimas décadas
Entre os riscos que mais importam para quem vai colocar uma prótese de quadril estão a luxação (a prótese sair do lugar), a infecção, a diferença de comprimento entre as pernas, a trombose e, no extremo, a mortalidade nos primeiros meses. Nas grandes populações estudadas, luxação, infecção e mortalidade ficam na casa de menos de 1% a pouco mais de 1%, e o risco de luxação, o mais temido, caiu de forma consistente década após década. A trombose tem página própria, com os seus números.
Isso não quer dizer que sejam desprezíveis. Quer dizer que são conhecidos, medidos e, em boa parte, modificáveis. É o que as seções abaixo detalham, um por um.
2. Luxação: a prótese sair do lugar
Luxação é quando a cabeça da prótese sai da cavidade, geralmente num movimento de flexão e rotação nos primeiros meses. É o risco mais falado, e é também o que mais diminuiu.
Uma revisão sistemática, que é um estudo que reúne e analisa em conjunto todos os estudos já publicados sobre um tema, reuniu 174 estudos sobre luxação após prótese de quadril. O risco geral encontrado foi de 1,7%, com seguimento mediano de dois anos. Mas o dado mais importante é a tendência: o risco por década caiu de 3,7% nos anos 1960–1970 para 0,7% no período 2010–2020.[1] Ou seja, com técnica, implantes e reabilitação atuais, a luxação passou a ser um evento raro. Os próprios autores fazem uma ressalva honesta: os estudos de registro, que incluem todos os pacientes sem seleção, mostram risco maior que o das séries publicadas, e o número real tende a ser mais alto do que o relatado.[1]
Para pacientes com risco maior de luxação existem implantes específicos, chamados de dupla mobilidade: um modelo com duas superfícies de movimento, desenhado para que a prótese tenha mais dificuldade de sair do lugar. Numa revisão de 46 estudos, os 43 dedicados à dupla mobilidade reuniram mais de 18 mil implantes, e a luxação ficou em 0,25% ao longo de cerca de seis anos; os autores registram que todos os estudos tinham alto risco de viés, ou seja, de parcialidade nos resultados, o que pede cautela com o número.[2] A escolha do implante é do cirurgião, feita a partir do seu caso.
3. Infecção da prótese: pouco frequente, mas uma das mais sérias
A infecção da prótese é a complicação que mais preocupa os cirurgiões, porque tratá-la pode exigir nova cirurgia. Por isso os registros nacionais a medem com cuidado.
O registro australiano de próteses, um banco de dados nacional que acompanha todas as próteses colocadas no país, cruzado com dados de internação do estado de Nova Gales do Sul, encontrou uma taxa de infecção da prótese de quadril de 1,1% nos primeiros 90 dias por uma definição mais restrita, baseada no código diagnóstico de infecção, e de 1,5% por uma definição mais ampla. A revisão da prótese por infecção nesse mesmo período ficou em 0,3%.[3] No registro sueco, a reoperação por infecção no primeiro ano após prótese de quadril programada foi de 1,3%.[4]
O estudo sueco também mediu o que aumenta esse risco: cada ano a mais de idade associou-se a cerca de 2% mais risco, e cada dez minutos a mais de cirurgia, a cerca de 6%, sempre em termos relativos: é um acréscimo sobre uma taxa que já é de pouco mais de 1%, e não seis pontos percentuais a mais.[4] Desnutrição é outro fator já medido: numa meta-análise, que é o cálculo que soma os resultados de vários estudos, reunindo oito grupos de pacientes acompanhados ao longo do tempo e mais de 250 mil pessoas, os desnutridos tiveram risco cerca de três vezes maior de infecção da prótese de quadril.[5] Sinais de infecção e como ela é tratada estão em infecção na prótese: sinais e prevenção.
4. Uma perna mais comprida que a outra
A diferença de comprimento entre as pernas depois da prótese é uma queixa frequente, e muitas vezes é uma sensação temporária, que melhora com a adaptação dos músculos. Quando é real e maior que um centímetro, pode incomodar ao caminhar.
Uma revisão sistemática de 29 estudos comparou os caminhos pelos quais o cirurgião chega até a articulação, chamados de vias de acesso, quanto a essa complicação. A via pela frente do quadril, a anterior direta, mostrou resultados comparáveis ou melhores que a via posterior e a anterolateral na prevenção de diferenças maiores que 10 milímetros, e a revisão descreve as estratégias usadas antes e durante a cirurgia para controlar o comprimento.[6] A escolha da via é do cirurgião e depende do caso; nenhuma delas, isoladamente, determina o resultado. O que essa complicação significa e como é avaliada está em perna mais curta após prótese de quadril.
5. Trombose
A formação de coágulos nas veias da perna, a trombose venosa, é um risco de qualquer cirurgia grande de membro inferior, e por isso toda prótese de quadril vem acompanhada de um plano de prevenção: medicação, meias ou compressão, e levantar cedo. Esse assunto tem página própria, com o que a evidência mostra sobre cada medida: trombose e anticoagulação após a prótese.
