A prevenção de trombose venosa é uma das prioridades principais após a cirurgia de prótese de quadril ou joelho. Embora o risco de desenvolver coágulos sanguíneos seja baixo quando comparado ao passado, ainda representa uma complicação que merece atenção especial.
Neste guia completo, você aprenderá por que a trombose é uma preocupação após a prótese, quais são as opções disponíveis para preveni-la, quanto tempo dura o tratamento preventivo e como seu cirurgião ortopédico escolhe a melhor estratégia para o seu caso específico.
Este artigo foi elaborado com base nas diretrizes mais recentes da American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS), American College of Chest Physicians (ACCP) e International Consensus Meeting 2022. O objetivo é que você tenha informações seguras e baseadas em evidências para tomar decisões informadas sobre sua saúde [1].
Por que a prevenção de trombose é essencial na prótese?
A cirurgia de prótese de quadril ou joelho é uma intervenção que, apesar de seus grandes benefícios, representa um fator de risco importante para a formação de coágulos sanguíneos nas veias profundas da perna — um problema chamado de trombose venosa profunda (TVP). Quando um coágulo se solta e viaja pelos vasos sanguíneos até os pulmões, pode causar uma embolia pulmonar (EP), uma complicação séria que exige atenção médica imediata [2]. Entenda o que é a trombose venosa e como identificá-la.
Antes dos protocolos modernos de prevenção, a incidência de TVP após prótese de quadril chegava a 40-60% dos pacientes, e a embolia pulmonar a 10-20%. Graças às estratégias de prevenção baseadas em evidências, esses números caíram dramaticamente para aproximadamente 0,6% com uso de anticoagulantes, e até 1-2% com aspirina [2,4]. Essa redução representa uma verdadeira revolução no cuidado ortopédico.
O risco de trombose aumenta após a prótese porque a cirurgia causa inflamação nos tecidos, a imobilização relativa do membro após a operação reduz o fluxo de sangue nas veias, e a própria lesão cirúrgica ativa os mecanismos de coagulação do corpo. Todos esses fatores combinados criam um ambiente propício para a formação de coágulos [2,4].
É por isso que seu cirurgião recomendará uma estratégia de prevenção de trombose — seja com medicamentos como aspirina, anticoagulantes (enoxaparina, rivaroxaban, apixabano), warfarina, ou através de medidas mecânicas como meias de compressão e movimentação precoce [4].
Quais são as opções de prevenção disponíveis?
Existem várias estratégias comprovadas para reduzir o risco de trombose após prótese. Cada uma tem suas vantagens, limitações e indicações específicas. Seu cirurgião escolherá a melhor opção baseando-se em seu perfil de risco individual.
Aspirina (81mg a 325mg): É o medicamento mais acessível e de menor custo. Os dados mostram que a aspirina de baixa dose (81mg) oferece proteção contra trombose com risco muito baixo de sangramento. Estudos recentes indicam que aspirina de baixa dose pode ser tão eficaz quanto anticoagulantes em alguns pacientes de risco padrão [2,6]. Leia o guia completo sobre aspirina para entender melhor como ela funciona e quando é indicada.
Anticoagulantes injetáveis (enoxaparina - Clexane): Medicamentos que bloqueiam a coagulação do sangue. Aplicam-se via injeção subcutânea (sob a pele) uma ou duas vezes por dia durante 10-14 dias. São muito eficazes, especialmente em pacientes com risco elevado de trombose, mas requerem injeções diárias e têm custo mais elevado [4]. Saiba mais sobre a enoxaparina (Clexane).
Anticoagulantes orais diretos (DOACs): Medicamentos como rivaroxaban (Xarelto), apixabano (Eliquis) e dabigatrana (Pradaxa) oferecem proteção por via oral. São práticos porque o paciente toma um comprimido (geralmente uma vez ao dia), sem necessidade de injeções ou monitoramento com exames de sangue. Estudos mostram eficácia comparável aos injetáveis [4]. Conheça os anticoagulantes orais modernos.
Warfarina (Coumadin/Marevan): Um medicamento anticoagulante oral mais antigo. Requer monitoramento regular com exames de sangue (INR) e ajustes de dose frequentes. Atualmente, é menos utilizado que os anticoagulantes orais diretos porque estes são mais práticos e seguros [4]. Entenda quando a varfarina ainda é indicada.
Medidas mecânicas: Meias de compressão graduada, dispositivos de compressão pneumática sequencial (durante o internamento) e, mais importante, movimentação precoce e fisioterapia. Essas medidas aumentam o fluxo sanguíneo nas veias das pernas e são essenciais como complemento a qualquer estratégia farmacológica [2,4]. Veja como funcionam as medidas mecânicas.
Quanto tempo dura a prevenção?
A duração da prevenção de trombose varia conforme o tipo de prótese e o risco individual do paciente. Em geral, as diretrizes baseiam-se em evidências que mostram quando o risco de formação de coágulos é maior.
Para prótese de joelho (TKA): A prevenção com medicamentos deve durar no mínimo 10 a 14 dias após a cirurgia. Os dados sugerem que o risco permanece elevado até o dia 10-14, após o qual cai significativamente [4,5].
Para prótese de quadril (THA): A prevenção deve estender-se por 28 a 35 dias após a cirurgia. Essa duração mais prolongada reflete o fato de que o risco de trombose é mais alto e persiste por mais tempo após a prótese de quadril comparado à de joelho [4].
Se você tiver fatores de risco adicional para trombose — como história prévia de coágulos, câncer, trombofilia (tendência genética a coagular), ou cirurgia bilateral — seu médico pode recomendar prevenção por período mais longo [2,4].
É fundamental manter a medicação preventiva pelo tempo recomendado, mesmo que se sinta bem e não apresente sintomas. A maioria dos coágulos que se formam após prótese não causa sintomas, por isso a prevenção contínua é essencial.
Como o médico escolhe a melhor opção para você?
A escolha da estratégia de prevenção de trombose é personalizada e depende de diversos fatores. Seu cirurgião ortopédico utilizará ferramentas como a escala de Caprini, que avalia seu risco individual de trombose levando em conta idade, peso, história médica e outros fatores [2,4].
Se você tem risco baixo ou padrão — jovem, sem histórico de trombose, sem câncer, mobilidade recuperada rapidamente — aspirina de baixa dose (81mg) é frequentemente a primeira escolha. É segura, eficaz, acessível e praticamente sem efeitos colaterais graves nesta dose [2,6].
Se você tem risco elevado — idade avançada (acima de 70 anos), história prévia de coágulos, câncer ativo, trombofilia conhecida, cirurgia bilateral, imobilização prolongada — seu médico provavelmente recomendará um anticoagulante mais potente, como enoxaparina injetável ou um anticoagulante oral direto (rivaroxaban, apixabano) [4]. Veja as diretrizes para pacientes de alto risco.
As diretrizes internacionais de 2022 sugerem que aspirina de baixa dose oferece o melhor perfil de risco-benefício em pacientes de risco padrão, com menor incidência de trombose e infecção periprostética. Em pacientes de risco elevado, anticoagulantes mais potentes são indicados [4].
Além do medicamento, sua mobilização precoce, exercícios de fisioterapia, meias de compressão (se indicadas) e hidratação adequada são pilares essenciais do programa de prevenção.
O que você pode fazer para ajudar na prevenção
Você não é um espectador passivo na prevenção de trombose. Existem muitas ações que você pode tomar para reduzir ainda mais o seu risco e potencializar o efeito da medicação preventiva.
Movimentação precoce: Comece a se movimentar assim que autorizado por sua equipe. Na maioria dos casos, isso significa levantar da cama no dia da cirurgia ou no dia seguinte, caminhar com auxílio de muletas ou andador, e realizar exercícios de fisioterapia. O movimento aumenta o fluxo de sangue nas veias das pernas e é uma das formas mais eficazes de prevenir coágulos [2,4].
Hidratação adequada: Beba bastante água e outros líquidos não alcoólicos. Manter-se hidratado previne que o sangue fique muito "espesso", o que aumentaria o risco de coágulos. Procure beber pelo menos 2 litros de água por dia, a menos que seu médico recomende restrição por outra razão [2].
Elevação de perna: Quando estiver sentado ou deitado, mantenha a perna operada elevada acima do nível do coração quando possível. Isso ajuda a drenar o inchaço e facilita o retorno do sangue das veias [2].
Use as meias de compressão corretamente: Se prescritas, use-as conforme orientado. As meias de compressão graduada ajudam a impulsionar o sangue das pernas em direção ao coração [2,4].