6. Mortalidade nos primeiros meses: o que os registros mostram
Este é o dado que mais preocupa quem vai operar, e por isso ele merece ser dito por inteiro, com o contexto que lhe dá sentido, em vez de ser omitido. Toda cirurgia de grande porte tem um risco de morte nos primeiros meses. No registro nacional da Inglaterra, País de Gales, Irlanda do Norte e Ilha de Man, com mais de 400 mil primeiras próteses de quadril, a probabilidade de morte em 90 dias foi de 0,43% entre pacientes com peso normal.[7] Cirurgias de quadril feitas por fratura, em pessoas mais frágeis e sem preparo, são outro cenário, com números próprios, e não se misturam com estes.
Esse mesmo estudo mostra que o risco não é igual para todos: pacientes abaixo do peso tiveram mortalidade em 90 dias de 1,17%.[7] No sobrepeso e nas obesidades graus I e II, o mesmo estudo encontrou mortalidade em 90 dias menor que a do peso normal; para a obesidade grau III o resumo do estudo não traz esse dado. Ao mesmo tempo, o risco de revisão da prótese foi maior nas faixas de obesidade, como mostra a próxima seção.[7] Idade, sexo e o estado geral de saúde entram num modelo de previsão desenvolvido a partir de registros, que ajuda o cirurgião a individualizar a conversa antes da cirurgia.[8] A avaliação clínica pré-operatória existe exatamente para isso.
7. Fatores que aumentam os riscos, e o que pode ser trabalhado antes da cirurgia
Os estudos acima apontam os mesmos fatores repetidas vezes, e vários deles podem ser trabalhados antes da cirurgia.
Peso. No mesmo registro nacional britânico, o risco de revisão da prótese, que é a cirurgia para trocar a prótese já colocada, subiu com o grau de obesidade em relação ao peso normal: cerca de 14% a mais na obesidade grau I, 30% no grau II e 43% no grau III. São aumentos relativos, sobre uma taxa de base baixa, e não pontos percentuais somados.[7] Os registros mostram associação entre peso mais alto e mais complicações; por isso o trabalho sobre o peso antes da cirurgia costuma entrar no planejamento, sempre definido pelo seu médico junto com a equipe: emagrecer antes da prótese.
Estado nutricional. A desnutrição se associou a risco cerca de três vezes maior de infecção da prótese de quadril.[5] Na prática clínica, observa-se que uma pessoa com excesso de peso pode estar, ao mesmo tempo, com falta de proteína; é uma observação de consultório, não um achado dos estudos citados.
Doenças neurológicas. Pacientes com doença de Parkinson tiveram, numa meta-análise de dez estudos, risco cerca de duas vezes maior de luxação e de nova cirurgia, e cerca de três vezes maior de mortalidade.[9] Como nos outros números deste artigo, são aumentos relativos: multiplicam uma taxa de base baixa, e não somam pontos percentuais a ela. Os autores registram que a doença costuma ser considerada uma contraindicação à prótese de quadril; na prática atual, ela pesa no planejamento, na escolha do implante e nos cuidados depois, não é impedimento absoluto, e a indicação é individual.
Tempo de cirurgia e preparo. Cada dez minutos a mais de cirurgia se associou a cerca de 6% a mais de risco relativo de infecção no registro sueco.[4] É um dos motivos pelos quais o planejamento antes da operação importa tanto: como o cirurgião planeja a sua prótese.
Um esclarecimento necessário: fator de risco não é culpa. Complicações acontecem também em pacientes que fizeram tudo o que estava ao alcance deles, e a maioria dos casos não tem uma causa única identificável. Estes números servem para planejar o que ainda vem pela frente, não para atribuir responsabilidade a quem já passou por uma complicação.
8. E nos mais jovens?
Quem coloca prótese cedo teme, com razão, o desgaste e a necessidade de troca. Uma revisão de 32 estudos com mais de 4 mil quadris com idade média abaixo dos 55 anos, com hastes curtas, modelos em que a parte da prótese que entra no fêmur é mais curta e preserva mais osso, e seguimento médio de cerca de oito anos e meio, encontrou complicações pouco frequentes: fratura durante a cirurgia em 1,6%, luxação em 0,6%, infecção em 0,4%, e taxa de revisão de 1,6%; os próprios autores tratam os achados como geradores de hipótese, não como conclusão fechada.[10] A durabilidade em prazo longo é tratada em quanto tempo dura a prótese de quadril.
9. Como usar isso na sua decisão
Três coisas ficam. Primeira: os riscos são reais, medidos e, na maioria, abaixo de 1% a 2%; a luxação, a mais temida, caiu para menos de 1% na cirurgia atual. Segunda: os fatores mais associados a risco, como peso, nutrição e outras doenças, são conhecidos antes da cirurgia e alguns podem ser trabalhados. Terceira: o número que vale é o seu, calculado na consulta, com os seus exames e a sua história.
A decisão sobre qual conduta tomar no seu caso é exclusiva do seu médico, que avalia o conjunto — seu quadro clínico, exames, comorbidades (as outras doenças que você tem) e objetivos. Os critérios para essa decisão estão em quando operar a artrose de quadril, e o que acontece na cirurgia em como é feita a cirurgia de prótese de quadril.
Referencias
- van Erp JHJ, et al. Did the dislocation risk after primary total hip arthroplasty decrease over time? A meta-analysis across six decades. Arch Orthop Trauma Surg. 2023;143(7):4491-4500. link
- Donovan RL, et al. The Incidence and Temporal Trends of Dislocation After the Use of Constrained Acetabular Components and Dual Mobility Implants in Primary Total Hip Replacements: A Systematic Review and Meta-Analysis of Longitudinal Observational Studies. J Arthroplasty. 2022;37(5):993-1001.e8. link
- Jin X, et al. Estimating incidence rates of periprosthetic joint infection after hip and knee arthroplasty for osteoarthritis using linked registry and administrative health data. Bone Joint J. 2022;104-B(9):1060-1066. link
- Qvistgaard M, et al. Risk factors for reoperation due to periprosthetic joint infection after elective total hip arthroplasty: a study of 35,056 patients using linked data of the Swedish Hip Arthroplasty Registry (SHAR) and Swedish Perioperative Registry (SPOR). BMC Musculoskelet Disord. 2022;23(1):275. link
- Tsantes AG, et al. Association of malnutrition with periprosthetic joint and surgical site infections after total joint arthroplasty: a systematic review and meta-analysis. J Hosp Infect. 2019;103(1):69-77. link
- Tassinari L, et al. Leg length discrepancy after total hip arthroplasty performed by direct anterior approach: a systematic review comparing surgical approaches and strategies for prevention. EFORT Open Rev. 2024;9(8):733-744. link
- Mouchti S, et al. The Association of Body Mass Index with Risk of Long-Term Revision and 90-Day Mortality Following Primary Total Hip Replacement: Findings from the National Joint Registry for England, Wales, Northern Ireland and the Isle of Man. J Bone Joint Surg Am. 2018;100(24):2140-2152. link
- Garland A, et al. Prediction of 90-day mortality after total hip arthroplasty. Bone Joint J. 2021;103-B(3):469-478. link
- Liu Y, et al. Does Parkinson's disease increase the risk of adverse outcomes in patients undergoing total hip arthroplasty? A systematic review and meta-analysis. Orthop Traumatol Surg Res. 2026:104777. link
- Elbanna M, et al. Mid- to long-term outcomes of short stem total hip arthroplasty in patients younger than 55 years: a systematic review and meta-analysis. Hip Int. 2026. link
Perguntas Frequentes
Quais são os riscos da cirurgia de prótese de quadril?
Os principais são luxação (a prótese sair do lugar), infecção, diferença de comprimento entre as pernas, trombose e, no extremo, a mortalidade nos primeiros meses. Em grandes registros e revisões, luxação, infecção e mortalidade ficam na casa de menos de 1% a pouco mais de 1%. O risco individual depende de idade, peso, nutrição e outras doenças, e é calculado na consulta.
Qual a chance de a prótese de quadril sair do lugar?
Uma revisão de 174 estudos encontrou risco geral de 1,7%, e de 0,7% nas cirurgias feitas entre 2010 e 2020. Com implantes de dupla mobilidade, usados em pacientes de maior risco, a luxação ficou em 0,25% nos 43 estudos dedicados a eles, dentro de uma revisão de 46.
Qual a chance de infecção na prótese de quadril?
Cerca de 1,1% a 1,5% nos primeiros 90 dias no registro australiano, e revisão da prótese por infecção em 0,3% nesse período; no registro sueco, reoperação por infecção em 1,3% no primeiro ano. Idade, tempo de cirurgia e desnutrição estão associados a mais risco.
A cirurgia de prótese de quadril é perigosa?
É uma cirurgia de grande porte, com riscos conhecidos e medidos. A maioria das complicações fica abaixo de 1% a 2% nos registros nacionais. O risco de morte nos primeiros 90 dias, no registro inglês de primeiras próteses de quadril, foi de 0,43% entre pacientes de peso normal. Idade, estado de saúde e peso mudam esse número, e a avaliação pré-operatória existe para individualizá-lo.
O que posso fazer para reduzir os riscos antes da cirurgia?
Peso e estado nutricional são os fatores modificáveis que aparecem nos registros e nas revisões citadas neste artigo: obesidade se associou a mais revisões da prótese, e desnutrição a mais infecção. O que trabalhar antes da cirurgia, e como, é definido com o seu médico.
Quem tem Parkinson pode colocar prótese de quadril?
A doença de Parkinson, por si só, não é impedimento para a cirurgia; ela muda o planejamento. Uma meta-análise de dez estudos encontrou risco cerca de duas vezes maior de luxação e de nova cirurgia, e cerca de três vezes maior de mortalidade, nesses pacientes. São aumentos relativos, que multiplicam taxas de base baixas. A literatura registra que a doença costuma ser considerada uma contraindicação à cirurgia; na prática ela pesa muito na escolha do implante e nos cuidados, sem ser impedimento absoluto. A indicação, no caso concreto, é do médico assistente.
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