Tome a medicação preventiva regularmente: Se lhe foi prescrita aspirina, anticoagulante ou outro medicamento preventivo, tome-o nos horários exatos recomendados. Não pule doses e não interrompa antes do prazo indicado, mesmo que se sinta bem [2].
Evite ficar imóvel por longos períodos: Não fique com a perna doblada ou muito imóvel por horas. Mude de posição, flexione os dedos dos pés, mexa as pernas. Se precisar viajar de avião ou carro, levante-se e caminhe regularmente [2].
Reconheça os sinais de alerta: Procure atendimento médico imediatamente se apresentar inchaço súbito da perna, dor intensa, vermelhidão, calor localizado, falta de ar ou dor no peito [2].
Referencias
- Gausden EB, Mihalko WM (eds). AAOS Orthopaedic Knowledge Update: Hip and Knee Reconstruction 7. Wolters Kluwer / American Academy of Orthopaedic Surgeons; 2026. ISBN: 978-1975248437. link
- Lieberman JR, Bell JA. Prophylaxis of venous thromboembolism after total hip and knee arthroplasty. J Bone Joint Surg Am. 2021;103(16):1556-1564. link
- Mont MA, Jacobs JJ. AAOS emphasizes the use of chemical prophylaxis in orthopaedic surgical patients. J Am Acad Orthop Surg. 2011;19(12):777-778. link
- International Consensus Meeting 2022 on VTE Prophylaxis in Hip and Knee Arthroplasty. J Bone Joint Surg Am. 2022;104(suppl 1):180-231. link
- Falck-Ytter Y, Francis CW, Jonasson T, et al. Prevention of VTE in orthopedic surgery patients: Antithrombotic Therapy and Prevention of Thrombosis, 9th ed: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines. Chest. 2012;141(2 suppl):e278S-e325S. link
- Anderson DR, Dunbar M, Murnaghan J, et al. Aspirin or rivaroxaban for thromboprophylaxis after knee arthroplasty. N Engl J Med. 2018;378(8):699-707. link
Perguntas Frequentes
Quanto tempo após a cirurgia começa a prevenção de trombose?
A prevenção de trombose geralmente começa no dia da cirurgia ou no dia seguinte. Muitos cirurgiões já administram a primeira dose de anticoagulante antes ou durante a operação, ou indicam medicação de prevenção a ser iniciada no mesmo dia. As medidas mecânicas, como movimentação e meias de compressão, começam ainda mais cedo.
Qual é a diferença entre aspirina e anticoagulantes?
A aspirina age bloqueando a agregação de plaquetas, impedindo que as plaquetas grudem umas nas outras para formar um coágulo. Os anticoagulantes (como enoxaparina e rivaroxaban) atuam em outra via da coagulação, bloqueando fatores de coagulação específicos. Anticoagulantes são geralmente mais potentes, mas com maior risco de sangramento. Aspirina é mais segura, mas pode ser menos eficaz em pacientes de muito alto risco.
Posso ter hemorragia por causa da prevenção de trombose?
Sim, existe risco de sangramento, mas é geralmente pequeno. Aspirina de baixa dose (81mg) tem risco muito baixo de sangramento significativo. Anticoagulantes têm risco maior, porém ainda considerado aceitável quando equilibrado contra o risco de trombose. Seu médico avaliará seu risco individual de sangramento e escolherá a estratégia mais segura para você.
E se eu tiver alergia à aspirina?
Se você é alérgico a aspirina, existem alternativas seguras: anticoagulantes injetáveis (enoxaparina), anticoagulantes orais diretos (rivaroxaban, apixabano), ou warfarina. Seu cirurgião recomendará a opção mais apropriada para seu caso, geralmente um anticoagulante mais potente devido à ausência da proteção da aspirina.
Preciso de exames de sangue regularmente durante a prevenção?
Depende do medicamento. Aspirina não requer exames de monitoramento. Warfarina exige monitoramento frequente do INR (coagulação). Anticoagulantes injetáveis (enoxaparina) não precisam de monitoramento rotineiro em pacientes com função renal normal. Anticoagulantes orais diretos (rivaroxaban, apixabano) também não requerem monitoramento regular. Seu médico indicará quais exames são necessários no seu caso.
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